opinião

Sou com grande orgulho uma filha legítima das Festas da Tróia

Fui criada no meio dos pescadores, neste rio azul que não há igual.
As festas fazem parte da memória de muitos.

Era sempre o momento mais esperado do meu verão. Na noite anterior ao sábado das festas da Nossa Senhora do Rosário de Tróia, a ansiedade não me deixava dormir. 

Era preciso estar quase de madrugada na doca porque assim mandava a maré e o tio Zé tinha de conseguir entrar com o barco na Caldeira para lá nos deixar. E se fosse preciso carregar o resto. Às vezes dava boleia ao homem da rádio, que durante os três dias de festa anunciava a missa, os jogos pela areia ou a apanha do pato. 

Já instalados começava a magia. O meu avô dava-nos tostões para os rajás e fazia canas com rabos de peixe para irmos encher os baldes de caranguejos. Quando a maré vazava, era ver-nos de rabo no ar com sal grosso a apanhar lingueirões. Ao primeiro foguete, e eram muitos por sinal, corríamos entre as tendas e barcos encalhados que ali estavam, todos como se fossem família.

Naquela altura eu era menina castiça de cabelos encaracolados e chinelos nos pés. O Flor do Monte, o barco do meu tio Zé, parecia demasiado grande e eu tinha lá muitos sonhos. 

Quando o mar estava calmo e parecia chão, dizia ele, eu podia conduzi-lo em direção ao paraíso. O avô, carregado de rugas e pele queimada do sol, contava as histórias de dezenas de anos no mar. Eu ouvia-as como se fosse a primeira vez. Depois fechava os olhos, sentia a maresia e percebia que era uma criança com muita sorte. E realmente feliz. 

Ia todos os anos, desde que nasci, à Festa da Tróia. A festa dos pescadores, de gente humilde, onde nos podemos sentar em qualquer mesa e pedir para repetir. Tinha esse privilegio e muitos dos meus colegas de escola não. 

Eu sabia apanhar lingueirões com sal de rabo para o ar e enchia baldes com caranguejos, que depois soltava para junto dos pés da minha irmã. Passava horas, durante aqueles três dias, ao pé do senhor da rádio para ganhar prémios e inscrevia-me sempre para me mascarar de anjinho na procissão. 

No último dia, quando íamos de barco até ao Outão, o tio Zé deixava-me ir à frente, se o mar estivesse chão. Sempre de T-shirt vestida, que o respeito à Nossa Senhora do Rosário de Tróia o meu avô não deixava falhar. 

Por falar no meu avô, este domingo não se vai dormir aí em cima, não é, meu velhote? Já fizeste as canas com os rabos de peixe? O tio está a amanhar o resto para a caldeirada feita no fogareiro para o almoço. Também há linguados no carvão. Aqui na Festa da Tróia nunca se sabe quem se vai sentar e pedir para repetir.

tags: Caldeira, crónica, festa da Caldeira, festa da nossa senhora do Rosário de Tróia, festa da Tróia, pescadores, setúbal, troia