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Setúbal está unida no combate à Covid-19 (e eu sei como pode ajudar)

Basta uma pequena doação para fazer uma família mais feliz e com comida na mesa.
Todos juntos.

A camisa vermelha cheia de flores contrastava com aquele cenário cinzento e com música triste do programa que ocupava o nosso serão das sextas-feiras à noite. Rosa, não lhe sei o apelido, estava sentada em frente a Henrique Mendes, o apresentador de “Ponto de Encontro”, na SIC.

A mulher de meia idade que eu nunca vira nos meus 9, 10 anos de vida — mas os suficientes para já querer assistir àquele momento de reencontro todas as semanas — queria encontrar o irmão mais velho, do qual tinha perdido o rasto.

“Não posso acreditar. Aquela é a Rosa com a camisa que lhe dei”, exclamou a minha avó Teresa, enquanto mandava o marido desligar a telefonia e perder uns minutos do relato, só para assistir à história.

Depois do suspense do costume, Henrique Mendes lá trouxe o irmão de Rosa, mas foi aquela camisa dos anos 70 que não mais me saíra da memória. Afinal, o que fazia aquela mulher que nunca tinha ido a casa da avó com uma peça de roupa dela num programa de televisão?

No dia seguinte, entre torradas e leite quente ainda sentada na cama, a minha avó deu-me a minha primeira lição de gratidão. A Rosa morava longe, em Porto Covo, tinha cinco filhos e uma história de vida do tamanho de um labirinto sem fim.

Sempre que ia passar uns fins de semana à casa de férias da minha tia Beta, a avó levava umas roupas para aquela mulher, que passava muitas vezes fome para que nada faltasse à rapaziada.

“És muito pequenina e podes não entender tudo agora, mas mais tarde quero que um dos teus maiores objetivos de vida seja dividires sempre tudo aquilo que conseguires por quem mais precisar”, disse-me a avó Teresa com o dedo no ar.

A partir daí começou a fazer sentido de cada vez que tocavam à campainha e uma senhora com o filho ia buscar um saco com leite e pão. Percebi, também, por que é que dávamos uns trocos a mais à velhota que entregava os ovos todas as sextas-feiras lá à porta.

Mais tarde, passei a ver sempre a nota de 5€ em cima do móvel da entrada. “É para a avó comprar o avio semanal para os mais necessitados. É pouco, mas é o que posso dar.” Desde que me lembro, e ainda hoje, que aquela nota é a mais importante da semana da minha avó.  Pode ter de comprar mais medicamentos ou até mandar arranjar o fogão — aquela dádiva, essa, nunca falha.

Esta sempre foi a minha realidade e não é a única, numa cidade que em tempos passou demasiada fome e vivia, essencialmente, do que o mar lhe dava. Provavelmente foi isso que fez com que as gentes de Setúbal passassem, de geração em geração, a importância que é ajudar o próximo, partilhar o pão.

Por isso, não consigo estranhar toda esta solidariedade em torno dos graves problemas económicos e sociais que a pandemia de Covid-19 está a trazer ao mundo e, em especial, à nossa cidade.

Rapidamente surgiu um movimento de inter-ajuda entre todos e há sempre alguém que tem algo para ajudar. As empresas usam os seus melhores recursos para criarem material e oferecem aos que combatem na linha da frente; os cidadãos compram águas, cremes e outros bens essenciais para doar.

Quanto a mim, segui o conselho da minha querida avó Teresa e juntei-me com uma colega num projeto de ajuda ao Hospital de São Bernardo, Associação Casa – Centro Apoio aos Sem Abrigo e Centro Social de São Sebastião.

Procuramos bens alimentares essenciais, paletes de garrafas de água, intercomunicadores infantis, material de proteção individual, cremes e até utensílios de cozinha. Temos pessoas incríveis que se voluntariaram para a recolha, ou seja, vão buscar tudo às vossas casas — com todas as condições de proteção e segurança — para que não tenham de sair.

Para participarem basta procurarem-nos no Facebook (Sara Chaves e Vanessa Alexandra Sequeira), que tratamos de toda a recolha. Há tantas Rosas para ajudar e os setubalenses nunca nos deixam ficar mal. 

tags: Associação Casa - Centro Apoio aos Sem Abrigo, Centro Social de São Sebastião, coronavírus, Covid-19, Hospital de São Bernardo, setúbal, voluntariado

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