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Setúbal celebra o fim da ditadura — A Revolução de Abril à beira Sado (1974)

Leia a crónica exclusiva do setubalense Diogo Ferreira, doutorado em História Contemporânea.
Ocupação das instalações da PIDE/DGS, no Bairro Salgado.

A circulação de rumores e notícias — provenientes da capital — em torno de um movimento militar revolucionário com vista ao derrube do autoproclamado Estado Novo possuiu um impacto considerável no seio da comunidade setubalense. No decurso do dia 25 de abril de 1974, Setúbal assistiu a pequenas manifestações, em diferentes pontos da cidade, promovidas por jovens, que foram manifestamente reveladoras do entusiasmo que provocou a queda do fascismo.

Os sadinos respeitaram, porém, o apelo das Forças Armadas para que regressassem às suas residências o mais cedo possível, tendo em vista a manutenção da ordem e tranquilidade públicas durante o golpe e a transição de poder. Ao contrário do que sucedeu em diferentes pontos estratégicos militares do País, o Regimento de Infantaria n.º 11 não aderiu, de imediato, à Revolução dos Cravos. O seu comandante, coronel José Alves Carvalho Fernandes, ordenou o encerramento do quartel, com as tropas no seu interior, adotando uma postura neutral, expectante e incomunicável.

No dia seguinte, o Círculo Cultural de Setúbal — espaço de oposição e resistência antifascista desde a sua fundação — reuniu dezenas de pessoas para preparar os primeiros cartazes da manifestação pública que teria lugar naquele dia. Estes pediam o fim da Guerra Colonial ou o julgamento dos polícias políticos pelos seus crimes. Foi o ensaio para a grande celebração da Liberdade. De igual modo, a reunião levou à decisão de se ocupar as instalações da Legião Portuguesa numa lógica de evidente saneamento político.

José Afonso discursa no antigo Círculo Cultural de Setúbal.
Neste espírito, a 27 de abril, os militares já ao lado da revolução, devidamente supervisionados por diversos elementos do Movimento Democrático de Setúbal, ocuparam a sede da PIDE/DGS, sediada no Bairro Salgado. Dezenas de setubalenses quiseram assistir a este histórico momento, recordando a imensa dor — física e psicológica — que esta instituição repressora gerou. Os funcionários da polícia política, com cerca de dois dias de intervalo, conseguiram destruir o respetivo arquivo e queimaram a documentação existente, impedindo que hoje se saiba em pormenor a dimensão das inúmeras prisões políticas que ocorreram no plano local e distrital nas décadas de 1950, 1960 e 1970. No edifício da Legião Portuguesa foram apreendidas armas, mobiliário e documentação. 
 
O 1.º de Maio de 1974 representou o verdadeiro momento de festa e comoção coletiva dos sadinos, celebrando o fim de 48 anos de censura, de repressão, de perseguição política e de ausência de múltiplos direitos individuais e coletivos. A Praça de Bocage assemelhou-se a um mar de gente. Os múltiplos cartazes empunhados pelos populares diziam, entre outros, “Abaixo o Fascismo”, “Viva o Partido Comunista Português” ou “Ao fim de 48 anos somos livres”. 
 
Leia-se a descrição do periódico “Notícias de Setúbal” de 4 de maio de 1974: “O povo, desde manhã, veio para a rua numa alegria desmedida. Carros apitando, flores e sorrisos por todos os lados. O “V” de Vitória feito com os dedos era uma constante. Pelas 15 horas foi a grande concentração no largo do Bocage onde, da varanda dos Paços do Concelho, se emitiram frases alusivas ao momento (…) Dísticos com as mais variadas frases, bandas de música, bandeiras de sindicatos, tudo esteve presente na grande homenagem aos trabalhadores.” (Citado a partir da obra Setúbal, Cidade Vermelha, 1974-1975, da autoria de Albérico Afonso Costa). 
 
Fonte: COSTA, Albérico Afonso, Setúbal, Cidade Vermelha (1974-1975), Estuário, Setúbal, 2014, p. 31.
Praça de Bocage no 1.º de Maio de 1974.
A varanda do edifício dos Paços do Concelho foi escolhida para que os palestrantes tomassem em palavra e se dirigissem à vasta multidão. Entre alguns dos oradores, encontravam-se Adilo Costa (último preso político regional, que fora libertado dias antes), de Jorge Luz (até então exilado político em França) ou Carlos Luz, jovem militante do PCP. Ao longo do dia, os setubalenses entoaram repetidamente as canções de José Afonso num clima caloroso e de extrema euforia. Os manifestantes percorreram algumas artérias da cidade, partindo da Praça de Bocage, passando pela Av. 5 de Outubro, pela Av. Jaime Cortesão, pela Av. Luísa Todi, pela Fonte Nova ou pelo Bairro da Nossa Senhora da Conceição.
 
As comemorações do Dia do Trabalhador ficaram concluídas com um comício de apoio ao Movimento de Forças Armadas, que teve lugar no Clube Naval Setubalense. O direito ao voto, o fim da Guerra Colonial ou a liberdade sindical foram alguns dos tópicos longamente debatidos por diversos ativistas. José Afonso, figura de tremenda popularidade em Setúbal, encerrou a sessão, apelando à unidade e mobilização popular. Ecoou no seu discurso a chamada de atenção para o facto do fascismo ainda ser um perigo, lembrando o caso do Chile.
 
Fonte: O Setubalense, edição de 3 de maio de 1974, p. 1.
Capa do jornal “O Setubalense” de 3 de maio de 1974.
Simbolicamente, o início da transferência do poder camarário teve lugar com a última reunião do executivo fascista, dirigido por José Constantino de Góis, em 8 de maio. Este, após 11 anos consecutivos no cargo, pediu formalmente a exoneração de Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, consciente do histórico momento que se vivia e expressando apoio à Junta de Salvação Nacional. A antiga Barcelona Portuguesa e a nova Cidade Vermelha abraçavam a Revolução dos Cravos.
 
Setubalense Diogo Ferreira, historiador doutorado em História Contemporânea.

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