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Quando tudo isto acabar é nosso dever ir ao comércio local e ao café da esquina

A Covid-19 está a assombrar Setúbal e todo o País, mas no fim quem vai vencer somos nós.
Baixa de Setúbal.

Todos os dias, às 19h30, a chamada nunca falha e começa sempre da mesma maneira: “Então, minha neta, já vens no comboio?”. Nas últimas duas semanas, a resposta teve sabor amargo e foi dada por mim sempre vestida com um pijama velho cujos elásticos já viram noites mais felizes. 

“Estou em casa, avó. Já sabes que só aqui nos conseguimos proteger.” Foi difícil para a minha querida avó, no alto dos seus bonitos e sábios 80 anos, perceber que já não podia ir beber o café depois do almoço ou visitar a irmã ao bairro do lado.

Confessou-me, numa das chamadas, que não entendia porque é que ia ficar proibida de “chamar um táxi para ir com o avô ao Continente.” Com calma e de maneira tranquila, expliquei-lhe o quanto o coronavírus é grave e que sobretudo os mais velhos têm o dever de se proteger. Eu cá estarei durante o tempo que for preciso para lhe levar tudo o que ela necessitar.

Agora, numa altura em que consigo estar mais tranquila por saber que eles estão em segurança (e a cumprir as regras do governo pelo seu bem), pus-me aqui a pensar que há coisas mesmo inexplicáveis.

Depois de um 2019 agridoce, prometi que neste ano ia dedicar mais tempo à minha família. Não ia deixar um visita para amanhã, nem um convite para virem almoçar à minha casa para o fim de semana seguinte. Ia ter sempre tempo para brincar com a minha filha, mesmo que estivesse exausta de um dia mau de trabalho. Não ia dormir sem perguntar ao meu marido se o trabalho tinha corrido bem.

Ironicamente vejo-me a fazer tudo isto sem sequer o conseguir controlar. E se há lição positiva a tirar da Covid-19 é esta: não há nada, mesmo nada mais importante do que a chamada da avó, o abraço de um filho ou a pergunta do nosso amor a saber se correu tudo bem.

Agora, que devemos estar sempre que possível na nossa casa devemos aproveitar mais do que nunca “a nossa casa”. E ela é tudo aquilo que neste momento nos faz sorrir. 

Um dia, quando finalmente o Homem vencer esta pandemia, há ainda um outro dever a cumprir: ajudar aqueles que mais vão precisar. Temos de comprar os legumes à mercearia do final da rua, ir sempre que possível ao café da esquina ou comprar um par de sapatos no comércio local.

No geral, os portugueses ganham para o dia a dia, não há grandes margens para poupanças. Por isso, os grandes vão ser capazes de se aguentar; mas os pequenos temos mesmo de ajudar.

2020 vai ser um ano duro para todos, acho que já não há grandes dúvidas disso. Só todos juntos, a remarmos para o mesmo lado, é que vamos voltar a ter aquilo que até há bem pouco tempo não dávamos o devido valor: a liberdade. Ela há-de chegar, amigos setubalenses, há-de, há-de.

tags: coronavírus, Covid-19

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