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Quando morre um verdadeiro setubalense o mundo fica sem dúvida mais pobre

Uma homenagem ao meu querido Carlos, que um dia hei-de voltar a encontrar.
Quase que posso jurar que estava um dia de sol e havia pouco movimento naquela pequena estrada. A calçada servia de tapete para qualquer que fosse o nosso jogo: do elástico ao pião. Eu gostava de brincar na rua e era sempre a primeira a lá chegar. 
 
Naquele dia ele apareceu com o sorriso de sempre e uma cassete na mão. Atrás dele vinha uma pequena fila de gaiatas com totós coloridos e a saltar cada vez mais alto. “Queres que vá pedir à tua avó para ires ver ‘Os Aristogatos’ com elas lá para casa?”. 
 
Disse que sim mesmo sem nunca lhes ter ganho um jogo da macaca, mas eu sabia que era boa gente. E que a partir dali ia ser tudo diferente. Seguiram-se 25 anos de uma amizade pura e não houve semana em que não fosse lá a casa. As três meninas passaram a ser as nossas melhores amigas, o Carlos e a Rute inseparáveis da minha mãe e padrasto. 
 
Passámos a ser uma só família. Partilhámos tudo o que há de bom neste mundo: das férias, às sardinhadas naquele quintal, das vitórias da Seleção aos Natais onde tínhamos sempre de estar juntos. 
 
Nesta união, o Carlos era a voz da razão. Tinha sempre uma história para contar e um conselho que não ficava por dizer. Tinha vivido numa casa em pequeno com vista para o Sado, que lhe deu uma infância feliz. 
 
Depois foi percorrer o mundo e trouxe uma bagagem que nos servia sempre de sobremesa ao jantar. Era à mesa que o ficávamos a ouvir até depois da hora, já adolescentes com a mania que tínhamos o mundo na mão. 
 
Nessa altura, como até há uns dias, o Carlos fazia as malas e ia com o meu padrasto trabalhar para fora, sempre à procura de uma vida melhor. Nunca dizia quando voltava para ser surpresa e nós, mesmo desconfiadas, fazíamos o ar de espantadas que ele tanto gostava.
 
O Carlos era o chamado homem de família. Da dele e da minha, que desde sempre acolheu. O Carlos morreu no final da tarde fria de 17 de novembro e o plano não era este. Tinha-me prometido ir ao meu casamento porque sabia que lá fazia falta como um pai.
 
O Carlos morreu no final da tarde fria de 17 de novembro e um pedaço da cidade foi-se com ele. Porque quando morre um verdadeiro setubalense, o mundo fica sem dúvida mais pobre. 
tags: crónica, homenagem, setúbal, setubalense

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