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Opinião: Sou um sortudo por viver em Setúbal

Leia a crónica de António Aleixo, realizador do coletivo setubalense GARAGEM.
Serra da Arrábida.

Sou um sortudo. Cheguei a casa no bairro Salgado, acendi o lume no pátio, e preparo-me para assar umas douradas para o almoço. Passei a manhã na serra da Arrábida a andar de bicicleta e aproveitei para dar um mergulho nas rochas do antigo Seagull antes de voltar.

Estamos em maio de 2020, no período de pós-confinamento, e esta tarde esperam-me ainda umas horas de trabalho. Sim, sou efetivamente um sortudo. Ao contrário de tantos outros, vivo da profissão que escolhi, tenho a família com que sempre sonhei e ainda o privilégio de poder viver em Setúbal, a cidade que escolhi. 

Mas nem sempre foi assim. A minha relação com a cidade nem sempre foi pacífica. Durante anos procurei o meu “paraíso”. Vivi em vários países e continentes e tive a sorte de conhecer muitos mais em trabalho. Todos eles, de uma forma ou de outra, acabaram por moldar a minha perceção de Setúbal. Em todos eles acabei por descobrir uma ou mais características que fazem de Setúbal um verdadeiro paraíso. Um paraíso onde cresci e que só mais tarde verdadeiramente aprendi a valorizar.

E não se trata apenas do seu enquadramento geográfico. As praias, a Arrábida, Tróia aqui ao lado, um centro histórico invejável, a baía ou a zona ribeirinha são atrativos naturais que não podem ser descartados, mas a verdadeira beleza da cidade vai muito para além disso. São as pessoas. 

Como realizador é, para mim, inquantificável o privilégio de poder privar com a comunidade criativa da cidade, um filão de riqueza que gerações e décadas de poder político teimam em não aproveitar. Não é por mero acaso que de Setúbal brotam tantos talentos em várias áreas de expressão artística, como atores, músicos, artistas plásticos e cineastas. 

Por mera curiosidade dir-vos-ei que são raras as vezes em que trabalho com uma equipa, onde não figure pelo menos uma ou duas pessoas de Setúbal, embora na verdade radicadas em Lisboa, essa urbe tão grande e tão perto que teima em delapidar o nosso talento, geração após geração, por culpa da falta de visão estratégica, que se tornou crónica e partidariamente transversal.

António Aleixo é realizador do coletivo setubalense GARAGEM.

Setúbal sempre foi e continuará a ser enquanto este mindset durar uma eterna promessa. Temos tudo para sermos um polo gerador de riqueza e uma cidade de referência a nível europeu. Mas para isso temos de inovar e apostar em estratégias diferenciadoras.

A cidade cresceu bastante na última década e temos a agradecer ao atual executivo camarário e à sua presidente o enorme desenvolvimento no plano das infraestruturas. A Setúbal de hoje não se compara à Setúbal de 2010 e está a anos luz daquela que me fez procurar outros paraísos.

Estamos incomparavelmente melhores e temos todos os trunfos de que precisamos. Agora falta-nos o arrojo e a inovação capazes de nos diferenciar de todos os outros. O Algarve terá sempre mais sol que nós, os seus areais e os da Costa Vicentina serão sempre maiores que os nossos, capazes de atrair turistas em massa e Lisboa aqui tão perto será sempre Lisboa.

A nós, enclausurados entre ambos, resta-nos oferecer algo diferente. Que nos diferencie e que gere riqueza interna. Algo que beba a sua influência naquilo que somos e temos para oferecer. É aí que está o futuro de Setúbal. Enfim. A conversa vai longa e o peixe entretanto está pronto. Vivo da profissão que escolhi, tenho a família com que sempre sonhei e ainda o privilégio de poder viver em Setúbal, a cidade que escolhi. Sou um sortudo.

tags: António Aleixo, crónica, realizador, setúbal, viver em setúbal

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