opinião

Opinião: Setúbal, memórias geográficas

Leia a crónica exclusiva do ator José Nobre para a New in Setúbal.
Praça do Bocage. Foto: Município de Setúbal.

Comecei pelo fim. Normalmente começa-se por tentar publicar poesia, ou romance, só depois as memórias. Acontece que não deverá existir melhor diário que a poesia, nem melhor ficção do que aquela que subtrai à pura invenção a dura realidade. Então, o que serão as memórias senão fragmentos poéticos do romance que é a nossa vida?

A geografia é apenas o cenário onde a nossa história se desenrola. O cenário de fundo que me pertence é Setúbal. Fui concebido algures no Alentejo, mas escolhi vir cá nascer, estávamos no ano (do Senhor) de 1972, no princípio do seu derradeiro mês. Alma e espírito pousaram na barriga materna de Maria dos Santos Nobre através de um natural raio de luz solar.

Vagas recordações dos tempos em que gatinhava. Dos primeiros acessos à luz e à cor recordo-me: dos restos de um brinquedo tricolor, azul, branco e vermelho, ao fundo de um corredor gigantesco, de paredes de infinita grandeza e claridade; do Elvis cantando na televisão a preto e branco, a minha mãe lamentando a sua morte, e eu sem compreender a sua dor — o que será a morte?

A primeira morada foi na Av. D. João II, nº 32, R/C, um quarto alugado. Se olharem o mapa da cidade poderão confirmar que aterrei mesmo no meio. Nasci no Hospital de S. Bernardo, atravessaram a dita avenida comigo ao colo e depositaram-me no primeiro berço.

Logo me mudei, com os pais a rojo, para a rua Moinho do Frade, nº13/19. A numeração dúbia tem uma estória por detrás. Muitas outras me povoam a memória, as quais vou deixar para vossa leitura logo que a obra — Setúbal, Memórias Geográficas — esteja concluída.

O ator José Nobre no papel do poeta Bocage.

A primeira escola, professora, os primeiros colegas, e tudo o resto que se seguiu entre a Av. Rodrigues Manito, a Camarinha, o Quebedo, as Manteigadas, a Av. Luísa Todi (com entrada no prédio pela rua Marques da Costa), a rua do Concelho (mesmo juntinha à Praça de Bocage) e a rua Camilo Castelo Branco, de onde vos escrevo ainda, coincidentemente muito próximo da minha primeira morada.

Não será esta a última, mas a próxima será decerto em Setúbal, onde estóica e prazenteiramente permanecerei, apesar do constante assédio profissional da capital Lisboa. Falarei ainda das escolas que frequentei, dos sítios onde trabalhei, de como esta cidade e os seus habitantes me foram educando a ser exactamente o que sou hoje.

tags: ator, crónica, José Nobre, memórias, Opinião, setúbal

outros artigos de opinião

mais histórias de Setúbal