opinião

Opinião: Setúbal, as minhas melhores recordações

Leia a crónica exclusiva do chef de cozinha Vasco Alves para a New in Setúbal.
Baixa de Setúbal.

Fazer uma crónica sobre Setúbal obriga os sentidos e o coração a viajar sem destino certo, mas com um propósito, doce e leve como a brisa em dia de verão. Aceitei este desafio ciente da responsabilidade e grato pela oportunidade.

Grato pela forma como Setúbal sempre me acolheu e de forma mais permanente, no dia 7 de fevereiro de 2013, no número 21 numa das ruas da Baixa de Setúbal. Passei a viver numa zona que num primeiro momento me pareceu uma boa escolha, mas que com o cair da noite revelou ser um local muito abandonado e com ambiente pesado. 

Em 2013 estava tudo literalmente por fazer na Baixa de Setúbal, o que era simultaneamente um handicap e um mar de possibilidades. Agarrei-me às possibilidades e comecei a explorar mais o potencial escondido à espera de ser resgatado e esse, foi um processo que pediu muito de mim e que eu dei com o entusiasmo de quem tem a perceção de que existe mesmo um pote de ouro no fim do arco-íris. 

Dois anos foi o tempo para começar a materializar o sonho com a abertura do Restaurante e Hostel & Suites na Baixa de Setúbal e com ele veio o nome, fruto da combinação poética que Setúbal inspira. Inspiração. Nascia o De Pedra e Sal, que remete para a força da expressão “de pedra e cal”, com a pedra a simbolizar a Serra da Arrábida e o sal a magnífica Baía dos Golfinhos.  

Todo o projeto foi sonhado, pensado, projetado e executado para ser um espaço de memórias e de construção de outras; um espaço autêntico, local, informal, onde queremos vender mais que comida (como dizia a minha avó). Além de alimentar almas e bocas, no De Pedra e Sal tudo se vende — pratos de barro de Bisalhães, a pedra de sal, a marmita, e os aventais. Queremos que quem nos visite saia reconfortado e feliz levando consigo um pouco de Setúbal e Portugal.

Colocámos a cozinha na montra, num claro assumir de transparência com o nosso trabalho, até porque estamos na Baixa, e como aqui tudo se vende nas montras, achámos que devíamos também ter uma montra que divulgasse o trabalho dos nossos colaboradores, o chef de cozinha João Oliveira e chef de Sala Nuno Santos e a sua equipa. 

Como tudo na vida, este desafio envolve pessoas, sem as quais nenhum projeto desabrocha e cresce. Por isso não posso deixar de referir a importância delas em tudo o que aconteceu, e que irá acontecer. Falo do meu sócio e amigo Rui Almeida, sem ele nada disto seria possível, da minha mulher Paula Milho, que tem paciência para me aturar e ser cada vez mais, ela própria, a catalisadora de novos projetos, já na forja. Falo também do arquiteto João Veríssimo, da arquiteta e decoradora Carolina Rocha, Sandra Vidasinha, entre outros.

Viver em Setúbal tem sido e vai continuar a ser uma verdadeira aventura e desafio permanente, pelas pessoas que fui conhecendo pelo caminho e que são, essas sim, o segredo da cidade ter hoje o sucesso que tem em tantas áreas. E que bom é fazer parte desse caminho. 

Assaltam-me as memórias e do baú das recordações, as minhas férias passadas em Tróia nos anos 80 e posteriormente a minha inspeção no quartel do 11, (atual Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal), onde trabalho como chef de cozinha. Nestes pedaços de que a vida é feita, a cidade de Setúbal preenche alguns dos capítulos da minha vida em diferentes momentos e contextos. 

De referir também, porque é uma realidade, a forte aposta que tem sido feita na cultura e no desporto, bem como a atratividade de vários eventos que promovem a região e são catalisadores para a prática saudável de exercício físico. 

De salientar também a revitalização de alguns espaços na cidade como o Mercado do Livramento; a Casa da Cultura; o Fórum Municipal Luísa Todi; a Biblioteca Munícipal; o Museu do Trabalho Michel Giacometti; a Casa da Baía; a abertura da Academia de Padel no Jardim do Vanicelos; a Cidade Europeia do Desporto em 2016, para referir apenas alguns. Um orgulho para os Setubalenses e para quem nos visita. 

Desde que adotei Setúbal como lar e local de trabalho, sinto que foi o turismo o setor que mais cresceu. Puxando “a brasa à minha sardinha”, direi mesmo que a inauguração da nova Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal terá ajudado a mudar, em parte as mentalidades mais conservadoras na prestação de serviços, tão fundamentais, como bem servir (front office). 

A abertura de muitos e bons projetos, mais virados para o turismo gastronómico, com algum storytelling e preservação da identidade cultural seja material ou imaterial foi um desafio ganho. A eleição de uma das 7 Maravilhas da Gastronomia terá contribuído muito para essa afirmação.  

Relevante também o papel desenvolvido pelo poder político na divulgação da gastronomia em feiras nacionais e internacionais, nos vários eventos promovidos pela cidade, nos workshops na Casa da Baía e no Mercado do Livramento (um dos melhores e mais bonitos do mundo). Por este, e outros exemplos Setúbal é um destino gastronómico de excelência. Já o tinha afirmado em 2015 num programa da RTP1 “Uma Mesa Portuguesa com Certeza”. 

Neste novo normal em que se encontra o mundo, existe um manancial de oportunidades que Setúbal pode e deve aproveitar para se reinventar e desenvolver ainda mais a Baixa e as ruas com novos projetos que divulguem mais tudo o que faz parte da nossa identidade cultural. 

Apetece-me dizer que chegou a hora de sermos glocais, ou seja, promotores dos produtos locais a nível global, trabalhar mais em cooperação e alargar os horários do comércio local aos fins de semana e feriados, e fechar mais tarde (como se de um centro comercial se tratasse).

Setúbal sempre se soube reinventar e esta competência está ligada à história da própria cidade, que já foi uma das cidades mais prósperas de Portugal, perdeu alguns símbolos importantes, mas manteve outros, como o Vitória Futebol Clube que se tem mantido sempre na disputa do campeonato. “Que adrenalina ir assistir a um jogo e depois comer um bifana no exterior do estádio do Bonfim”. 

Foi com sentido de missão cumprida que conseguimos devolver a Brasileira à cidade, agora num conceito muito próprio: o Moscatel de Setúbal Experience. E com isso revitalizar ainda mais a Baixa de Setúbal que aos poucos vai ficando cada vez mais cosmopolita.

Vasco Alves é chef de cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal.

No projeto do Moscatel de Setúbal Experience o conceito é simples mas inovador: utilizar um mono produto muito acarinhado e vencedor de inúmeros prémios nacionais e internacionais, o moscatel de Setúbal. Tudo que vendemos tem como base o moscatel, quase tudo leva moscatel, seja em redução, em molho, ou simplesmente puro (é como eu gosto mais).

Com isso, o arquiteto João Veríssimo criou uma box moderna com uma esplanada confortável na principal praça de Setúbal. E para tornar o espaço mais poético temos como vizinho, o famoso poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Adoro este projeto, pelo desafio que é trabalhar num espaço tão pequeno e desafiante, não só pela agradável afluência de clientes setubalenses, que desde do primeiro dia nos deram os parabéns. Foi e continua a ser o projeto que mais traduz o futuro de um bom investimento, de/e para Setúbal, tanto que já crescemos com abertura de mais três espaços, um em Tróia, junto à marina, outro na nova Academia de Padel de Setúbal no jardim de Vanicelos.

Agradeço ao Bruno Ferreira e Rita Ferreira pelo desafio proposto e logo aceite. Um espaço muito agradável onde podem praticar a modalidade num ambiente de jardim. Uma zona muito bem reabilitada, juntamente com uma academia de treino funcional (Good Vibes Primal Studios) do meu amigo Helder Rosa.

E por último, a melhor surpresa que a minha mulher me reservou. Quando regressei de uma viagem de trabalho a Itália, me disse. “Fiquei com a loja ao lado da box! Sim, a antiga Brasileira”. Pronto, tínhamos conseguido a tão desejada loja para fazer evoluir o conceito, que neste momento está a mudar, e assim ficar mais forte, com pratos sérios, como bifes, o nosso bitoque e pratos do dia sempre com novidades diárias e promoções.

Aqui, uma vez mais, as pessoas foram a nossa inspiração e prioridade. Mimar os nossos clientes e fazer com que se sintam satisfeitos e felizes é o compromisso diário dos nossos colaboradores liderados pela ‘chefona’ (carinhosamente assim chamada por nós e pela equipa), Sandra Vidasinha, uma setubalense de gema.

Temos ainda a baía mais linda do mundo, inspiração de pintores e poetas e a Serra da Arrábida, onde a generosidade da mãe Terra permite desfrutar de paisagens de sonho e praticar uma panóplia imensa de desportos como o trail running, trekking, etc. E depois temos as praias, únicas e maravilhosas, locais de excelência para em qualquer altura do ano recarregar as baterias necessárias à luta do viver. 

Por tudo isto e outras tantas coisas boas que a cidade me proporcionou, por cá ficarei com a minha família, essa sim quase cem por cento setubalense. A minha mulher e os meus últimos dois filhos Ari e Noa, nascidos em Setúbal. Somos felizes e gratos por viver cá, no bairro Salgado cheio de muitas e boas recordações. O meu muito obrigado Setúbal. 

tags: Baixa, crónica, Moscatel de Setúbal Experience, Opinião, setúbal, Vasco Alves

outros artigos de opinião

mais histórias de Setúbal