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Opinião: Setúbal, a utopia que não morre

Leia a crónica exclusiva da mediadora de leitura e poetisa Sara Loureiro para a New in Setúbal.
Frente ribeirinha.

Nos anos 70 do século XX viajava-se pouco, sabia-se pouco. A terra onde se vivia era a terra onde se havia nascido, a terra onde se estudava, trabalhava, casava e tinha filhos, a mesma onde se havia de virar pó. Mas este paradigma, de tão gasto, cinzento e miserável, anunciava-se moribundo. Alguma coisa estava para acontecer.

Setúbal não me viu nascer. Vim ao mundo na vila do Montijo. Do mesmo modo, Setúbal não foi a terra que me serviu de escola na infância, nem onde fiz os primeiros amigos, nem a terra que calcorreava e conhecia como a palma da mão. Setúbal veio depois. Setúbal era a capital de distrito, estava lá longe (pelo menos a uns 25 quilómetros, uma distância fenomenal). Tinha praias bonitas, dizia-se. Só podia ser uma grande cidade. Foi assim que Setúbal se agigantou aos meus olhos.

Frequentei as escolas primária e preparatória no Montijo e, quando em 1970 terminei o Ciclo Preparatório do Ensino Secundário, vi-me confrontada com uma das grandes decisões da minha vida: ou seguia os estudos, entrando no ensino técnico, essencialmente “reservado” aos filhos da população com menores rendimentos, que era o meu caso, ou entrava no ensino liceal,  frequentado por alunos predominantemente oriundos das classes de maiores rendimentos. Tudo parecia indicar que ficaria no ensino técnico, uma vez que no Montijo nem ensino liceal havia.

Mas o destino, por vezes, tem mesmo que ser torcido. Eu tinha apenas 12 anos, mas sabia que queria ir para o liceu, para Setúbal, a capital de distrito, que não conhecia e onde não conhecia ninguém, que a minha família não conhecia, que ficava distante e implicava uma viagem de comboio, aliás duas, porque havia que fazer um transbordo no Pinhal Novo e apanhar outro comboio, o que vinha do Barreiro, cheio de estudantes, rumo à cidade de Setúbal.

Setúbal tinha mais encanto. Era a cidade das muitas dezenas de estudantes que, diariamente, se deslocavam para Setúbal, oriundos do Barreiro, da Moita e das cercanias, do Pinhal Novo e do Montijo. Aquela era a nossa utopia. Não foi fácil convencer os meus pais. Tinha 12 anos e ir para Setúbal diariamente implicava um aumento nas despesas do agregado, implicava riscos, implicava deixar os amigos e as minhas referências, mas devo ter sido muito persuasiva.

Segui para o ensino liceal. Em outubro de 1970, estava no Liceu Nacional de Setúbal, no Curso Geral dos Liceus. A minha utopia, ali, a mostrar-me que valia a pena lutar. Tudo tão bonito e desafiante e diferente. Setúbal, a grande cidade. Ainda que o não fosse para os outros. Era-o para mim. Aos poucos, paulatinamente, Setúbal fez-se minha. Os amigos de adolescência estavam lá, os colegas de turma estavam lá, os amores e os desamores estavam lá, todas as razões da adolescência estavam em Setúbal. E por lá fui ficando.

Setúbal não me viu nascer, mas viu-me crescer, ajudou-me a ser gente. E quando “emergimos da noite e do silêncio”, foi Setúbal que me abriu portas para “aquele dia inicial inteiro e limpo”, outra utopia a lembrar que as utopias não podem perecer. O 25 de Abril de 1974 foi vivido em Setúbal, o primeiro 1º de Maio também. Rios de gente desaguaram na cidade. E eu estava lá, nesse banho de liberdade.

E fui ficando, ficando, cada vez mais aprisionada a tudo e a todos, ao rio, à serra, aos amigos, à família que fui construindo, fui ficando, mesmo nas alturas em que Setúbal já não me parecia tão bonita, mesmo quando tive que sair para estudar em Lisboa, mesmo quando Setúbal parecia perdida no tempo e se apresentava descuidada, triste, empobrecida. Mesmo nesses tempos, fui ficando sempre. Nunca pus a hipótese de não ficar. Mesmo no desalento, era a minha cidade. É a minha cidade, uma utopia que não morre.

Setúbal é, hoje, para orgulho de todos, uma cidade completamente renascida, uma grande fénix, uma cidade que ainda ampara os meus sonhos, uma cidade que me surpreende com a forma rejuvenescida com que se apresenta, uma cidade que vale a pena. Uma cidade que tem tudo, até o que as outras não têm, porque é aqui que os meus sonhos acordam e se fazem à vida.

Sara Loureiro nasceu no Montijo, mas está em Setúbal há vários anos.

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