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Opinião: Os putos do Montalvão

Leia a crónica exlusiva do chef de cozinha Álvaro Santos para a New in Setúbal.
Álvaro Santos cresceu no bairro do Montalvão.

Quando cheguei a Setúbal tinha dois anos. Nascido em Paranhos, no Porto, os meus pais vieram trabalhar para a cidade e, claro está, lá vim eu com eles. Dessa época o pouco que sei foi-me contado pelos meus pais e por vizinhos, que se lembram do puto traquina que corria o bairro, que ia à Leitaria do Sr. Jorge e da Dona Rosa comprar gelados e pedir copos com água e brincava nas ‘EsTraseiras’ como dizíamos na altura.

Desde que me lembro como gente (mesmo expressão de quem já é velho) considero que o Montalvão é um bairro calmo e pacato, onde se ouviam os passarinhos cantar de manhã, coisa que ainda hoje conserva.

O movimento nos cafés com esplanadas cheias, a peixaria, os talhos, as mercearias, os cabeleireiros e os barbeiros (sim, porque os homens iam ao barbeiro, não havia cá misturas como hoje). O bairro tinha uma vida muito própria e autónoma, na realidade não havia grande necessidade de sair de lá para nada.

Tínhamos de tudo um pouco, mas sobretudo tínhamos paz, sossego, miúdos a brincar, a jogar ao bugalho, as pistas de carrinhos que fazíamos nas traseiras a imitar os circuitos de F1, os jogos da bola onde a rivalidade entre os quarteirões do bairro era enorme. 

Havia o pessoal da Leitaria, dos edifícios e os Tetas que nunca entendi porque assim se chamavam, mas que invariavelmente acabava em confusão, lutas. Aqui, o bom da situação é que no dia seguinte estava tudo bem outra vez.

Havia também umas grandes festas dos Santos Populares, onde muitas das vezes até artistas conhecidos da cidade atuavam. Fazíamos peditórios no bairro para comprar os produtos que depois vendíamos na festa, havia sempre mães que faziam bolos, bolachas, sandes para vendermos. Era uma grande festa com direito a fogueira que quanto maior melhor para saltarmos.

Mas o desporto favorito era mesmo roubar fruta nas vivendas. Felizmente para todos nós não era uma questão de sobrevivência ou necessidade, era mesmo a adrenalina do ato, muitas
das vezes os filhos dos donos dessa mesma fruta vinham connosco.

Depois comíamos sentados nas portas dos prédios a saborear as frutas acabadinhas de colher. Lembro-me também nesse capítulo que havia um senhor que vendia melâncias no mercado, e todas as noites ele estacionava a camioneta no bairro.

Diziam as más línguas que ele ‘ia provar a fruta da vizinha’. Para nós, esses dias eram perfeitos para roubar melância e o saque era tal que um certo dia o senhor veio ter connosco e disse que tinha deixado umas melâncias de parte para nós. Mas pediu que não mexêssemos nas outras nem deixássemos cascas espalhadas pela rua toda, não só porque ficava toda suja, mas acima de tudo porque toda a gente ficava a saber que ele tinha lá estado…

Álvaro Santos trabalha como chef de cozinha há vários anos.

A malta cresceu, começou a trabalhar, casou e houve uns anos em que o Montalvão já não parecia o mesmo, quase não havia miúdos na rua, verdade seja dita que os putos de hoje não abem brincar na rua, ficam em casa nos telemóveis, a ver Netflix e a jogar.

Mas como tudo é cíclico, esse Montalvão de há 30 anos está a voltar, muitos de nós voltamos ao bairro (eu nunca sai de cá) exceto quando trabalhei fora de Portugal, as crianças começaram a ir brincar nas ruas outra vez, a Leitaria do Montalvão voltou a ser o que era.

Não resisti e quando vi que a Leitaria estava a morrer, fiquei com ela para tentar manter a casa e devolver a identidade de outrora. Também outros cafés e estabelecimentos comerciais abriram ou reabriram, como é o caso do Conde D´Arcos.

Se é verdade que o Montalvão nunca irá voltar a ser o que era, também é verdade que se está a reinventar, modernizar, mas está vivo de e boa saúde. Os casais novos que estão de volta ao Montalvão assim como há 50 anos os nossos pais o fizeram levam-me a acreditar que este bairro não só sobrevive como voltará em breve a ser o melhor bairro da cidade para se viver outra vez.

tags: Álvaro Santos, bairro do montalvão, crónica, Leitaria do Montalvão, Opinião

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