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Opinião: O encontro da musa Clio com a ‘Barcelona Portuguesa’

Leia a crónica exclusiva de Diogo Ferreira, historiador e bolseiro de doutoramento da FCT.
Vista sobre a cidade de Setúbal.

Na longa busca interior que todos percorremos durante a vida para nos encontrarmos, deparamo-nos com avanços e recuos na difícil distinção entre o reflexo da imagem que temos de nós mesmos e a realidade de quem somos. Nesta viagem — que ainda decorre — tive a felicidade de achar as minhas duas grandes paixões: Setúbal e a História.

A primeira prende-se com a ligação umbilical à cidade onde nasci em 1991. A minha querida mãe deu-me à luz em casa, na Rua Diogo Cão, numa época em que raros são os casos de quem não nasceu no hospital de S. Bernardo. Talvez, também por isso, o meu desejo de conhecer o mundo não seja tão intenso como noutras pessoas.

O primeiro mundo que vi foi o quarto dos meus pais. Neste microcosmo que é Setúbal sinto-me em casa. Numa casa que me compreende, numa casa que conheço, onde conheço as pessoas e os lugares. Certamente que partilho isso com tantos outros setubalenses.

Sempre que revemos o azul do Sado, o verde da Arrábida ou a estátua do Elmano é como se a alma ganhasse um novo ímpeto e se renovasse. Nas veias corre-me o sangue de familiares que aqui nasceram e fizeram as suas vidas durante o século passado: um bisavô construtor naval (Artur Santos), bisavós operários conserveiros (Manuel Jóia e Cassilda Madeira), avô empregado de mesa (Artur Santos) ou uma avó latoeira (Pátria Olga).

Por seu turno, a História está na minha vida desde que me lembro. É um amor incondicional que sempre esteve comigo, mesmo que eu o não soubesse. Quer seja pelo facto de aos cinco anos ter pedido como prenda de aniversário visitar o castelo de Palmela ou por ter entrado na licenciatura em História, este amor trago-o comigo.

O título que dá o mote a este texto, bastante mais autobiográfico do que inicialmente previsto, foca-se na simbiose das minhas duas paixões, o passado e a cidade, que resultou no despertar de uma profissão que me preenche a tantos níveis: historiador local. Esta conjugação despertou no decurso da minha investigação de mestrado (Setúbal e a Primeira Guerra Mundial, 1914-1918, publicada pela Estuário em 2017) e consolidou-se na presente investigação de doutoramento: Setúbal entre Guerras (1919-1939): Um itinerário de história local.

Diogo Ferreira é historiador.

Foi através do abraço da Clio, a musa da História, que conheci a ‘Barcelona Portuguesa’, alcunha de Setúbal, que foi criada pelos operários setubalenses do princípio do século XX. Deste encontro devo destacar quão incríveis são as estórias de solidariedade dos trabalhadores e operários da região que sonharam e lutaram ferozmente por um mundo mais justo, apesar dos atrozes contextos em que viviam, e que estavam conscientes de que a resistência coletiva era o veículo para o progresso civilizacional.

Tendo estes episódios como ponto de partida, as intermináveis horas de investigação em arquivos, na leitura de imprensa local de outras épocas ou no tratamento de fontes são o reflexo de um íntimo sentido de missão que tenho para ajudar da melhor forma que sei a cidade que amo. Que o futuro me permita continuar a contribuir humildemente para a reconstrução da memória e do passado desta comunidade, colocando ao dispor do público um conhecimento que lhe pertence.

tags: crónica, Diogo Ferreira, história, Opinião, setúbal

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