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Opinião: Não basta estar frente a frente

Leia a crónica exclusiva do artista visual e ator Ricardo Guerreiro Campos para a New in Setúbal.
Parque Urbano de Albarquel.

Sempre morei no concelho de Setúbal. É aqui e no litoral alentejano que estão as minhas âncoras. É aqui que sou e que estou. É aqui que hoje trabalho para projetar no território crenças, desejos e vontades. Sou artista visual, pai, performer/ator, arte-educador, mediador cultural, ativista, professor e investigador.

Aparentemente tanta coisa e estruturalmente tão pouco. Tão pouco porque tudo tem uma unidade, e acredito profundamente que no triângulo Vida-Arte-Educação que me mapeia os dias e as noites, tudo se contamina, tudo se completa e se transforma.

Há dez anos que comecei a integrar diferentes projetos entre Arte e Educação, em contextos formais e não-formais, e que tenho colaborado com diferentes estruturas de criação artística, que desenvolvem trabalho no âmbito dos cruzamentos disciplinares entre as artes visuais, a ciência, os novos media, a performance e o teatro.

As fronteiras entre os projetos de cariz mais individual e autoral e os desenvolvidos em contextos de intervenção têm-se revelado cada vez menores. Ou melhor, vão deixando de existir.

Não sei hoje distinguir os limites das minhas criações em estúdio das criações em contexto artístico-pedagógico, que mutuamente se alimentam e se transformam. Porque eu próprio sou assim: híbrido e indisciplinado. E este é, portanto, o aspeto que mais me tem cativado: facilitar e promover o desenvolvimento identitário, em contextos de aprendizagem, através das práticas artísticas e processos criativos.

Sinto que cada vez menos me interessa a educação artística no sentido do ensino da arte. Parece-me hoje absolutamente redutor olhar para o percurso que tenho desenvolvido e balizá-lo no campo do ensino das artes visuais ou das artes performativas. O que me interessa é uma procura por uma pedagogia do ser. E este aspeto tem vindo a clarificar-se com o tempo, com os projetos que tenho abraçado e investigado.

É em Setúbal que tenho estado olhos nos olhos com os seus atores culturais e educativos. É entre a Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, o Serviço Educativo da Casa da Avenida e a Escola Secundária Sebastião da Gama que me multiplico em provocações e gestos para poder ser melhor.

Ricardo é ator e artista visual. Foto: Helena Tomás.

É aqui e agora que estar olhos nos olhos não me basta. Não me basta ver só olhos e ouvir dizer que “hoje, mais do que nunca, a força do olhar é tão importante”. E os braços, onde estão? E o corpo? E o toque? E a voz? E a indisciplina (saudável) que a Arte provoca na escola, onde está?

Se a arte sempre foi desvalorizada aos olhos de outros setores da sociedade, é na educação que a sua presença é absolutamente necessária. Mais do que em qualquer altura, a crise de afetos que esta pandemia nos traz, vem mostrar o quanto precisamos de repensar estratégias e metodologias para transformar o isolamento em partilha, a ansiedade em sentido de pertença e o medo em sentido crítico.

E os processos criativos podem e devem estar na base dessa transformação. Há uns dias, durante uma sessão de mediação do livro e da leitura num jardim de infância da cidade, uma criança disse em voz alta: “Podemos sempre transformar-nos num livro e ficar num banco de jardim à espera que uma criança nos pegue e leve para casa”.

E no fundo é sempre disto que estou à espera. Que a arte me transforme em qualquer coisa invisível e que uma criança ou jovem pegue em mim e me leve pela vida fora.

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