opinião

Opinião: Hollywood com cheiro a choco frito

Leia a crónica exclusiva do músico João Contente para a New in Setúbal.
Praça do Bocage.

O galardão para quem subir a este palco é dourado, conhecido além-fronteiras, traz lágrimas de alegria, um discurso de agradecimento e marca uma pessoa para o resto da sua vida. Estivéssemos nós em Hollywood, poderíamos pensar que esse galardão seria o Óscar, talvez o Grammy. Mas estamos em Portugal e, sendo o nosso “palco” Setúbal, o tão procurado prémio é o nosso lendário choco frito. 

A paixão pela cidade é uma das características principais para se ser setubalense, e eu, que atualmente me considero um gigantesco cartaz publicitário de Setúbal, já tive outras (erradas, falsas e completamente absurdas) opiniões.

Esses momentos de insanidade já ultrapassados vieram com as frustrações normais da adolescência que me queriam levar para longe daqui. Nessa época julgava Setúbal uma cidade morta e despida de qualquer dinamismo. Em resumo: uma seca.

Só mais tarde, quando entrei para a faculdade que ficava longe daqui, é que senti a saudade, própria de quem só dá valor às coisas depois de perdê-las. Dei por mim a olhar à minha volta naquela que não era a minha terra. Não era Setúbal. 

Lembro-me da primeira vez que pisei o chão lá, senti que não tinha o mesmo cheiro nem o sol brilhava da mesma maneira. Não via o verde vivo da Serra da Arrábida em lado nenhum, muito menos as cristalinas águas do Sado. Foi nesse momento que engoli em seco e percebi o quanto era apaixonado pela minha cidade. E foi desde aí, que me assumi como um guia turístico/cartaz publicitário/folheto informativo de Setúbal.

Mas interrompendo as descrições românticas sobre a nossa cidade, porquê a comparação com Hollywood? Cá não temos os Óscares, nem estúdios de cinema (quem sabe, um dia). No entanto somos, sem dúvida, dos maiores exportadores de talento para a capital, outras partes do País e até para o mundo.

João Contente é vocalista do projeto musical Band’It. Foto: Afonso Alves.

Além daqueles que são os clássicos de outrora e que todos conhecemos, Setúbal tem uma capacidade impressionante para brotar talento de um dia para o outro, seja na música, na representação, na escrita, artes plásticas ou desporto. 

Talvez seja um mero acaso (o que pessoalmente não acredito), ou talvez (e desta versão gosto mais) sejam os cenários lindíssimos da Arrábida e do rio Sado, que inspiram qualquer observador. A energia vibrante dos setubalenses é muito mais contagiante que um tal de Corona que por aqui também passa, e esta força que todos os setubalenses têm é algo inexplicável.

Como adolescente vidrado em terras longínquas onde se falavam outras línguas,  através de um ecrã, não fazia ideia do que se passava num mundo tão rico em cultura. Só com a formação da atual banda a que pertenço, Band’It, é que me deparei com o verdadeiro encanto da nossa cultura regional.

Foi cá que tive a primeira experiência em palco, que me permitiu receber o reconhecimento pelo trabalho e conhecer vários tipos de artistas e projetos musicais cheios de talento e potencial para levar o nosso legado mais longe. Dito isto, Setúbal é a nossa Hollywood com um cheirinho a choco frito.

tags: BAND’IT, crónica, João Contente, Música, Opinião, setúbal

outros artigos de opinião

mais histórias de Setúbal