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Opinião: Eterno príncipe da Arrábida

Leia a crónica exclusiva do compositor e produtor Dylantino para a New in Setúbal.
Vista da serra da Arrábida.

“Arrábida” é uma palavra de origem árabe que significa “local de oração”. E é também o sítio onde encontro a minha paz, onde equilibro as minhas energias para continuar a lutar pelos meus sonhos e me conecto com tudo aquilo, em que o intelecto não consegue penetrar.

A minha ligação à Arrábida tornou-se intemporal no momento em que me decidi tornar-me um peregrino nas artes e na vida. É desta ligação que eu retiro a inspiração para a música que crio e os pensamentos que escrevo. E a razão de doar o meu ser para ajudar os outros, através de inúmeros projetos, parte da enorme gratidão que tenho para com este pequeno paraíso.

“Onde a terra se acaba e o mar começa”, esta frase de Luís de Camões patente na obra de “Os Lusíadas” descreve tão bem o que é a grandeza deste sítio. Levo em mim este lema, imagino até onde poderei chegar, olhando profundamente na linha do seu horizonte.

E é a mistura entre as suas terras e o mar que tornam a minha solidão numa profunda aceitação do meu ser e do que procuro, mesmo que as pessoas não consigam perceber ou que seja difícil de expressar.

Sem duvidar, uma única vez, esta será a eterna morada do meu porto de abrigo. Fico triste por ver o homem a não respeitar o valor que este lugar tem, ameaçando-o com ações cruéis que têm destruído as suas paisagens e a vida que aqui habita. Espero que a consciência prevaleça face aos interesses económicos e trave esta destruição, mantendo este local digno de glória e louvor por tempo infinito.

Permite-me, assim, que a minha criança interior viva em teu lugar e que leve as tuas riquezas aos quatro cantos da terra. Que o reflexo da lua continue a refletir-se nas águas que invadem as tuas praias e que as estrelas continuem a levar os teus pescadores a casa. Que a vida tenha mais poesia, para que sejas lembrada em todas as gerações, que por ti passem. E que a palavra Arrábida continue a soar nos nossos corações.

Eterna mãe, rainha dos meus olhos, tornaste-me um eterno príncipe nas tuas terras. Desejo que continues a criar príncipes e princesas com as tuas riquezas invisíveis, pronta para receber toda a solidão e lágrimas que homens e mulheres tragam e que as transformes na maior esperança que já tiveram. Continua a ser sempre tu, porque onde as tuas terras acabam onde começam os teus mares.

Dylantino trabalha como compositor e produtor.

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