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Opinião: Aqui, em Setúbal, ainda é possível sonhar

Leia a crónica exclusiva da cineasta Diana Lima para a New in Setúbal.
Frente ribeirinha.

Quis o acaso que visse a primeira luz do dia, nesta cidade de Setúbal, em fevereiro de 1988. Dois dias depois estava já em casa da família que me escolheu. E que sorte tive. Dois pais maravilhosos e uma irmã, muito protetora, pouco mais velha do que eu.

Apesar do processo moroso de adoção, seguiram-se anos felizes com a família e amigos, alguns que ainda mantenho desde a infância. Por vezes questionam-me se não tenho curiosidade em conhecer os meus pais biológicos. A resposta é sempre a mesma: não.

Para mim, nunca fez sentido conhecê-los, são estranhos para mim. Mas, estou-lhes agradecida por terem tomado a decisão certa, uma vez que não me podiam criar. Sempre soube que fui adotada. Os nossos pais sempre souberam muito bem explicar-nos que não nasci na “barriga da mamã”, mas sim no seu coração.

Os anos na escola, desde a infância à adolescência, ajudaram-me a crescer, a questionar-me, a conhecer-me e a encontrar respostas para o meu futuro. Na faculdade tive a confirmação de que só seria feliz a trabalhar em cinema. Foi um acaso ter nascido em Setúbal e ainda bem.

Vivo em Lisboa, onde há mais oportunidades de trabalho, mas volto sempre a Setúbal quando preciso do colo da família, dos amigos, da minha cidade, hoje culturalmente bem mais rica do que durante a minha adolescência.

Sabe bem rever o azul do rio Sado, que o Tejo não tem, sentir a Arrábida aqui tão perto, saborear o peixe fresco no Largo da Fonte Nova, pisar as areias de Tróia, onde é cada vez mais caro chegar, entrar nas águas geladas da praia da Figueirinha, e, por vezes, ter um vislumbre dos roazes.

Sabe bem passear pelas ruas do centro histórico, passar pela Casa da Cultura, beber um café na Praça do Bocage, onde encontro sempre um amigo com quem conversar. E isto não acontece em Lisboa. Talvez essa seja também a razão pela qual os meus amigos de Setúbal, que também procuraram trabalho fora, voltem cá sempre que queremos estar juntos.

E é precisamente numa das ruas do centro histórico que nasce o Espaço 50 Cuts, sede da 50 Cuts Associação Cinematográfica, um projeto na minha tão maltratada área de formação, no qual estou envolvida há cinco anos e que me tem permitido continuar a sonhar.

É um projeto que me completa mas nem sempre de fácil concretização. Na verdade, tem sido possível cumprir os objetivos que norteiam a associação com grande esforço, sempre com o apoio da família, dos amigos e associados e com o incentivo do Município de Setúbal que reconhece a importância das associações, nomeadamente as culturais, onde se cultiva a promoção dos direitos humanos, se abraça a multiculturalidade e se promove a inclusão social.

Embora esteja consciente que fazer cinema em Portugal seja extremamente difícil, quero continuar a acreditar que, mesmo com poucos recursos, é possível continuar a trabalhar na minha área.

Diana Lima é fundadora da 50 Cuts Associação Cinematográfica. Foto: Eunice Correia.

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