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Opinião: Carta para o Bairro 2 de Abril, com amor

Leia a crónica exclusiva da cantautora Cátia Mazari Oliveira para a New in Setúbal.
Mercado 2 de Abril.

29 de outubro, 1983. O Hospital de S. Bernardo registava mais um nascimento: quase três quilos, cabelo escuro e parco, 50 centímetros e quilómetros de pernas. Primeira reação ao mundo exterior: projetos de espirros entrecortados com choro convulso.

À direita a clavícula partida, cortesia da meiga parteira de serviço. À esquerda, a bracelete plastificada indicando pertença: Maria Henrique, A Mãe (tenho a certeza de que seria este o seu cognome, se tivesse pertencido à linha régia de Portugal).

Foi neste estado que deixei a maternidade, já com simpatias políticas (procedentes de motivos óbvios – uma clavícula partida não é coisa que se esqueça), embrulhada em mantas e já achando no mundo uma certa dose de dor desnecessária, rumo ao Bairro 2 de Abril, em Setúbal.

Cresci sem saber o que representava esse nome. Sem saber que oito anos antes, em 1976, a 2 de abril, se decretava a Constituição Portuguesa, coroando a queda do regime fascista. Fiz-me gente, portanto, num bairro com Nome e circunstância.

E se a ignorância é muitas vezes amiga da pessoa alegre, terei que dizer que assim foi comigo. Porque teria tido muitas mais dores de estômago se soubesse o que significava este 2 de abril enquanto ouvia a vizinha de cima ser espancada pelo marido bêbado.

Ou quando brincava às escondidas na rua e mais fácil era encontrar uma seringa no chão do que uma bolota em campo de sobreiros. Confesso que também não teria percebido muito bem o princípio da “sociedade livre, justa e solidária”, tendo como testemunhos alguns dos meus amigos, que eram crianças como eu, mas que iam para a escola com a barriga cheia de fome, sem ver a cor dessa coisa quase poética chamada pequeno-almoço. Não porque acordassem em cima da hora, mas porque nem pão tinham em casa.

Já então, nada naquilo me parecia certo. E nessa idade, ainda não sabia o que era a Constituição. Se soubesse, teria crescido cínica. Se for uma palavra forte de mais, leia-se céptica, com ‘p’.

Mas não aceitei o convite da New in Setúbal para fazer uma crónica triste. Porque na verdade quando penso no meu bairro, o mais de que me lembro são os verões intermináveis de jogos na rua, os dias em que levávamos o corpo ao limite da brincadeira e do cansaço de tanto rodar à volta do 35, o sobe e desce dos campeonatos de berlindes, da precisão de uma bola lançada em frente a um castelo de 7 pedrinhas, que ora desejávamos mandar abaixo, ora nos matávamos por pôr de pé.

Às vezes chorávamos: ou porque o bairro era “invadido” por clãs vizinhos e a conversa não acabava bem, ou porque dentro do nosso próprio grupo havia desentendimentos. Mas sobretudo ríamos, dávamos o nosso tempo e amizade uns aos outros e crescíamos.

Hoje ainda se lê ‘fuq da police’ em algumas paredes, ainda há cães despejados na rua quando deixam de ser bebés, crianças que comem na escola a única refeição do dia, mulheres batidas, corpos consumidos por drogas.

E esta é a realidade de muitas casas, de muitos bairros, em qualquer cidade, porque não as há perfeitas. Ainda falta muito para nos cumprirmos enquanto Constituição Portuguesa e o Bairro 2 de Abril está lá para nos lembrar disso, agora de cara lavada e com outro brio.

Quando lá volto ainda reconheço alguns vizinhos. E na minha memória, a minha mãe ainda vem à janela fechar o dia de brincadeira da mesma maneira: “Oh Cááááátia, anda pra caaaaaaaasa!”. Obrigada por tudo.

Cátia Mazari Oliveira é vocalista no projeto musical A garota não.

 

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