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Foi na Escola Dom João II que me ensinaram que as pessoas não têm cor

Em minha casa sempre me explicaram que somos todos iguais, mas foi na escola que aprendi a viver sem diferenças.
A escola renovada. Foto de Município de Setúbal.

A minha avó Teresa era a senhora das fotocópias quando entrei no sétimo ano, na Escola Secundária Dom João II — já lá vão 18 anos. Os meus colegas diziam que eu era uma sortuda porque ela via antecipadamente os testes, mas nunca tive nenhum privilégio a não ser ficar a dever sanduíches de carne assada no bar.

Sou do tempo em que tinha de se dar a volta pela esquerda e passar pela mesa de pingue-pongue para entrar no poli (polivalente, para os professores), onde os mais velhos ainda fumavam às escondidas.

Lembro-me dos dias de greve, em que por vezes só um dos blocos fechava; da voz inconfundível da Dona Alice quando algum aluno passava, sem poder, pelo corredor da secretaria; e das filas na papelaria para comprar as senhas do almoço.

Lembro-me de namoriscar nas bancadas de betão lá em cima, ao pé dos campos; e de ter sido chamada a responder à direção, depois de falar torto com uma funcionária. Parvoíces da idade — ela entretanto desculpou-me.

Recordo muitos bons momentos nos quatro anos que lá passei (sou das que estupidamente chumbou no nono ano), mas a maior lição que trouxe para a vida não tem a ver com a Matemática ensinada pelo icónico Rogério Mares — embora ele tenha sido um excelente professor.

O que mais aprendi durante este tempo, quer em contexto de aula, nos longos feriados ou intervalos, e ao final do dia, antes de ir para casa, é que as pessoas não têm cor.

Esta escola secundária tem a particularidade de juntar alunos de vários bairros, muitos deles vindos de outros países do mundo — ou que já nasceram em Portugal, depois de os pais terem imigrado para cá.

Entre conversas corriqueiras, amizades profundas, namoricos ou flirts de adolescentes, nunca houve espaço para fazer distinções de raças, muito menos alguém foi posto de parte por não ter o mesmo tom de pele.

Aliás, isso nem era motivo de conversa. Se alguém se armava ao pingarelho, como diz a minha avó, era logo posto no lugar, que ali não havia tempo para mesquinhices. 

Lembro-me quando era altura das listas para a Associação de Estudantes e como gostávamos de ver os africanos dançar. Que incrível. Eu, que não sei nem fazer a lambada, ainda sonho com o dia em que me aguento um minuto numa “boa kisombada”.

Numa altura em o tema racismo está, mais uma vez, por todo o lado, recordo com alegria que nesta escola isso sempre foi um “não assunto”. Andávamos demasiado ocupados a sermos felizes — todos juntos.

Não sei se ainda é assim e, realmente, tenho medo se se perdeu esta magia. Resta-nos a nós, enquanto pais, mantermos a fasquia: Foi na Dom João II que me ensinaram que as pessoas não tinham cor, mas é em todas as escolas que este cenário deve acontecer.

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