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Desculpa, minha querida mãe. Afinal, eu era tão feliz e não sabia

A Covid-19 mudou por completo a minha maneira de ver a vida — ninguém consegue ficar igual depois de tudo isto.

Tinha 10 anos, o cabelo apanhado ao alto, T-shirt e bermudas e um iô-iô na mão. Brincava às escondidas até a minha avó chamar e aí respondia que queria ficar só mais um bocadinho. Ensaiava as músicas da Spice Girls no átrio do prédio e sonhava com o dia em que ia chegar à televisão.

No verão tinha a ousadia de perguntar à minha mãe se podia ir para a praia sem ela e protestava quando a resposta era um redondo não. “Tens tempo para crescer”, dizia-me, enquanto eu observava as miúdas mais velhas a descerem a rua até aos barcos da Tróia.

Recordo-me que desde muito nova quis ter os direitos de um adulto. Filha de pais separados desde os meus quatro anos, fui obrigada a crescer um bocadinho rápido de mais em alguns aspetos. O pior é quando achava que isso me dava mais alguma idade. E quando dizia que já podia ficar sozinha em casa um fim de semana inteiro, ainda no sétimo ano. 

Entretanto cresci, comecei a trabalhar e as responsabilidades a sério acabaram por chegar. Nessa altura percebi que não era assim tão fantástico ter mais do que 18 anos e poder passar o ferry sozinha. 

Felizmente, os bons valores que me foram incutidos fizeram com que construísse um bom caminho, embora até há pouco tempo, ainda deitasse a cabeça na almofada a queixar-me que queria uma vida melhor.

Raramente estava satisfeita. Mal sabia eu que a plena felicidade estava ali, ao pés da minha cama. Ripostava que o fim de semana estava a acabar e não me apetecia ir trabalhar; e agora o que eu não dava para estar a partilhar a mesa com os meus colegas.

Reclamava porque no restaurante as batatas não tinham sabor; e o quanto eu gostava de estar agora a comer uns belos salmonetes enquanto olhava para o mar.

E as filas na ponte 25 de abril, que me faziam tanta confusão? Agora, estou desejosa de poder pegar no carro e fazer uma viagem sem fim.

Desculpa, minha querida mãe. Não é que eu era tão feliz e não sabia?

Se há lição que este maldito vírus me tem dado é que devemos dar mesmo valor ao abraço apertado do filho e não dizer que não nos apetece brincar com ele no chão. 

É que não devemos esquecer o telefonema diário para a mãe, pai ou avós, nem que haja pouco para dizer. Uma boa noite basta e amanhã volta-se a repetir. A Covid-19 veio mudar por completo as nossas vidas e nunca mais vamos ser quem um dia fomos. Vamos tentar de tudo para sermos melhores.

Uma última nota para os meus conterrâneos setubalenses que têm tido um comportamento exemplar nestes últimos tempos. O que faz com que Setúbal se mantenha com menos casos de coronavírus do que outras grandes cidades do País. Bem-haja a todos.

tags: coronavírus, Covid-19, crónica

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