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Carta de amor ao meu pai, o setubalense que tinha o sonho de abrir um café

Conseguiu realizá-lo e fica mesmo ao lado do seu palácio favorito: o estádio do Vitória de Setúbal.
Fica ao lado do estádio do Vitória.

Querido pai, resolvi escrever-te porque sempre foi a melhor maneira de me expressar — embora continue a achar que o abraço será a forma ideal de demonstrar o meu amor por ti.

Parece que cresci a ver-te sempre da mesma idade. Rapaz perfeito, diz a avó Teresa, cujos anos teimam em não te dar barriga nem cabelos brancos; apenas algumas rugas que dizes serem de sabedoria.

Em miúda, de cabelo apanhado e chinelos no pé, se bem te lembras dizia que queria ter uma casa com piscina e ir estudar para o Brasil. Vai-se lá saber porquê. Tu punhas várias vezes o braço ao meu redor e davas-me uma lição que vim a saber quando cresci tratar-se apenas de humildade: só querias ter um café.

Há 10 anos vi-te receber a chave daquele que passou a ser o teu filho mais novo, mas que te dá trabalho por nós as três. Pouco te importas, dirás, já que é lá, atrás daquele balcão que passas momentos verdadeiramente bons da tua vida.

Sei que és conselheiro e bom ouvinte de muitos conterrâneos e chamas sempre para a mesa quem chega a horas do jantar.  Todos os dias é ver-te ali, a poucos passos do teu enorme Vitória, cujo símbolo orgulhosamente carregas no coração.

Recebes todos de igual forma porque não há raças, etnias ou classes sociais que se distingam — nem tão pouco tu permitirias que alguém tentasse abusar do seu poder.

Durante estes últimos dois meses vi-te triste e de rosto carregado por não poderes viver o teu tão humilde sonho, mas orgulhosa por saber que não hesitaste um único momento, ao saberes que um passo em falso poderia pôr alguém em perigo.

Tenho a certeza que cada pessoa que entra no Novo Intervalo, mais do que comer ou beber bem sabe que vai ser tratado como se fosse da família e isso, querido pai, é a maior lição de humildade que uma filha pode receber.

Quero que o Novo Intervalo continue sempre a ser um novo recomeço todos os dias e que as centenas de pessoas que te conhecem continuem a ver-te como um abrigo, bem ao estilo setubalense.

tags: artigo de opinião, café em setúbal, crónica, Novo Intervalo

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