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Opinião: Apesar de não ter nascido em Setúbal, não me sinto menos setubalense

Leia a crónica exclusiva do músico Miguel Reis, conhecido por Tio Rex, para a New in Setúbal.
Miguel Reis viveu vários anos na vila de Vendas de Azeitão.

Foi em 1991, tinha eu dois anos, quando os meus pais decidiram trocar a casa dos meus avós nos Olivais, e por consequência, o movimento cosmopolita da capital, pela tranquila e pitoresca vila de Vendas de Azeitão. Quatro anos e um segundo rebento depois (a minha irmã Inês, na altura com apenas três anos) mudámo-nos para Vila Nogueira, onde cresci e vivi até aos 30.

Naquela altura, e para muitos ainda hoje, Azeitão era uma de duas coisas: a “terra dos ricos” ou o “dormitório onde não se passa nada”. Pois bem, foi no “dormitório dos ricos” que este que vos fala passava tardes a jogar à bola na rua com balizas improvisadas feitas com pedras ou cavaletes metálicos “roubados” às inúmeras obras que despontavam por todo o lado naquela pequena vila em crescimento.

Muitos foram os serões com amigos empoleirados em laranjeiras, a refastelarmo-nos com as laranjas de um vizinho que nunca nos chegou a apanhar, bem como as saídas, sempre de bicicleta – o meio de eleição através do qual circulávamos por toda a vila e explorávamos a Arrábida.

Desses 28 anos, recordo com saudosismo os “saltinhos” que dávamos a Setúbal para comprar sapatos na loja da Pantera Cor-de-Rosa, na Baixa, os cerca de 15 anos de natação de competição, divididos entre o Clube Naval Setubalense e a Piscina Municipal de Azeitão, os acampamentos e aventuras nos Escuteiros (que desde então nunca me deixaram sentir perdido na Serra), as idas à praia na hoje irreconhecível Península de Tróia e, claro, a escola: a primária em Casal de Bolinhos, os primeiros anos do ensino básico na EB 2,3 de Azeitão e o secundário já no Liceu (Escola Secundária de Bocage).

Creio que foi a partir dessa altura que deixei de ser um miúdo que vivia em Setúbal (ou em Azeitão, vá) para passar aos poucos a tornar-me num setubalense. Com a adolescência no Liceu a confluir com dois dos mais fortes movimentos que a cidade viu nascer nos últimos 20 anos — o Skate e a “Era Metalcore” — foi aí que começou o meu contacto mais próximo com a comunidade.
 
Miguel Reis é cantautor do projeto musical Tio Rex. Foto: Marta Banza.

Muitas foram as tardes passadas a ‘skatar’ no hoje defunto skate parque do Largo de Jesus ou as noites de concertos de More Than a Thousand, Hills Have Eyes e One Hundred Steps. Daí vieram as saídas à noite no MXL (as melhores noites de que tenho memória em Setúbal, onde dezenas de pessoas se juntavam à volta do bar, distribuídas pelo Jardim Eng. Luis da Fonseca e que muitas das vezes acabavam no ADN.

E depois veio a (minha) música. Em 2010 começaram a tornar-se regulares os serões em que, à noite, sozinho e com a guitarra às costas, deambulava pelas ruas de Azeitão em busca da catarse e a escrever as primeiras canções.

Em 2012 editei o primeiro EP de originais do meu projeto enquanto cantautor — Tio Rex —, a partir do qual redescobri a cidade. Se, por um lado, já tinha tido algum contacto, enquanto espetador, com alguma da cultura e arte que por aqui se faziam, foi com o projeto que tomei consciência da monumental quantidade e qualidade da mesma, que me parece ser já identitária, e que urge ser reconhecida.

Dos músicos aos artistas visuais e plásticos, passando pelo teatro, programadores, organizações e espaços para o consumo cultural, Setúbal tem-se revelado um epicentro artístico singular. Hoje já é mesmo na cidade de Setúbal que vivo e circulo no dia a dia e, por falar nisso, tenho que ir, que tenho dose e meia de choco encomendada à minha espera no Cais 56.

tags: Azeitão, crónica, Miguel Reis, Opinião, setúbal, Tio Rex

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