opinião

Ainda sou do tempo em que não era preciso vender um rim para ir a Tróia

Uma viagem de ida e volta por pessoa custa 7,50€. Lembro-me de quando nem era preciso pagar metade.
Uma das praias mais bonitas de Portugal.

Tróia é minha. Comprei-a com amor, aos quatro anos, quando guardava os chinelos na mochila e passava a viagem de ferry com o sol a queimar-me os pés. Não quis troco nem me atrevi a pagar gorjeta. Assinei um contrato vitalício de boca e como boa setubalense que sou vou cumpri-lo até ao fim.

Tróia é minha e de todos os meus pares que acabaram por também pagá-la, cada um à sua maneira, que não tenho nada a ver com isso. 

Tróia é minha, mas há uns anos apareceu para lá alguém que não quero pronunciar o nome (cruzes, canhoto) e levou-ma sem perguntar. 

Mudou-lhe a vista e o aspeto, tirou-lhe o cheiro de outrora que eu todos os dias levava para casa e ia buscar mais quando ele acabava por faltar. Tirou-lhe a humildade, mas acha, do alto da sua riqueza, que lhe deu elegância. 

Deu-lhe um selo de “privado”, que não é qualquer namorado que tem dinheiro para pagar. Aumentou o preço dos bilhetes dos ferrys para mais do dobro e atreveu-se a fazer isso à descarada. 

Tróia é minha e dos meus pares. E acho que há muita gente a quem falta perceber. Dêem-nos mas é o que é nosso, que qualquer dia já não tenho rins para vender.

tags: bilhetes dos ferrys, crónica, ferrys, troia

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