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Setúbal vai ter contentores para recolher redes de pesca fantasma

O projeto NetBox tem como objetivo retirar as redes de pesca do oceano e promover uma economia circular.
Existem muitas redes de pesca fantasma em Setúbal.

Há quem diga que é um perigo invisível, até porque o mais provável é que muitos nem reparem na quantidade de redes de pesca abandonadas e esquecidas no mar. A verdade é que existem e não são poucas, prejudicando assim o ecossistema marinho. Setúbal não é exceção e também tem muitas redes de pesca fantasma. A boa notícia é que já existem iniciativas que tentam combater este problema. 

As redes fantasma são redes de pesca que foram deixadas ou perdidas no oceano pelos pescadores, acidentalmente ou não. É uma consequência quase inevitável da atividade piscatória e um dos maiores problemas ambientais atuais. Estas redes de pesca são plásticos dispersos que, se não forem removidos rapidamente do fundo mar, colocam em risco toda a vida marinha. Tendo em conta que é praticamente impossível impedir que estas redes se percam no mar, o que se pode fazer é agir ao nível da prevenção e consciencialização. 

E é precisamente isso que a organização sem fins lucrativos GhostNetWork pretende fazer. O objetivo é limpar e proteger os oceanos e, claro, combater esta problemática das redes de pesca fantasma que continua a destruir fundos marinhos e a criar uma cadeia destrutiva alimentar.

Por coincidência ou não, a setubalense Sara Marques, de 22 anos, foi contactada pelo representante da organização, Christopher Storey, que estava interessado em criar um projeto de redes de pesca na cidade de Setúbal. Mais do que retirar as redes de pesca do oceano, o objetivo do NetBox Project seria encontrar soluções para combater este problema. 

“As redes caem principalmente em zonas de pesca local porque os pescadores estão a tentar sobreviver e não é nenhuma indústria maléfica. No entanto, na maioria das vezes, devido ao tempo ou outros fatores, as redes ficam presas em rochas ou até mesmo noutras redes e acabam por sair do posto principal perdendo-se no ecossistema”, conta Sara Marques, licenciada em Biologia Marinha e a terminar o mestrado em Direito e Economia do Mar. 

Ao participar em iniciativas da Ocean Alive, a primeira cooperativa em Portugal dedicada à proteção dos oceanos, Sara percebeu que existiam muitas redes perdidas na cidade sobretudo na zona da Baixa e da Mitrena. 

Redes de pesca encontradas por Sara Marques numa das iniciativas da Ocean Alive.

Estas redes fantasma são redes que já não servem para a atividade piscatória, uma vez que já estão gastas e velhas. No entanto, devido ao material que têm, não podem ir para o ecoponto amarelo e precisam de ter um processo de reciclagem próprio.

Por esse motivo, vão ser instalados três contentores em Setúbal destinados unicamente a estas redes fantasma. Assim, as empresas que sabem desmalhar estas redes, conseguem aproveitar os componentes que elas têm e criar diferentes tipos de materiais. Por ser um plástico mais rijo, podem fazer-se cadeiras e solas de sapato, por exemplo.

O NetBox Project começou a ser pensado em março de 2021 e já foram feitos muitos progressos. “Em Setúbal já estamos em contacto com a Amarsul, que nos vai fornecer três contentores que serão instalados no porto de Setúbal”, conta à NiS a setubalense. 

Um dos focos da iniciativa é também a parte educacional e, por isso, são os alunos das escolas de Setúbal que vão fazer os desenhos para estes pontos de reciclagem. Esses desenhos, que vão ser alusivos à problemática, serão posteriormente grafitados por artistas e tatuadores que também querem fazer parte desta causa. Um deles é o tatuador tvfer. Já o artista Xico Gaivota vai ficar encarregue de transformar o lixo em esculturas.

Com a instalação dos contentores, os pescadores vão começar a ter um sítio próprio para colocar as redes de pesca fantasma. “Neste momento há apenas um contentor que é usado para redes e outro lixo, o que dificulta a tarefa de desmalhar as redes, que só por si já é complicada. Se estiverem contaminadas com outro tipo de lixo, ainda é pior”, explica Sara Marques. 

Colocadas as redes no sítio certo, o próximo passo ficará do lado da empresa Ambibérica, que irá recolher o que estiver dentro dos pontos de reciclagem para levar a entidades que consigam realmente pegar nas redes e dar-lhes outra vida. Neste momento, a Sea2See é uma das empresas que vai ajudar a dar essa segunda vida às redes de pesca. É uma empresa que fabrica armações de óculos e pulseiras de relógio feitas de lixo marinho. 

“Já que não conseguimos controlar a parte acidental, vamos controlar o processo que vem a seguir. Se as redes estão no mar, então vamos retirá-las e encaminhá-las para o sítio certo. Assim não ficam a apodrecer no porto e, ao mesmo tempo, conseguimos dar uma segunda vida às redes de pesca”, sublinha Sara.

Além da instalação dos contentores, o projeto preocupa-se também com a parte educacional e de consciencialização. Por esse motivo, vai ser criado também um posto de educação para os pescadores, de forma a evitar a parte acidental. Outra iniciativa do projeto é a criação uma equipa de mergulhadores que, nos tempos livres, consiga procurar estas redes fantasma perdidas no mar. O objetivo é arrancar com o projeto já no início deste ano.

A Ghost NetWork tem também uma associação com o movimento 1€ for the planet, uma plataforma através do qual empresas e indivíduos conseguem doar 1 por cento das suas receitas em prol da organização. 

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