na cidade

“Se estivermos à espera de boas acessibilidades, não vamos a lado nenhum”

Sofia Martins sofreu um acidente de viação e ficou paraplégica aos 24 anos, mas nem isso a impediu de conhecer o mundo.
Pretende inspirar outras pessoas.

“Apenas vá, não se preocupe muito”. É esta a mensagem que Ana Sofia Martins, de 52 anos, pretende passar através da plataforma JustGo, criada em 2017. Não é um típico blogue de viagens onde se descrevem destinos idílicos, até porque desse género já existem bastantes. É, sim, uma forma de inspirar outras pessoas a desafiarem-se diariamente, mesmo com todos os obstáculos que possam surgir na vida. 

Não há nada que nos impeça de seguir os nossos sonhos e fazer aquilo que tanto gostamos — e Sofia sabe disso melhor do que ninguém. Depois de um acidente de viação em 1994, quando tinha 24 anos, a autora do blogue ficou paraplégica e teve de reaprender a viver numa cadeira de rodas. 

“Estive um ano em recuperação no hospital depois do acidente em Espanha. Passei um mês nos cuidados intensivos em Madrid e depois fui um ano para o Hospital Nacional de Paraplégicos, em Toledo, preparado para casos como o meu”, começa por contar à NiS. De um dia para o outro, tudo mudou. E a verdade é que “ninguém se prepara para uma situação destas”, descreve Sofia.

Ao longo de um ano, recuperou aquilo que era possível e preparou-se para enfrentar uma vida diferente daquela que conhecia, com mais obstáculos e limitações. Da mesma forma que não estamos preparados para sofrer acidentes graves, também o mundo não está totalmente adaptado para pessoas com mobilidade reduzida. Ainda assim, Sofia saiu do hospital em Toledo de cabeça erguida e preparada para ultrapassar todos os novos desafios. 

“Passado um ano voltei para Portugal e as coisas vão acontecendo aos poucos. Na altura, estava a meio do meu curso universitário em Engenharia Informática e tive muito apoio e compreensão dos meus colegas e professores”, recorda. É incontestável a importância de ter uma base de apoio quando, estamos ou nos sentimos mais fragilizados. 

Com a ajuda dos colegas, conseguiu terminar o curso e pouco depois começou a trabalhar numa empresa que tentava integrar pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Durante vários anos esteve em teletrabalho, até que se cansou de estar sempre em casa sozinha. 

Ainda chegou a ir trabalhar para Lisboa, mas as viagens diárias de ida e volta de carro tornaram-se demasiado cansativas. Entretanto, surgiu o convite para trabalhar em sistemas de informação geográfica na Câmara Municipal de Setúbal, onde está atualmente.

A par da ocupação profissional, as viagens sempre fizeram parte da vida de Sofia, ainda antes de ter o acidente de viação. Lembra-se das muitas que fez com os pais, quando iam de férias para o Algarve ou viajavam de carro para Espanha. Algo que que não queria deixar de fazer, independentemente das circunstâncias. 

“Para mim, sair de casa era difícil. Perdi a independência e não tirava grande prazer dessas deslocações, mas decidi que o melhor era adaptar-me, já que o mundo não estava adaptado. Por isso fui arranjando estratégias para ultrapassar os obstáculos e foi aí que voltei a ganhar o gosto de viajar”, diz a autora do JustGo.

Cerca de um ano depois de sair do hospital fez a primeira grande viagem de carro com amigos e a verdade é que não sentiu receio, até porque “já sabia que muitas cidades não estavam preparadas para pessoas com mobilidade reduzida”. Se a acessibilidade continua a não ser a melhor em vários pontos do mundo, há 20 anos a situação era ainda pior. 

Não é segredo nenhum que há sítios que estão muito pouco adaptados para receberem pessoas em cadeira de rodas, apesar da evolução que tem existido ao longo dos anos. “A maior dificuldade, que ainda sinto hoje em dia, era andar na rua. Os passeios não estavam rebaixados e, por isso, tinha de ter sempre alguém comigo”, refere.

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Outro grande obstáculo ao viajar era encontrar casas de banho e alojamentos acessíveis e adaptados à mobilidade reduzida, algo que continua a ser bastante difícil atualmente. 

Além das duas grandes viagens de carro que fez com os amigos, Sofia percorreu o País de norte a sul — e ilhas também — quando começou a participar em torneios de ténis adaptado. Em contexto de trabalho, também viajou até à Bélgica mas teve de regressar, nessa primeira vez, sozinha. “Todas essas viagens deixaram-me mais à vontade e preparada para fazer outras”, acrescenta. 

Sofia passou a viajar ainda mais quando começou a fazê-lo com marido. Durante três anos passaram férias em resorts nas Caraíbas, até que decidiram arriscar em destinos como Nova Iorque e o Havai. “Percebemos que os resorts não eram o melhor para mim porque ficava lá fechada. Chegámos à conclusão que era muito mais fácil e giro irmos para cidades mais evoluídas e preparadas para mim.” Aproveite e para descobrir alguns dos locais onde Sofia já esteve.

As várias viagens e as dificuldades que foi encontrando pelo caminho levaram-na a querer partilhar a sua experiência com o objetivo de inspirar e motivar outras pessoas. Em 2017 decidiu criar o blogue JustGo, com dois objetivos principais: partilhar as experiências na primeira pessoa e ajudar quem lida com as mesmas limitações e chamar a atenção para a questão da (pouca) acessibilidade. 

“Normalmente só falo daquilo que está bem e do que está acessível, é esse o meu foco principal. Claro que, por vezes, é impossível e tenho que tocar em alguns pontos maus, mas acredito que ao falar daquilo que está bem possa influenciar outros locais a tonarem-se mais acessíveis”, acrescenta.

Além dos artigos sobre as viagens, Sofia partilha os sítios acessíveis a todos em vários países do mundo, como restaurantes, cafés, museus, alojamentos ou outros espaços.

No que diz respeito aos restaurantes, por exemplo, é muito importante que não tenham degraus à entrada ou que exista uma rampa que permita o acesso fácil. Depois, claro, as casas de banho. Afinal de contas, ninguém quer ir almoçar ou jantar fora num sítio que não tenha um WC. “Quando vou a um restaurante que não conheço, o que me preocupa é conseguir arranjar estacionamento perto, conseguir chegar ao restaurante sem obstáculos e depois ter uma casa de banho adaptada. Isso é o principal”, destaca.

Já nos hotéis ou outros alojamentos, é importante que os quartos e as casas de banho tenham espaço suficiente para que possa movimentar-se e andar à vontade. Apesar de ser obrigatório por lei a existência de acomodações adaptadas a pessoas com mobilidade reduzida, infelizmente não é isso que acontece. 

Até ao momento, os destinos onde sentiu menos dificuldades foram Berlim, Londres, Barcelona, Bilbau, Toulouse e Bordéus. Geralmente as cidades maiores estão muito mais preparadas do que outras mais pequenas ou não tão voltadas para o turismo. Relativamente aos locais menos acessíveis, não pode deixar de referir Veneza, em Itália. “Quando fui, achava que as pontes eram todas lisas, mas são todas com degraus. Tinham de me subir de degrau em degrau para ir de um lado para o outro, foi o sítio mais complicado onde estive”, revela. 

Apesar de tudo, a autora do blogue considera que tem existido uma grande evolução nos últimos anos, incluindo em Portugal. Por exemplo, em Setúbal, na cidade onde vive, os passeios da baixa já estão praticamente todos rebaixados, embora continuem com a calçada que é muito incómoda para quem se desloca em cadeira de rodas. Contudo, não há nada que não se revolva. “Já arranjei uma estratégia. É uma roda maior que coloco à frente e que levanta as rodas mais pequeninas e faz com que circular nesses pisos seja mais fácil.”

São todas estas dicas e conselhos que Sofia vai partilhando no blogue e na página no Instagram, de forma a tentar inspirar outras pessoas a saírem de casa e aventurarem-se pelo mundo, ultrapassando barreiras, sejam elas quais forem. “A mensagem que pretendo passar é mesmo o nome do blogue: Just Go. Se estivermos à espera de boas acessibilidades, não vamos a lado nenhum. Vão sempre existir obstáculos, mas tudo se resolve”, conclui.

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