na cidade

O dia em que me despedi de Setúbal para ir morar para outro lugar

Emigrante conterrâneo que me lês com atenção: um abraço apertado e encontramo-nos no verão.
Vista do Forte de São Filipe.

Não se ama alguém que não ouve a mesma canção, mas eu amei. Fui na cantiga dele e fiz as malas para sempre, enquanto o sempre durar. 

Lembro-me de ser pequenina e de ainda meio a arrastar os pés, passear de mãos dadas com a minha mãe pelo Largo do Bocage. De lá seguia-se a praça (a que hoje chamam de mercado porque é mais chique) e a beira-mar. 

Olhava o mar com ar de menina que um dia ia descobrir o mundo, mas que à noite voltaria sempre para o mesmo lugar. Lembro-me tão bem de prometer que nunca sairia de ti, Setúbal, e tive a coragem de te mentir. 

Não foi por necessidade, mas por amor e sei que me perdoas a todo o instante. Mas tantos e tantos que se despedem de ti sem quererem, com as mãos suadas e o rosto triste por não te poderem tão cedo ver. 

É a lei da vida, dizem os mais despreocupados, mas eu não quero crer. Devia haver uma regra inquebrável que não deixava ninguém ir sem vontade e fosse buscar os que já estão há tempo de mais sem aparecer. 

Filhos de Setúbal deviam poder acordar todos os dias com o som das gaivotas a banharem-se no rio azul, o peixe fresco aos sábados de manhã e os gritos pelo Vitória nas tardes de domingo. 

Tenho cá para mim que se a vida fosse mais fácil, todos vinham sem pestanejar. As casas lá fora ficavam para férias e se não lá voltassem também não fazia mal. Aqui é que iam ser verdadeiramente felizes, em Setúbal de Portugal. 

Emigrante conterrâneo que me lês com atenção, não estou nada longe comparada com os teus milhares de quilómetros de saudade mas, tal como tu, devo a Setúbal tudo o que sou. E um dia também para lá irei voltar. Com o meu amor, espero.

tags: emigração, setúbal, viver em setúbal

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