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Lima Fortuna: a família que preservou a bebida secreta do monges da Arrábida

Emídio Fortuna começou a produzir o Arrabidine há 70 anos. A New in Setúbal foi conhecer a história deste licor secular.
A marca também vende as referências do Bicabagaço e Ginjeira.

O Convento da Arrábida, em pleno Parque Natural, foi habitado por monges franciscanos no século XVII. E foi precisamente nesse local místico que os frades produziram um bálsamo especial à base de uma fórmula secreta conhecida por Arrabidine. Agora a parte que mais interessa: e se lhe dissermos que ainda é possível provar esta bebida com mais de 400 anos de história?

Foi graças à persistência de Emídio Fortuna, natural da Quinta do Anjo, que a receita secular ainda existe e se tornou num dos licores únicos no mundo. A New in Setúbal fez uma visita guiada à Casa do Arrabidine (O Segredo dos Monges da Arrábida), onde Sofia Lima Fortuna, neta de Emídio, contou a história do licor Arrabidine produzido pela família há 70 anos. 

Tudo começou com Emídio Fortuna. O mais velho de nove irmãos teve de desistir da escola para trabalhar numa adega da região aos 12 anos para ajudar a família. “Como era muito novo, começou a trabalhar primeiro com os barris, mas uma vez que tinha instrução elevada para a época passou para os escritórios e depois foi aprender o ofício de analista, acabando por se tornar o responsável pela produção dos lotes de vinho, aguardentes, abafados e moscatéis”, conta à New in Setúbal, Sofia, de 31 anos.

Em 1950, surgiu a oportunidade de Emídio comprar a fórmula do Arrabidine, que estava na Quinta da Torre da Marinha em Paio Pires, no Seixal. “Quando o rei D. Pedro IV expulsou as ordens religiosas do País em 1834, o farmacêutico do Convento da Arrábida terá ido viver com essa família do Seixal. Para agradecer a hospitalidade, entregou-lhes o espólio do Licor Arrabidine — Segredo dos Monges da Arrábida”, explica.

Ao saber que o espólio estava à venda, Emídio entrou em negociações com a família e conseguiu comprar a fórmula, as garrafas e os tonéis onde ainda hoje se produz o Arrabidine. “Quando recebe a fórmula, ele decide voltar às origens da Serra da Arrábida e colher a matéria-prima para reproduzir o tónico 100% natural feito de bagas silvestres e plantas da flora da Arrábida”, afirma.

A partir daí, o avô de Sofia explora as várias hipóteses e compõe um portefólio com muitos licores, como tangerina, banana, laranja, morango, ginja, café, anis escarchado, entre outros. Sem nunca deixar de produzir licores, em 1958 o empresário lançou a fábrica de refrigerantes Vida e Fortuna, um negócio inovador para a época num tempo em que bebidas como a Coca-Cola não faziam parte do imaginário dos portugueses.

As primeiras garrafas do Bicabagaço estão em exposição.

Além da recuperação do Arrabidine branco e tinto, a família criou mais duas referências originais: o Bicabagaço e o Conheço-te de Ginjeira. “O Bicabagaço estava associado à Gripe Kopophonio, uma bebida para a tosse. Para tornar o conceito mais português, passámos a usar o nome Bicagaço, ou melhor, o típico café com cheirinho. Na época seria a bebida mais próxima dos nossos cocktails atuais”, recorda.  

Depois de cerca de 29 anos fora do mercado, Sofia e o pai Duarte Fortuna retomaram a produção de licores e fundaram a empresa Lima Fortuna, em 2012, com a missão de recuperar o Arrabidine — Segredo dos Monges da Arrábida, que está nas mãos da mesma família há três gerações. 

“A tradição do Arrabidine estava a perder-se e uma vez que havia muita procura das pessoas, revitalizámos o licor Arrabidine e o Bicabagaço e voltámos ao mercado em 2013”, revela Sofia, licenciada em Comunicação Social e Cultural, pela Universidade Católica Portuguesa.

O Conheço-te de Ginjeira é uma ginja artesanal feita a partir de ginjas galegas da Serra do Louro e inspirada nas aguardentes de ginja dos anos 50. Para dar uma casa ao Arrabidine, a família comprou um antigo lagar de azeite na Quinta do Anjo.

A Casa do Arrabidine também funciona como loja.

O edifício de 600 metros quadrados foi reabilitado. Atualmente funciona como loja de licores e produtos regionais complementares. Nesse local também é feita a produção artesanal dos licores e as respetivas visitas guiadas que incluem provas.

Se quiser experimentar os licores, as referências do Arrabidine branco e tinto, o Bicabagaço e o Conheço-te de Ginjeira estão à venda na Casa do Arrabidine e em alguns espaços na região, como a Casa da Baía de Setúbal, Mafaria ao Largo, Garrafeira Tody, loja Rotas do Sal (Mercado do Livramento), Casa Negrito em Azeitão e na Vida Portuguesa em Lisboa.

Pode escolher os tubos de 60 ml ou as garrafas de meio litro. O preço dos tubos vai dos 4€ aos 9€. As garrafas do Arrabidine são a partir de 38€, o Bicabagaço ronda os 17€ e a Ginjeira os 16€.

tags: adega, Arrabidine, Bicabagaço, Conheço-te de ginjeira, Convento da Arrábida, licores, Lima Fortuna, monges

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