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Jorge Galo: o setubalense que faz as melhores sandes de carne grelhada da cidade

Cresceu na Fonte Nova, trabalhou em várias fábricas, mas decidiu continuar o negócio da família e fundou a Tasca do Galo.
Jorge Galo tem 47 anos.

Chama-se Jorge Miguel Gomes Lourenço mas é conhecido entre os setubalenses como Jorge Galo. A pronúncia típica charroca não engana: nasceu em Setúbal há 47 anos e viveu a sua infância e adolescência na Fonte Nova, um dos bairros mais típicos da cidade. A alcunha de “Galo” surgiu quando tinha apenas dois anos.

 “Nos anos 70 existiam duas tabernas na Fonte Nova: uma fundada pelo meu avô Januário, a Taberna do Nau, e outra que era do Sr. Requintas. Em cada uma havia um galo da Índia e as pessoas mais velhas faziam lutas de galos. Num desses combates, o meu galo, que era como um animal de estimação para mim, levou uma tareia do galo do Requintas e eu fui à outra taberna deles para torcer o pescoço do galo. A partir daí começaram a chamar-me Galo. No início, odiava a alcunha, mas depois até a minha mãe passou a tratar-me assim”, conta à New in Setúbal, o setubalense.

A infância na Fonte Nova e a morte precoce do pai        

Além deste episódio, Jorge recorda as brincadeiras com os amigos no bairro de Troino. “Jogávamos ao espeta e íamos para a porta das oficinas à espera que reparassem os carros para aproveitarmos os rolamentos e fazermos trotinetas”, diz à NiS.

Outro dos passatempos favoritos de Jorge era tomar banho na antiga fonte do bairro da Fonte Nova que, na altura, tinha água potável. “Metia pedras dentro de um saco plástico, tapava o buraco por onde a água saía, depois quando aquilo enchia, punha uma toalha no muro e fazia uma piscina particular. Obviamente que era sempre apanhado, mas era muito divertido, confessa.

Como o pai de Jorge, José Augusto, trabalhava numa empresa que exportava peixe para os Açores, o setubalense apoveitava as idas à lota de Setúbal para jogar à apanhada com os amigos dentro dos botes da apanha do choco. 

Jorge andou na Escola Primária do Viso e na Preparatória do Bocage. Quando tinha 15 anos, o pai faleceu e, a partir daí, a sua vida mudou completamente. Foi nessa altura que as brincadeiras de miúdo acabaram. “Ele já tinha sido operado ao coração com 21 anos para pôr um bypass. Nesse dia tinha ido ao cardiologista a Lisboa e acabou por morrer 15 minutos depois quando estava no carro. Tinha 37 anos. Foi um momento muito complicado, eu queria brincar como os outros miúdos e, de repente, vi-me com a minha família às costas e tive de me fazer à vida”, lembra.

Para sustentar a mãe, a irmã recém-nascida e o irmão com dez anos, Jorge foi trabalhar para as obras e depois como empreiteiro na fábrica da Inapa. “Como costumo dizer, trabalhei em quase todas as fábricas de Setúbal desde Renault, Secil, Autoeuropa e aprendi muito”, diz.

Em 1997, emigrou para Espanha para trabalhar na construção de um navio de cruzeiro. Voltou um ano depois para segurança do Bingo do Vitória Futebol Clube e acabou no stand de carros da Quinta Alves da Silva, o 100 Entrada, onde esteve durante 20 anos. Foi lá que se apaixonou pelo motocross.

O nascimento da Tasca do Galo: o ponto de encontro dos setubalenses

Em 2013, em plena crise económica, a mulher de Jorge, Ana Paula, foi despedida da fábrica Autoeuropa, em Palmela. “Como os meus tios estavam a trabalhar na Tasca da Anunciada há 26 anos e já estavam um bocado cansados, decidimos investir o dinheiro que recebemos da indemnização do despedimento coletivo e ficámos com a tasca deles, com o objetivo de continuar o negócio da família”, explica.

Na Tasca da Anunciada, os tios de Jorge já faziam entremeadas, lombinhos, chouriço de carne, chouriço de sangue e couratos. “Além de termos mudado o nome para Tasca do Galo, eu e a minha esposa modernizámos as especialidades. Agora temos lombinhos com queijo de Azeitão, lombinhos do tacho com molho de mostarda, entre outros. Os dois segredos do negócio são os temperos e irmos todos os dias buscar carne fresca ao talho no Mercado do Livramento”, sublinha.

A presidente da Câmara Municipal de Setúbal, uma das clientes mais famosas da tasca

O espaço da Tasca do Galo esteve a funcionar seis anos na Fonte Nova e mudou há dois para o Largo de São Tiago, junto à Cáritas Diocesana de Setúbal. O spot é conhecido por ter as melhores sandes de carne grelhada da cidade e ser o ponto de encontro de amigos e familiares.

Uma das clientes fiéis da Tasca do Galo é a presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira. “A presidente da Câmara gosta muita das minhas entremeadas. Costuma vir cá comer e quando não pode pede ao motorista para vir buscar a comida”, refere. O jogador do Vitória de Setúbal, Zéquinha, e o cantor Nuno Guerreiro também fazem parte da lista de clientes da tasca.

Os efeitos da pandemia e a reabertura com take-away e entregas

No primeiro confinamento, a Tasca do Galo esteve fechada. “Foi muito complicado, porque a tasca é a única fonte de rendimento que temos cá em casa. Felizmente, as economias que tínhamos guardadas serviram para aguentar as coisas e pagar as rendas, uma vez que não tivemos qualquer apoio do Estado”, diz.

Com as quebras na faturação a ultrapassar os 70 por cento, Jorge e a mulher decidiriam reabrir o espaço neste segundo confinamento, com as opções de take-away e entregas próprias na cidade de Setúbal. “É evidente que não dá para tirar um ordenado para cada um de nós, mas é uma forma de mantermos a atividade. Em média, vendia 200 sandes por dia, hoje são perto de 60. Não está a ser fácil, mas tenho esperança de que as coisas vão voltar ao normal aos poucos”, sublinha.

As encomendas de take-away podem ser feitas através dos contactos 962 849 865 ou 967 613 869. Se preferir também pode pedir que lhe entreguem as sandes em casa. O serviço funciona de segunda a sábado do meio-dia às 20 horas. Quando as restrições da pandemia forem levantadas, a Tasca do Galo vai reabrir com uma nova esplanada exterior. E já sabe, não se esqueça de provar a nova sandes de lombinho com queijo de Azeitão.

A nova sandes com queijo de Azeitão.

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