No coração de Setúbal, o Gatsby volta a mudar de capítulo. Fiel à ideia de ser um bar onde os cocktails contam histórias, o espaço volta a estrear uma nova carta.
“O Gatsby muda de menu de seis em seis meses e cada carta é um novo enredo”, explica Tracy, responsável pelo projeto. Desta vez, o enredo é tanto atual, como histórico, evocando uma luta antiga de empoderamento: todas as criações são inspiradas em personagens femininas da literatura internacional, de Mulan a Jane Eyre, passando por Heidi, Pippi das Meias Altas e mesmo Blimunda, do “Memorial do Convento”.
O bar sempre teve como mote a inspiração nos livros, sobretudo no clássico “The Great Gatsby” (que dá nome ao espaço), e esta nova carta leva essa paixão ainda mais longe. As páginas do menu parecem uma novela gráfica com ilustrações em estilo pop art, cores fortes e frases que podiam estar sublinhadas num romance.
Num manifesto impresso logo à entrada da carta lê-se: “ferozes e gentis, imperfeitas e brilhantes, elas erguem-se – personagens que carregam o peso das suas histórias e a liberdade dos seus sonhos. A força floresce em todas aquelas a quem é permitido ser inteiras, com a sua coragem e complexidade a brilhar sem limites nem desculpas.” É esse espírito que enche os copos e o ambiente do bar nesta nova temporada.
Um menu que é também um manifesto feminista
Tracy sempre fez do Gatsby um espaço de convívio seguro, inclusivo e abertamente feminista. “Luto pelo direito das mulheres e pelo empoderamento feminino desde sempre e quis trazer também isto para o bar. Em Setúbal, faço parte de um grupo de mulheres de negócios e sinto que no Gatsby também podemos dar voz às mulheres e às suas lutas”.
Para ela, era importante que a nova carta deixasse claro que todas as mulheres, reais ou ficcionais, merecem as mesmas oportunidades, voz e protagonismo. Aqui, são precisamente elas que dão o nome e a alma aos cocktails.
Cada página apresenta uma personagem, um retrato ilustrado e um texto que liga o seu percurso aos sabores do copo. Heidi surge “moldada tanto pela solidão, como pelo amor”, num cocktail frutado e complexo, que homenageia as risadas de infância e a coragem tranquila da heroína. Já Minerva Mirabal é celebrada como símbolo de resistência e graça, num cocktail que fala de “coragem inabalável” e de uma esperança que resiste, mesmo perante as sombras.
Offred, a protagonista de “A História de uma Serva”, ganha corpo num cocktail profundo e indulgente, onde se juntam tequila envelhecida, licor de framboesa, licor de café, vermute tinto, coulis de morango e bitters de cacau. É descrito como um brinde à resiliência e “aos atos de desafio que a sustentam”, com sabor a frutos vermelhos, chocolate e café. É uma bebida que pede tempo, conversa e talvez um desabafo sobre as injustiças do mundo, exatamente como a personagem que lhe dá nome.
Do lado oriental da carta, Hua Mulan inspira um cocktail frutado, refrescante e herbáceo. Vodka, xarope de líchia, cordial de manjericão, xarope de baunilha, sumo de limão e bitters de melaço evocam a coragem da jovem disfarçada de soldado, que “move-se com astúcia silenciosa e coragem inabalável”. As notas suaves de frutas tropicais encontram toques verdes, que lembram um campo de batalha florido.
Jane Eyre surge num copo que parece uma sobremesa em camadas: whisky escocês envelhecido, Fernet Branca, xarope de tomilho, café e espuma de cacau e laranja. A descrição fala de uma mulher “determinada, íntegra e discretamente rebelde” e o cocktail acompanha essa dualidade: começa mais contido e amargo, depois revela-se com calor, profundidade e doçura de chocolate. Para quem gosta de combinações arrojadas, é um dos imperdíveis da carta.
A protagonista portuguesa, Blimunda, do “Memorial do Convento”, traz uma fusão entre o doce, o ácido e o amendoado, numa bebida que evoca a saudade “com um toque de amargor e a profundidade melosa do Moscatel envelhecido”, remetendo quem bebe este cocktail a Portugal do século XVIII.
Também encontramos Alicia Gris, Binti, Claire Fraiser, Úrsula Iguarán e Pipi Longstocking. Os preços variam entre 11€ e 14€, consoante a bebida, e em cada página estão também indicados o teor alcoólico e os principais alergénios, uma preocupação que o Gatsby mantém desde as primeiras cartas. A estética é vibrante e a informação técnica está toda lá, para que cada cliente escolha de forma consciente.
“Quis que o menu mostrasse mulheres diversas, ferozes e gentis, imperfeitas e brilhantes, e que cada pessoa pudesse reconhecer um bocadinho de si numa personagem e num cocktail”. O resultado é um alinhamento onde cada bebida tem uma história forte por trás, mas também notas de sabor pensadas ao milímetro.
De Heidi a Pippi: cocktails sem álcool também contam histórias
Nem só de álcool vive este novo menu. À direita das páginas, há sempre espaço para quem prefere manter o copo sem teor alcoólico. O Gatsby criou versões sem álcool de vários clássicos, como Bloody Mary, Espresso Martini, Gin Basil Smash, Moscow Mule ou Pornstar Martini, com preços a partir dos 11€. A ideia é que ninguém fique de fora da experiência, seja qual for a sua escolha.
Entre as estrelas da carta sem álcool estão dois cocktails exclusivos: Heidi e Pippi Longstocking. O primeiro junta rum não alcoólico, limoncello sem álcool, cordial de palo santo, shrub de goiaba, xarope de baunilha e sumo de limão.
O resultado é descrito como “frutado e complexo”, um brinde à menina dos Alpes que cresceu sem perder a bondade, nem a força. Já o Pippi Longstocking, inspirado na icónica Pippi das Meias Altas, aposta em notas de mirtilo e toques herbais. A descrição recorda “a tranquilidade que sustém na solidão e o coração destemido que procura alegria, mesmo no confinamento”, transformando cada gole numa pequena aventura.
Mesmo sem álcool, estes cocktails chegam à mesa com a mesma apresentação cuidada, copos elegantes e gelo cristalino. Tudo pensado para que o ritual de pedir, ver chegar e provar seja tão especial como nas versões alcoólicas – e para que os grupos de amigos não sintam qualquer diferença na celebração, independentemente da escolha de cada um.
Punch card, brindes e um convite à literatura
Tal como na carta anterior, o novo menu vem acompanhado de um punch card especial. A lógica é que, cada vez que prove um cocktail temático, ganha um carimbo. Ao completar determinados marcos, tem direito a bebidas grátis e a brindes exclusivos do bar, desde merchandising do bar a pequenas surpresas ligadas ao universo literário da carta.
No fundo, o Gatsby continua a ser o que sempre se propôs: um bar onde a carta se lê como um livro e cada cocktail é um capítulo diferente. Desta vez, porém, o foco está inteiramente nelas, nas mulheres que, vindas de literatura de todo o globo, lembram que a força pode ser doce, complexa, imperfeita e brilhante ao mesmo tempo.
Sobre o Gatsby
A decoração do espaço, um dos destaques principais do Gatsby, foi inspirada na obra e no estilo de vida do protagonista da história de F. Scott Fitzgerald, que vivia nos anos 20 entre “grandes festas”, além de adicionarem o conceito de bar de cocktails, que batizaram de cocktailaria, algo “pouco explorado em Setúbal”.
O Gatsby Cocktailaria foi inaugurado a 16 de janeiro, na Rua Arronches Junqueiro. O casal proprietário, Tracy Thompson, de 40 anos, e Derrill Thompson, de 60, têm como objetivo trazer vida, euforia e música à Baixa setubalense.
Naturais de Vancouver, no Canadá, conheceram-se através de amigos em comum, há cerca de 15 anos, e houve desde logo uma “conexão muito forte, apesar da diferença de idades”, conta Tracy à NiS. Estavam num barco, numa festa que durou cerca de cinco dias. Em 2012 casaram e, nesse ano, Tracy tornou-se cofundadora da empresa de accounting software, Bean Works. Derril foi advogado durante 20 anos.
Entretanto, mudaram-se para Setúbal e surgiu a ideia de abrirem um bar. “Se me perguntarem, vou dizer que a ideia foi do Derrill, mas se lhe perguntarem, ele vai dizer que partiu de mim. A verdade é que tinha falado com as minhas amigas de Vancouver, a comentar que um dia íamos abrir um bar. O meu marido não é muito bom a ser um reformado. É bom em muitas coisas, mas essa não é uma delas”, brinca Tracy.
A ideia era começar o negócio na Praça do Bocage, já que tinham um espaço pequeno, mas o projeto acabou por não avançar. Depois disso, no ano passado, conheceram o atual local, anteriormente uma galeria. Não quiseram comprar de imediato, mas a verdade é que não conseguiam deixar de pensar no espaço, que sabiam “ter potencial para algo muito especial, com as áreas separadas, do bar e dos espetáculos”, recordam.
“Somos muito impulsivos e acabamos por adquirir este rés-do-chão. Os nossos vizinhos são fantásticos e gastámos muita energia e esforço em fazer com que este local fosse à prova de som. Até temos esse certificado, era mesmo importante garantir que não íamos provocar nenhum incómodo. Está tudo preparado para isso e nem o bass se sente”, reforça a proprietária.
Agora, o objetivo é que o conceito se desenvolva e solidifique na cidade. Querem tornar o Gatsby mais conhecido e, além da mudança do menu de seis em seis meses, os fundadores estão a preparar outras surpresas que incluem ainda mais eventos diferentes no espaço. Começaram pela aposta em espetáculos e já trouxeram até cinema.
Carregue na galeria para conhecer os novos cocktails do bar.

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