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Fomos conhecer a história do mítico artesão de bicicletas da Praça do Bocage

Jacinto Tadeu esteve 38 anos junto à Igreja de São Julião a vender bicicletas em arame e chegou a fazer mais de 30 mil peças.
Jacinto Tadeu tem 71 anos e já está reformado.

Ainda se lembra do senhor das bicicletas da Praça do Bocage? De conversa fácil com quem passava, sorriso no rosto e boné na cabeça estava sempre sentado nos degraus da porta lateral da Igreja de São Julião a fazer modelos incríveis de bicicletas em arame de várias cores e feitios.

Jacinto Tadeu esteve 38 anos na Praça do Bocage e tal como a estátua do poeta sadino, faz parte do imaginário de uma das zonas mais nobres da cidade. A New in Setúbal foi recuperar a história de um dos ícones da cultura setubalense já reformado.

Apesar de se considerar um “filho da terra”, o artesão agora com 71 anos nasceu em Silvares, a 20 quilómetros do concelho do Fundão. Estudou para ser padre num seminário junto ao Bom Jesus de Braga através de uma bolsa. E foi lá que aprendeu a fazer artesanato e alguns “bonequinhos” em arame.

Com apenas 16 anos e grande espírito de aventura seguiu a pé pelo mato até Belfort, França para fugir das “más condições de vida”. Foi viver para a casa de um primo emigrado há vários anos e trabalhou numa fábrica de cerâmica francesa. Depois dedicou-se à indústria hoteleira. “Comecei por lavar pratos e mais tarde cheguei a empregado de mesa e chefe de sala”, conta à New in Setúbal.

Em finais de 1974 veio morar para Setúbal, onde trabalhou poucos meses no café A Brasileira, na Baixa. Como já fazia bicicletas como hobby decidiu dedicar-se a cem por cento ao artesanato e instalar-se na Praça do Bocage. Diz que não andou muito de bicicleta ao longo da vida, mas sempre foi apaixonado por ciclismo e não perdia uma edição da Volta a Portugal. “Escolhi fazer bicicletas, alguns bonecos e helicópteros. Mas como a procura aumentou fiquei-me pelas bicicletas”, explica.

Havia cerca de 15 modelos diferentes de bicicletas pintadas, sempre com a mesma mensagem gravada no arame: “Lembrança de Setúbal”. As que se vendiam mais, eram as alusivas aos clubes do Benfica, Porto, Sporting e Vitória de Setúbal. Cada peça implicava duas a cinco horas de trabalho. A bicicleta mais barata custava 8,50€ e a mais cara cerca de 23,50€. “Havia muita gente que achava que só vendia para estrangeiros, mas os emigrantes portugueses eram os meus melhores clientes”, afirma.

No final de agosto de 2016 teve de abandonar a atividade por questões de saúde. Nos últimos dez anos de trabalho ia para a Praça do Bocage de abril a setembro durante a semana. Atualmente faz caminhadas para se manter em forma. É casado, tem quatro filhos e dois netos.

Foi o primeiro e único da sua família a dedicar-se a este ofício. “Fiz mais de 30 mil bicicletas e o meu trabalho está espalhado pelos vários cantos do mundo”, sublinha Jacinto Tadeu, com orgulho.

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