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Deathclean, a empresa que limpa cenários de morte revela histórias inéditas em Setúbal

Homicídios e suicídios foram alguns dos trabalhos retratados no live show da empresa. A NiS conta-lhe tudo.
Um dos técnicos a trabalhar na limpeza de um cenário de suicídio. Foto: Deathclean.

Homicídios, suicídios, crimes, traumas e locais contaminados de risco biológico são alguns dos cenários típicos dos thrillers da Netflix ou dos grandes policiais, certo? Porém, tudo o que vemos nestas produções é, em grande parte, ficção. Aliás, na maioria das vezes, nem sequer tem uma ligação à realidade.

Provavelmente nunca parou para pensar quem limpa esses cenários quando acontecem na vida real. Muitos podem considerar que a responsabilidade é da polícia, mas na verdade existem empresas especializadas na limpeza de cenários de crime, como é o caso da Deathclean

Para quem não sabe, a Deathclean nasceu em 2008 e é a primeira e a única empresa europeia responsável e acreditada para a intervenção em locais contaminados de risco biológico, onde estão presentes microrganismos capazes de originar qualquer tipo de infeção, alergia ou toxicidade no corpo humano.

Basicamente, são os funcionários da empresa que têm o conhecimento e o equipamento para limpar devidamente locais com resíduos biológicos. Falamos, por exemplo, de sangue e outros fluídos corporais, que entram em decomposição e podem tornar-se num risco para a saúde.

Mas há mais: a empresa opera em cenários de sujidade extrema, como é o caso de habitações atulhadas em lixo por acumuladores compulsivos. Com o objetivo de dar a conhecer ao público as histórias de um crime scene cleaner, a Deathclean organizou um live show inédito, em Portugal. O evento decorreu no passado dia 27 de novembro, sábado, no Cinema Charlot em Setúbal.

Na sessão, Pedro Badoni, fundador e diretor da empresa, apresentou mais de 20 cenários de morte como, por exemplo, homicídios com recurso a arma branca, suicídios com caçadeira, entre outros. Cada caso foi acompanhado de uma explicação detalhada e uma sequência de imagens inéditas e, algumas delas, verdadeiramente impressionantes, que serviram para mostrar a brutalidade dos crimes. Algumas imagens mostraram fragmentos de massa encefálica, marcas de sangue e pedaços de pele das vítimas.

Pedro Badoni, empresário de 41 anos, tinha apenas 28 quando criou a Deathclean, a empresa por detrás dos anúncios que tanta curiosidade têm despertado. Ligado desde novo à Proteção Civil, percebeu em 2008 que havia um nicho por explorar — e o clique deu-se quando assistiu a “Cleaner”, filme no qual Samuel L. Jackson tem como profissão a limpeza de cenas de crime. Uma das sedes da Deathclean fica em Setúbal, na Avenida Mestre Lima de Freitas, Lote 90 Armazém G4 e G5.

A New in Setúbal esteve no tal live show e selecionou sete cenários de morte bizarros partilhados pelo diretor da Deathclean. 

“A senhora grávida”

Um dos cenários apresentados foi o homicídio de uma mulher grávida. O crime ocorreu em 2017, em Barcelos, e foi cometido por Adelino Briote, conhecido como o “Monstro de Barcelos”, que já tinha sido julgado por agressões à ex-mulher e sogra.

Marisa, de 37 anos, estava a fazer as tarefas domésticas quando foi supreendida pelo homem que a esfaqueou várias vezes na cozinha. A mulher e a bebé não resistiram aos ferimentos e acabaram por morrer. 

Segundo Pedro Badoni, este foi um dos cenários mais marcantes, uma vez que os técnicos encontraram o marido da vítima bastante traumatizado. “Havia muito sangue espalhado por várias divisões da casa e vestígios de uma luta corporal entre a vítima e o assassino. No final, o marido da senhora pediu-nos para sermos nós a escolher uma roupa para a bebé vestir no funeral e é claro que isso nos marcou bastante”, recordou.

“O seguro mortal”

Este caso decorreu numa loja de seguros na Quinta do Conde, em Sesimbra, em julho deste ano. Dois amigos foram fazer um seguro mas desentenderam-se e a discussão resultou no homicídio de um homem, de 40 anos, que morreu no local. Neste caso, a principal dificuldade da equipa da Deathclean foi ser um espaço bastante pequeno para trabalhar.

“A face no canteiro”

Este é o exemplo de um suicídio numa casa. Pai e filho estavam no alpendre da sua moradia e começaram a discutir. O pai foi buscar uma caçadeira e o filho escondeu-se para se proteger. Porém, foi o pai que acabou por cometer suicídio, à frente da família. Neste caso, por não ser um espaço confinado, havia muito sangue e sinais de projeção. Por exemplo, tal como foi mostrado nas imagens, parte do nariz da vítima foi projetado no alpendre.

“A fisioterapeuta”

Sempre que a equipa da Deathclean é chamada para um serviço de limpeza, as casas estão vazias para facilitar o trabalho dos técnicos e também evitar o agravamento do trauma dos familiares. Porém, neste caso de homicídio com caçadeira numa moradia, a porta ficou aberta, enquanto decorriam os trabalhos.

João cometeu suicídio com uma caçadeira na casa de banho e, nessa manhã, tinha marcada uma sessão de fisioterapia. A fisioterapeuta da vítima entrou na casa, falou com os técnicos e, ao perceber o que tinha acontecido, foi-se embora a correr. Neste caso, houve grande projeção de sangue, incluindo também um olho que foi encontrado no local. 

“Marítimo vs S.L. Benfica”

De todos os casos apresentados este foi, sem dúvida, o mais caricato. Tudo aconteceu, em 2016, num quarto de um lar da Santa Casa da Misericórdia de Ourique, no Alentejo. Uma mulher de 69 anos matou uma idosa de 88 anos com, imagine, uma bengala. Segundo os relatos, as duas idosas terão começado a discutir na sequência de um jogo entre o Marítimo e o Benfica.

“Quando recebemos a chamada, pensámos que iríamos encontrar uma poça de sangue apenas. Por isso mesmo, foi apenas um técnico ao local, que acabou por ter de pedir ajuda, pois o cenário era idêntico ao de suicídio com caçadeira. O pequeno quarto com uma janela estava cheio de sangue”. 

“Em queda livre”

Segundo Pedro Badoni, os trabalhos de limpeza mais comuns são de homicídios ou suicídios no interior dos apartamentos. No entanto, neste cenário, a vitíma atirou-se do sétimo andar de um prédio, mas a partir do interior do edifício. Ou seja, em todas as escadas dos vários andares ficaram vestígios, que tiveram de ser limpos por fases pela equipa da Deathclean. 

“Cinta mortal”

Este caso foi completamente diferente dos outros porque não se tratou de um crime, mas de um acidente de trabalho. Um jovem, com cerca de 20 anos, estava a trabalhar numa fábrica há uma semana, quando uma das cintas que suportava uma máquina quebrou.

O jovem foi atingido com muita violência e a cabeça rebentou. Aqui, as imagens mostraram muito sangue e sinais de contaminação em vários locais e instrumentos da oficina. 

Normalmente, os trabalhos de limpeza demoram dois dias, mas claro, podem prolongar-se de acordo com a complexidade da contaminação. Para trabalhar na Deathclean, não é necessário formação superior nem pré-requisitos obrigatórios. Ainda assim, Pedro Badoni, explicou que todos os candidatos passam por um período de formação intensa, sendo que na maior parte dos casos muitos desistem do trabalho.

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