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Assim foram os anos loucos do Seagull, a discoteca mítica de Setúbal

Zé Gatto passava músicas de que ninguém gostava (pelo menos no início), o então jogador do Sporting Carlos Manuel rasgou a roupa só para entrar numa festa e Miguel Sousa Tavares descreveu-a como a discoteca onde nunca sabíamos quem íamos encontrar.
No verão, havia festas temáticas todas as quartas-feiras.

Quando Carlos Manuel, na altura estrela do Sporting e da Seleção Nacional, chegou à discoteca Seagull, o porteiro não o deixou entrar. Estávamos numa quarta-feira de verão, em 1988, portanto era dia de festa temática. Naquela noite em particular o mote era “A festa é o máximo, traga o mínimo”, por isso todos os clientes tinham de ser originais (e poupados) no guarda-roupa. O jogador de futebol não cumpria os requisitos, logo as regras eram claras: ele não podia entrar.

“O Carlos era meu amigo”, recorda Alfredo Martins, o antigo dono da discoteca mítica no Portinho da Arrábida nas décadas de 80 e 90. “Ele mandou-me chamar e perguntou: ’Então, não me deixam entrar?’. Expliquei-lhe que o tema era traga o mínimo, por isso não podia fazer nada. ‘Então e se eu cortar as calças e a camisa?’.”

Foi exatamente isso que Carlos Manuel fez. Rasgou a camisa, cortou as calças e entrou na discoteca.

“Uma vez Miguel Sousa Tavares escreveu o seguinte sobre o Seagull, num artigo do ‘Expresso’ a propósito das melhores discotecas: ‘uma discoteca que tinha boa música e onde nunca sabíamos o que íamos encontrar’.”

Era de facto este o espírito do Seagull. Entre a Praia de Galápos e a Figueirinha, em plenas escarpas da Serra da Arrábida, o espaço foi comprado por um grupo de amigos em 1978. Mas a sua história é bem mais antiga.

O Seagull começou por ser uma casa de férias de um arquiteto famoso

Antes de ser transformado numa discoteca, o edifício construído à beira-mar foi mandado construir por Eduardo Anahory.

Arquiteto e artista brilhante, foi o autor dos cartazes nas campanhas publicitárias da TAP (1960), mentor da construção do Hotel Porto Santo, na Madeira, ou da ideia de criar uma piscina flutuante na Praia do Tamariz (1967). Entre 1959 ou 1960, Eduardo Anahory construiu uma casa de férias numa escarpa em Galápos. Chamou-lhe Aiola e durante um longo período foi uma espécie de refúgio romântico de verão para o arquiteto e para a pintora Menez, com quem namorou durante oito anos.

Mas voltemos à época em que já se chamava Seagull e passava música até de madrugada. Quando o grupo de amigos decidiu desfazer-se da discoteca, na altura com uns ainda modestos 70 metros quadrados, Alfredo Martins, 68 anos, não pensou duas vezes antes de ficar com o espaço. Estávamos em 1980.

“Eu tinha um bar, e na altura pensava em abrir uma discoteca. Quando apareceu a oportunidade de comprar o Seagull, não hesitei.”

Alfredo Martins pagou 800 contos pelo espaço, o equivalente hoje a aproximadamente 61 mil euros. Nessa altura começou logo a trabalhar na aprovação da licença para ampliar o espaço, que passaria de 70 para 190 metros quadrados.

“Consegui o feito de estar a trabalhar [nas obras] sem fechar a discoteca”, ri-se Alfredo Martins. Na verdade, e apesar de tecnicamente ser uma ampliação, o novo espaço noturno começou a ser erguido mesmo ao lado do antigo. Estávamos entre 1984 e 1985.

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