na cidade

Afinal, devemos ou não alimentar as raposas de Tróia e da Serra da Arrábida?

As opiniões dividem-se e o tema é polémico. Mas eu gosto disso. Vamos lá debater.
Na serra da Arrábida.

Esta crónica é diferente de tudo aquilo que escrevi até agora. Esta crónica é um início e, sinceramente, acho que dificilmente vou encontrar o fim. Há muito tempo que queria escrever sobre o tema e criar uma discussão de ideias em torno da pergunta: afinal, devemos ou não alimentar as raposas de Tróia e da Serra da Arrábida? 

Há cerca de três anos, acordei a um sábado e fui de Palmela até Setúbal de mota pela Arrábida. Estava um dia incrível, daqueles em que só apetece estar lá no ponto mais alto da serra a ver o mar. Não é preciso mais nada. 

A meio do caminho, tivemos de fazer uma travagem brusca porque à nossa frente surgiram do nada três raposas. Duas eram bebés, uma estava ferida. Eram todas demasiado magras e aqueles olhos, esses, pediam ajuda. São animais selvagens, eu sei. Reagem instintivamente, estão habituados a caçar e se os alimentarmos perdem essa noção. 

A teoria é bonita. Eu não consigo cumpri-la. Fiquei realmente incomodada com aquele cenário, mas não tinha nada para lhes dar. Surgiu uma carrinha e dei por mim no meio da estrada aos gritos a pedir-lhes para pararem. Eram brasileiros, estavam por ali em turismo e nunca tinham visto um postal daqueles. 

Deram-me tudo o que tinham de comida, sem pestanejar. Dividi em pequenas doses e aqueles três animais famintos comeram tudo num ápice. A seguir, passou um carro a alta velocidade e eles fugiram. Nunca mais os vi. 

Mas quem eu vejo com frequência é a Matilde. Matilde foi o nome que demos à raposa que todas as noites passeia pela urbanização de Tróia. Sabemos que é sempre a mesma porque lhe conhecemos a cicatriz grande do lado esquerdo. 

É sempre certo. De cada vez que vamos para lá e acendemos as luzes, por volta das 22 horas a Matilde aparece. Magra. Quase sem conseguir correr. Faminta. Só não nos entra em casa porque não deixamos. Fica no jardim à espera de comida e sabe que no dia a seguir é para voltar. 

Ela volta e tem lá sempre o seu jantar. Sei que muitos de vocês estão a ler este testemunho e a pensar: “Então e quando vocês não estão lá? E no inverno, como é? Não se preocupam?”. 

Têm toda a razão. A raposa Matilde é conversa durante todo o ano. Comentamos sempre sobre o que é que ela andará a fazer; se tem comido ou não. Temos sempre medo que da próxima vez ela não apareça. Mas tem aparecido. E eu prefiro pensar que ela não perdeu os hábitos naturais de caçar. 

Posso estar a cometer o maior erro do mundo, mas o olhar dos animais diz-me tudo aquilo que eu preciso saber. E se têm fome, não consigo ignorar isso. 

Esta crónica não tem fim. É o início de uma discussão de ideias. Afinal, devemos ou não alimentar as raposas de Tróia e da Serra da Arrábida?

tags: raposas, Serra da Arrábida, troia