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A incrível história do setubalense que foi enfermeiro nos navios bacalhoeiros

António Graça escapou a um naufrágio na Terra Nova nos anos 60 e tratou de milhares de pescadores feridos.
Porto de St. Johns (Canadá).

Milhares de portugueses arriscaram a vida a bordo dos navios da pesca do bacalhau que atravessaram os mares gélidos da Terra Nova à procura de sustento para as famílias. Foram precisamente essas histórias dos bacalhoeiros que inspiraram os 13 episódios da nova série da RTP1 “Terra Nova”, que estreou no dia 3 de junho.

António Carlos de Sousa Graça, 79 anos, é um desses heróis portugueses. Entre 1960 e 1967 embarcou nos navios da frota da marinha portuguesa, também conhecida por White Fleet. Trabalhou como enfermeiro nos navios Lutador, Santa Mafalda e Ilhavense a tratar os ferimentos diários dos pescadores, que podiam ser mais ou menos graves. Escapou até a um incêndio e naufrágio nas águas da Terra Nova, em 1964.

Mas a vida inspiradora de António Graça começou muito antes dessa aventura. Nasceu no hospital antigo de Setúbal, pouco depois os pais morreram vítimas de tuberculose, o que o deixou sozinho e desamparado no Orfanato Municipal desta cidade. Viveu lá até aos 18 anos.

“No orfanato fiz a instrução primária e aprendi o ofício de encadernador. Havia muito rigor e disciplina, mas posso dizer que durante os 13 anos em que lá estive nunca me faltou comida, roupa e um teto para dormir”, começa por contar à New in Setúbal.

O tratamento dos alunos dependia da formação pedagógica dos prefeitos escolhidos para dirigir o orfanato. “Alguns deles não tinham qualquer tipo de instrução para lidar connosco e eram mais agressivos. Batiam-nos, castigavam-nos não deixando que saíssemos ao domingo para ver os nossos familiares, por exemplo”, recorda. 

Ainda nos tempos do orfanato, quando tinha 14 anos, vários colegas foram atacados pela pandemia asiática, que os deixou na cama durante largos meses. António teve sorte e não foi infetado, porém teve de ajudar a cuidar dos amigos como uma espécie de assistente clínico.

“Nessa altura conheci o enfermeiro Ítalo, que me aconselhou a tirar o curso de Enfermagem e ir para a pesca do bacalhau. Eu não queria combater na Guerra do Ultramar e a solução que arranjei para escapar ao conflito em África foi tornar-me enfermeiro e cumprir o serviço militar obrigatório nos navios bacalhoeiros”, explica.

Depois de acabar o curso, foi contratado como enfermeiro pelo Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau e começou a sua jornada. “Ganhava 3300 escudos por mês só enquanto andava no mar. Trabalhava 24 horas por dia, estava sempre de serviço e era o único enfermeiro dos navios”, revela. 

António Graça era o único enfermeiro de serviço nos navios.

A alvorada nas embarcações era ditada pelo imediato na cerimónia dos louvados. “Por volta das quatro da manhã tocava o sino e o pescador que estava de vigia dizia ‘louvado seja nosso senhor Jesus Cristo’. Estas palavras eram o sinal para os pescadores se vestirem e tomarem o pequeno-almoço para depois seguirem para os navios de pesca à linha”. Cada homem seguia sozinho numa embarcação pequena, os chamados dóris, que eram descidos em roldanas até ao mar. Levavam consigo apenas uma lancheira redonda, conhecida por foquim com a merenda e o almoço, que normalmente era peixe frito e pão. 

Quando chegavam da pesca, o trabalho continuava com o tratamento do pescado. “Eles tinham de arranjar o bacalhau, escalá-lo, tirar-lhe as cabeças, as espinhas e salgá-lo no porão. Era aí que eu entrava para tratar os ferimentos dos pescadores, que se cortavam com os anzóis, faziam fraturas e outras lesões graves que era necessário tratar com rapidez”, conta à New in Setúbal. 

Enquanto enfermeiro do navio, António nunca perdeu nenhum paciente, mas confessa que passou por momentos complicados, como a fratura da base do crânio do segundo motorista de um dos navios. 

“Íamos a caminho da Gronelândia e esse homem com cerca de 30 anos caiu para o porão quando foi abrir uma válvula de gasóleo. Fez um traumatismo craniano e ficou inconsciente. Percebi logo que ele corria risco de vida e liguei para o médico do navio de apoio, o Gil Eanes, que me disse para levarmos o doente imediatamente para terra para ser tratado num hospital”.

Nesse dia era o Capitão Matias que estava a comandar o navio. “Ao início foi difícil convencê-lo de que tínhamos de aportar o mais rápido possível. Ele não queria parar o navio, porque isso significava a perda de muito dinheiro, mas eu expliquei-lhe que era a vida daquele homem que estava em jogo e ele aceitou”. 

O navio aportou em St. Anthony, na Costa do Labrador. À chegada já estava uma lancha preparada para levar o amigo até ao hospital. Segundo António, o homem sobreviveu mas ficou com sequelas graves para o resto da vida. 

Além dos ferimentos e cortes com anzóis, outro dos episódios que recorda dessas viagens foi o terrível incêndio do navio Lutador ao largo da Terra Nova, em setembro de 1964. Apesar de já terem passado 56 anos, António recorda-se daquele dia como se fosse hoje. 

“Passavam poucos minutos das 15 horas e estávamos na Terra Nova. Tínhamos o navio carregado de bacalhau quando a parte ré da embarcação começou a arder. Pensámos que tinha sido um curto-circuito porque era nessa zona que ficavam as máquinas”, lembra o enfermeiro. 

Quando perceberam que era um fogo, a tripulação enviou um alerta para evacuar o navio Lutador, onde estavam cerca de 70 homens completamente em pânico e prestes a atirarem-se ao mar.

“Foi o navio Ilhavense que nos recolheu. Lembro-me que foi tudo muito rápido. Praticamente não tivemos tempo para trazer as nossas coisas e como o meu camarote ficava perto da zona onde começou o fogo, perdi tudo e só fui com a roupa que tinha vestida, tal como os meus companheiros. Foram momentos complicados, mas valeu-me o sangue frio para conseguir gerir o pânico daqueles homens”, afirma. 

Felizmente, não morreu ninguém no incêndio nem houve feridos. O navio ainda esteve várias horas a arder até naufragar nas águas da Terra Nova. 

O navio Lutador incendiou-se e naufragou em 1964.

Ao longo das suas viagens, o enfermeiro passou pelo norte de Sidney, St. Johns (no Canadá) e sul da Terra Nova, entre outros portos. Na Gronelândia, pescava-se com terra à vista e era nesses momentos que os esquimós que seguiam em embarcações pequenas a motor de dois tempos, conhecidas entre os bacalhoeiros por tuk-tuks traziam tabaco em troca de aguardente e vinho do Porto. 

“Eles eram muito simpáticos e apesar de não percebemos bem o que diziam, nós entendíamo-nos e eram sempre encontros engraçados”, afirma António. 

Quando regressou a Portugal, António trabalhou no Hospital do Montijo como radiologista e numa companhia de seguros, em Lisboa. Os acontecimentos do maio de 1968 fizeram com que decidisse emigrar para França com a mulher Fernanda Graça.

“Estivemos lá sete anos. Tirei três licenciaturas: uma livre com 30 cadeiras e ainda de História e Geografia na Universidade de Vincennes. Trabalhei por turnos num hospital francês e depois ia para as aulas. Foram tempos difíceis, mas de que tenho muitas saudades”, confessa.

Já com três filhos, António voltou para Portugal em 1975 “atrás dos foguetes da Revolução do 25 de Abril e dos ventos de mudança que o País atravessava”. Enquanto não lhe deram equivalência das licenciaturas trabalhou no Hospital de São Bernardo e Outão e depois deus aulas em várias escolas da cidade.

Cada pescador seguia nas embarcações de pesca à linha, os dóris.

Sobre a série “Terra Nova” — da autoria de Artur Ribeiro e que passa todas as quartas-feiras, por volta das 21 horas, na RTP1 —, António considera que “até ver, a produção é mais do género de telenovela, muito romanceada e grande parte dela passada em terra”.

O elenco da produção tem nomes como Virgílio Castelo, Vítor Norte, Sara Norte, João Catarré, Sandra Faleiro, Beatriz Barosa, João Reis, Pedro Lacerda, Carla Chambel, Miguel Borges, João Craveiro, Ricardo de Sá, Dinarte Branco, Rodrigo Tomás, Figueira Cid, Tomás Alves, João Jesus, Vítor D’Andrade, entre outros.

Atualmente, António Graça vive na Lagoinha, Palmela.
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