Às 22 horas, os microfones estão prontos, mas ainda há quem olhe para eles com desconfiança. Os primeiros pedidos começam a aparecer devagar e é preciso esperar que alguém ganhe coragem para dar o primeiro passo. Uma hora depois, o cenário já é outro. Há músicas em várias línguas, grupos a cantar em conjunto e clientes a disputar espaço junto de quem segura o microfone. Nas noites mais concorridas, a fila de espera pode chegar às duas horas.
É assim, todas as quartas-feiras, no Crazy Dolphin Pub, em Setúbal. O International Karaoke tornou-se um ponto de encontro entre portugueses e pessoas de várias partes do mundo, sobretudo estudantes Erasmus que passam uma temporada na cidade. A noite começa às 22 horas e pode prolongar-se até às quatro da manhã.
Segundo Rafael Lopes, de 34 anos, sócio-gerente da Setúbal Experience, à qual pertence o Crazy Dolphin Pub, é a partir das 23 ou 23h30 que o espaço começa a ganhar outra energia, “quando começam a chegar mais pessoas, inclusive estudantes”, explica.
Ao longo da noite, Rafael tenta perceber que nacionalidades estão presentes e escolhe temas de diferentes países. “Temos muitos grupos a pedir músicas dos seus países, tanto para ouvirem, como para cantarem.” O karaoke internacional não surgiu por acaso. Antes de abrir o pub, Rafael estava ligado há mais de uma década a atividades dirigidas a estudantes Erasmus em Setúbal, organizadas em diferentes bares e discotecas da cidade.
Quando nasceu o Crazy Dolphin, a ideia de criar uma noite pensada para um público internacional fazia parte do conceito. “Incentivo sempre a cantarem músicas dos seus países”, conta. Para Rafael, a mistura de culturas é uma das características mais importantes da noite. “Nos dias de hoje somos globais e Setúbal tem já imensas pessoas que vieram de outros países com muita vontade de nos conhecer melhor.”
De Adele a músicas em línguas que nem todos conhecem
Durante o período letivo, os estudantes Erasmus têm uma presença forte às quartas-feiras, embora estejam longe de ser os únicos. Estudantes portugueses, turistas, imigrantes e outros clientes habituais também fazem parte do público.
Rafael estima que já tenham passado pelo karaoke pessoas de 40 a 50 nacionalidades. Além de participantes provenientes de toda a Europa, recorda clientes do Brasil, Chile, Argentina, Paraguai, Venezuela e Colômbia. Da Ásia, já recebeu pessoas da Índia, Nepal, Filipinas, Japão e China, enquanto Angola e Moçambique estão entre os países africanos representados com frequência.
Essa diversidade também chega ao repertório. “Quase todas as nacionalidades que mencionei acima já cantaram músicas nas suas línguas”, revela. A certa altura da noite, porém, as diferenças linguísticas deixam de importar. Entram os êxitos que quase todos reconhecem, Justin Bieber, Katy Perry, Adele, Queen e Backstreet Boys estão entre os nomes pedidos com mais frequência.
O espetáculo nem sempre fica limitado a quem tem o microfone. Rafael conta que é habitual os clientes aproximarem-se para acompanhar a atuação e, por vezes, o entusiasmo torna-se difícil de controlar. “É raro haver um dia em que não esteja toda a gente ao lado do cantor, a cantar com ele e, por vezes, a querer roubar o microfone para cantar parte das letras. Já houve pessoas a subir para bancos e mesas e até quem tenha tirado a T-shirt como se fosse um artista de palco”, diz.
A participação espontânea do público é, aliás, uma parte essencial do conceito. Rafael assume a organização e animação das sessões, embora não seja ele quem pega no microfone para cantar. “Na realidade, sou um desses ‘tímidos’ ao microfone”, admite. “Os clientes ajudam a animar o karaoke muito melhor do que eu faria. O espetáculo acaba por ser deles.”
Uma comunidade criada à volta do karaoke
Com o passar do tempo, começaram também a surgir clientes que regressam regularmente. Alguns participam não apenas no International Karaoke das quartas-feiras, como nos karaokes de domingo e noutras edições ocasionais promovidas pelo espaço. Para Rafael, existe uma comunidade em torno do Crazy Dolphin e o karaoke funciona como uma forma de aproximar quem chega pela primeira vez.
“O International Karaoke de quarta-feira já fez imensas amizades e até outro tipo de relações. Quase toda a gente se conhece e querem cantar uns com os outros”, conta. A integração dos recém-chegados pode acontecer rapidamente: “No próprio dia que vem uma pessoa nova, se cantar bem, já tem duas ou três pessoas a querer cantar com ela.”
A dimensão das noites ajuda a explicar o cenário. O Crazy Dolphin tem lotação para 150 pessoas e, nos dias mais concorridos, pode atingir esse limite. Rafael explica que, por vezes, é necessário impedir temporariamente novas entradas porque se torna difícil circular no interior.
Até agora, quem quer cantar pode escrever num papel o nome da música, o artista e o nome de quem vai subir ao microfone. O sistema, porém, está a ser digitalizado e o Crazy Dolphin está a implementar pedidos através de QR Code, permitindo consultar a fila de músicas.
Em noites concorridas, é preciso ter paciência. Rafael conta que vai alternando entre diferentes grupos, para tentar garantir que todos tenham oportunidade de participar, em vez de colocar todas as músicas pedidas pelas mesmas pessoas. “Já aconteceu ter uma fila de duas horas de música”, revela.
A entrada no Crazy Dolphin e a participação no karaoke são gratuitas e não é obrigatório reservar mesa, embora o espaço recomende a reserva a grupos e a quem queira ficar mais próximo da zona onde decorrem as atuações.
Às quartas-feiras não existem promoções associadas ao karaoke. Uma imperial custa 1,50€, a caneca 3,50€, o gin Beefeater 7€ e os shots de tequila 2€. O pub mantém, porém, a Crazy Hour diária: das 17 às 18 horas, a imperial custa 0,50€, das 18 às 19 horas, 0,70€ e das 19 às 20 horas, 1€.
O espaço está ainda a preparar uma nova ementa de cozinha e pretende criar uma oferta específica para as quartas-feiras, por serem dedicadas ao Karaoke Internacional. Depois de tantas noites, Rafael acredita que o segredo está no ambiente que se formou desde os primeiros tempos. Os estudantes internacionais foram dos primeiros a perder a vergonha e a pegar no microfone, criando uma dinâmica que acabou por contagiar os restantes clientes.
“Foram eles que animaram o espaço acabado de nascer e isso foi ficando. As pessoas perceberam que aquele era o ambiente e sentiam-se confortáveis.” Segundo o responsável, tornou-se mesmo o evento com maior sucesso do pub. “Juntou uma comunidade internacional com a local, com muita diversão garantida. E sei que as pessoas que vão saem daqui com boas memórias.”







