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Três amigos transformaram a paixão por golfinhos numa experiência única no Sado

O projeto nasceu em Setúbal e leva visitantes a bordo para observar de perto uma das comunidades mais raras da Europa.

Existem lugares onde a natureza parece seguir o seu próprio ritmo e Setúbal é um deles. Entre a imponência da paisagem rochosa da Serra da Arrábida, única em Portugal, e a beleza singular da sua costa, a região atrai milhares de visitantes. Mas há outro fenómeno que torna a cidade ainda mais rara: a comunidade de golfinhos que vive na baía do Sado.

Por natureza, estes animais são nómadas, mas em Setúbal vivem de forma residente há mais de cem anos. Na Europa, isso só acontece em mais dois locais: na Escócia e Irlanda. Por cá, quem quer ver os golfinhos pode entrar em contacto com a Dolphinbay, que leva os visitantes até aos 25 golfinhos do Sado.

A empresa foi fundada pelos biólogos marinhos Patrícia Mota, de 39 anos, e Fábio Matias, de 42, juntamente com o informático Tiago Rodrigues, de 40 anos. Os três desenvolveram um catamarã que usa a mais recente tecnologia híbrida, o que permite aproximar-se dos golfinhos de forma silenciosa, com baixos índices de poluição. A ideia nasceu em 2016, mas só em 2019 é que o barco ficou pronto e entrou na água pela primeira vez.

Um projeto construído de raiz

No início, houve “muitas noites sem dormir”, contou Tiago à NiS. “Foi preciso construir um projeto de raiz e tivemos de aprender tudo.” O barco, com dois pisos, casas de banho e janelas subaquáticas, foi desenhado à medida pelos biólogos para as tours. Construído em Peniche, a viagem até Setúbal tornou-se uma aventura. “Além de ter sido difícil, porque o mar estava muito picado, houve aquela sensação de missão cumprida depois de todas as dificuldades”, recorda Tiago, que viu a sua vida mudar a partir desse momento.

Deixou o trabalho como informático e sentiu uma verdadeira libertação. “Trabalhava fechado num edifício, a ver a luz das lâmpadas. Saía de casa, via o dia nascer na rua, entrava dentro de um escritório e só saía à noite. Preciso de estar ao ar livre”, explica. Até que surgiu esta oportunidade “e agarrámos tudo isto”.

Embora a empresa não dê uma “garantia de ver os golfinhos”, a probabilidade de avistar os animais é quase de 100 por cento. Isso deve-se, por um lado, à experiência dos especialistas a bordo, que conhecem bem o comportamento da comunidade e sabem onde a podem encontrar. “Eles têm uma espécie de rotina diária à volta da baía. Quase todos os dias entram no estuário, exploram o seu interior, saem para o mar e depois voltam”, conta a bióloga marinha Luana Rodrigues, de 27 anos, que trabalha a bordo da Dolphinbay. No total, podem percorrer até 30 quilómetros por dia.

O facto de regressarem sempre também se explica pelas características da zona. A baía é relativamente pouco profunda e os grandes predadores não chegam até aqui, o que a torna um refúgio ideal para os golfinhos. “Não há predadores naturais, não há tubarões grandes e as orcas não entram aqui dentro”, explica Luana.  Além disso, a Baía de Setúbal “oferece muita comida”, acrescenta a bióloga à NiS.

Cada golfinho tem a sua própria personalidade

Estar no barco e observar os golfinhos todos os dias não é apenas um sonho para os fundadores da empresa, mas também para as colaboradoras Luana e a Ana Santos, de 24 anos, biólogas marinhas a trabalhar há cerca de um ano na Dolphinbay. Mesmo com formação científica, continuam a aprender todos os dias com a experiência no terreno. No contacto direto com os animais, descobrem comportamentos que dificilmente se aprendem na universidade.

Ana destaca que cada golfinho tem a sua própria personalidade, tal como as pessoas. “Cada um tem o seu próprio comportamento: alguns aproximam-se mais, outros são mais tímidos na forma como agem.” Para perceber isso, é preciso tempo. “Conseguirmos ver isso ao vivo, quando passamos muito tempo com eles.”

Luana destaca outro aspecto. “O meu detalhe favorito é que o golfinho tem a capacidade de se reconhecer ao espelho”, conta. “É algo muito raro. Reconhecem o seu próprio reflexo e percebem que são eles mesmos. Acho isso muito interessante.”

 
 
 
 
 
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Além disso, cada golfinho tem um nome e uma característica que os distingue. “Os golfinhos nascem com as barbatanas sem marcas, mas ao longo do tempo, ao interagirem, nas brincadeiras e lutas, vão ficando com marcas e cicatrizes diferentes”, explica Luana.

Para quem não está habituado a observar golfinhos, Bisnau tem uma das barbatanas mais fáceis de identificar de toda a população, devido à sua curvatura acentuada. Mas não são apenas os humanos que dão nomes aos golfinhos. Entre eles, os animais também conseguem chamar-se de forma individual. “Cada golfinho tem um assobio característico” É algo muito individual, explica a bióloga marinha. “Em termos de diferenças entre eles, têm um assobio-assinatura exclusivo, como o nosso nome.”

O golfinho mais velho e o mais novo do Sado

Atualmente, Cavalito é o elemento mais velho da comunidade. Foi observado pela primeira vez em 1983, mas poderá ser ainda mais velho, já que estes animais podem viver mais de 50 anos. Bravo, nascido em julho de 2025, é o mais novo da comunidade.

Quem faz uma tour com a Dolphinbay pode ter o privilégio de avistar os animais e de aprender mais sobre eles. A empresa já organizou passeios com turmas a bordo e, para a maioria dos miúdos, é a primeira vez que veem golfinhos. Com os biólogos analisam a água do Sado ao microscópio e aprendem mais sobre a fauna marinha.

O barco azul e branco da Dolphinbay parte sempre da zona junto à torre sineira e as reservas podem ser feitas online. Para adultos, o preço da visita de três horas ronda os 43€, dependendo da época e do dia, enquanto os miúdos pagam 22€. Para não interferir com a rotina dos animais, o tempo junto dos golfinhos é limitado a 30 minutos.

Durante os passeios, os participantes podem conhecer alguns pontos emblemáticos da costa, como o Palácio da Comenda. Nos dias mais quentes, a experiência pode incluir uma paragem para mergulhos. Uma saída para ver golfinhos torna-se, assim, um plano perfeito para um dia de verão em Setúbal.

Carregue na galeria para ver as fotos do tour.

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