fora de casa

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Sem frigoríficos, carros ou alcatrão. Era assim Setúbal quando abriu esta mercearia

Eduardo Silva cresceu entre os balcões da Mercearia Confiança de Troino, sirenes e ruas cheias de vida. Agora, gere um "museu vivo".

Quando Eduardo Silva, que todos tratam por senhor Eduardo, percorre as ruas de Setúbal, vê coisas que muitos já não conseguem imaginar. Ainda se lembra da Avenida Luísa Todi sem alcatrão, feita apenas de areia. Onde hoje se ouve o ruído do trânsito, ainda escuta as antigas sirenes que ecoavam pela cidade quando o peixe chegava ao porto. Cada fábrica tinha o seu próprio som. Os trabalhadores largavam tudo e corriam assim que ouviam o respetivo sinal sonoro. A pé, claro, porque quase não havia carros. Também na antiga Mercearia Confiança de Troino se sentia essa agitação, quando a sirene tocava.

O senhor Eduardo é filho dos fundadores César Figueiredo da Silva e Maria Helena Machado Silva, que abriram a mercearia em 1926. 100 anos depois, o engenheiro químico reformado assumiu uma missão: preservar o legado dos pais e contar a história deste espaço.

O pai entregou a mercearia a um novo arrendatário em 1983. O negócio fechou em 2013 e, durante dois anos, o espaço foi recuperado tal como era antes, com os mesmos azulejos e muitos dos elementos originais. A 15 de setembro de 2015, voltou a abrir portas, hoje como “museu vivo” e cafetaria com esplanada, onde se pode beber um refresco e viajar no tempo. Alguns dos objetos que ali estão resistiram ao tempo e permaneceram intactos, como o moinho de café, que continua a trabalhar tantos anos depois.

Sem frigoríficos, todos voltavam à mercearia

Quase todos os dias, o senhor Eduardo passa pela mercearia para conversar com quem entra ou para beber um refresco. “Uma pessoa, estando na reforma, tem de gastar o tempo. Quando aparece alguém para falar um bocadinho, fala-se”, conta à New in Setúbal. E histórias não lhe faltam.

“A Praça Machado dos Santos tinha muito movimento, muito barulho”, recorda o setubalense de 87 anos. “As lojas estavam sempre cheias de gente; entravam, saíam, voltavam a entrar.”

Havia, acima de tudo, barulho. Hoje, quando se senta na praça, acha-a calma. Naquele tempo, garante, havia muito mais vida na cidade.

Os setubalenses passavam pela Mercearia Confiança de Troino várias vezes por dia. “Uma coisa que hoje já não conseguimos imaginar é isto: não havia frigoríficos”, explica. “As pessoas não tinham capacidade, em casa, de conservar as coisas. Portanto, vinham à mercearia duas ou três vezes por dia.”

A vida acontecia sobretudo na rua. As casas eram pequenas. “As pessoas viviam na rua. As casas serviam só para dormir, para comer e pouco mais. O resto vivia-se tudo na rua.”

No fundo, espaços como a mercearia – tal como as tabernas – funcionavam como verdadeiros centros de convívio.

Eduardo escolheu outra vida sem perder a ligação à mercearia

Em miúdo, Eduardo ajudava na mercearia. Mas, já adulto, nunca chegou a trabalhar ali. Estudou Ciências Físico-Químicas e seguiu carreira na indústria, em Lisboa. “O meu pai nunca me disse: ‘Eduardo, tens de ficar aqui’. Pelo contrário: dizia-me para estudar, para fazer outra vida.” E foi isso que fez.

Agora, reformado, voltou a aproximar-se da casa dos pais e da memória da cidade onde cresceu. Não romantiza tudo – a vida nem sempre era fácil – , mas guarda com carinho os valores daquela altura.

Para o senhor Eduardo, as diferenças entre o passado e o presente vão muito além da tecnologia. “O melhor que havia nesse tempo era a liberdade e a responsabilidade”, conta à NiS.

Para explicar essa ideia, recua aos dias em que os miúdos se entretinham na rua. Brincavam à bola, claro, mas também faziam outras coisas que hoje pareceriam impensáveis. “Nós, com dez, 11, 12 anos, tínhamos navalhas.”

Usavam-nas para construir pequenos barcos que depois punham a flutuar. “Grande parte da distração da rapaziada era feita com os cascos das palmeiras. Esses cascos são muito fáceis de trabalhar.” Nunca viu, garante, qualquer problema por causa das navalhas.

“Havia um respeito e uma responsabilidade que eram introduzidos automaticamente nas crianças.” Os pais educavam, mas não estavam sozinhos: “A população, a vizinhança, eram auxiliares da educação.” Para Eduardo, havia mais liberdade porque também havia mais responsabilidade.

“Vejo a vantagem do telemóvel, mas também vejo a grande desvantagem”

A maior mudança, acredita o antigo engenheiro químico, cabe hoje no bolso. “Vejo a vantagem do telemóvel, mas também vejo a grande desvantagem”, continua. Para o filho do merceeiro, o aparelho tirou, de facto, liberdade às pessoas.

“A gente já não consegue viver sem isto.” Ele tenta resistir a essa dependência. “A minha reação é não ficar dependente do telemóvel. Por isso é que, às vezes, me esqueço dele.” Para Eduardo, também isso faz parte da “liberdade que cada um tem”.

Mas admite que, no passado, também havia outras prisões. Por causa do trabalho, muitas vezes ficava preso ao telefone fixo. Em alguns fins de semana, por exemplo, tinha de estar de prevenção, disponível para qualquer emergência na fábrica.

“Então, eu tinha de estar ao pé do telefone fixo para, se fosse preciso, estar disponível para ir à fábrica. Isso era uma prisão também.” Quando se deslocava para visitar os pais em Setúbal, telefonava para o trabalho e deixava o novo número onde podia ser contactado.

Uber Eats à antiga já existia em Troino

Nem tudo mudou, conta Eduardo. O salão de cabeleireiro ao lado da mercearia já existia naquele tempo. E até havia uma espécie de Uber Eats à antiga. A Mercearia Confiança de Troino fazia entregas ao domicílio: os clientes encomendavam e recebiam tudo no próprio dia.

“Um empregado só servia para isso: para levar as coisas à casa dos fregueses.” Havia ainda o Manuel, de Palmela, que chegava a Setúbal com o seu burro. “Vinha com o burrinho, com os alforges cheios de frutas e hortaliças.” Na mercearia, não havia isso à venda.

Também existia uma espécie de pastilha elástica da época: a castanha pilada. Era dura “que nem uma pedra”, mas o pai de Eduardo punha-a de molho até ficar macia. Quem não tinha dinheiro para comprar comida mastigava, por vezes, castanha pilada para enganar a fome. As trabalhadoras das fábricas de conservas passavam longas horas a trabalhar, muitas vezes sem sair para almoçar ou jantar. As castanhas também serviam para isso.

Hoje, bebidas com gás – como a CocaCola, a Fanta ou a Sprite – fazem parte do quotidiano. Na infância de Eduardo, eram novidade. Lembra-se da primeira bebida gaseificada, vendida numa garrafa grossa de vidro, fechada com uma pequena esfera que subia com a pressão e bloqueava a abertura. As pequenas bolas também serviam de brinquedo para os miúdos. O senhor Eduardo guardou algumas dessas garrafas, que hoje repousam numa prateleira por cima da porta da mercearia.

Os “livros dos calotes” guardavam vidas inteiras

Este verdadeiro setubalense também gostava de poder mostrar os antigos “livros dos calotes”, onde o pai registava as compras dos clientes. Cada linha correspondia a uma encomenda e a um valor por pagar.

“Os clientes vinham aqui, levavam as coisas e diziam: ‘Ponha aí no livro’. O meu pai registava”, conta à NiS. Quando alguém pagava, o merceeiro riscava a dívida com um grande círculo. Quase ninguém pagava de imediato. A maioria saldava as contas no dia do pagamento, uma vez por semana.

“Além da alimentação, tinham a eletricidade, tinham a água, tinham outras despesas. Depois vinham pagar aquilo que podiam.” No fim, garante, todos pagavam. “E aquele livro tinha muito da vida de cada um. No fundo, era quase uma fotografia.”

Foi precisamente por isso que o pai decidiu destruir esses cadernos, para proteger a privacidade dos clientes. “O meu pai fez o favor de rasgar tudo. Ninguém tinha nada que saber da vida das pessoas que por aqui passaram.”

É uma das poucas coisas que parecem entristecer Eduardo. Quando percebeu o que tinha acontecido, o pai já tinha morrido e não podia perguntar-lhe mais nada. Ainda assim, três livros sobreviveram e estão hoje expostos na mercearia.

Eduardo guarda memórias de uma Setúbal diferente

A Mercearia Confiança de Troino é, acima de tudo, uma homenagem aos pais e à cidade que já não existe da mesma forma. O pai, que chegou a Setúbal com 12 anos e sem nada, acabou por se tornar uma das poucas pessoas do bairro a comprar um carro, recorda o filho com orgulho.

“Tínhamos um Austin A40 Somerset”, conta o reformado de 87 anos à NiS. Só saía da garagem ao fim de semana, para pequenos passeios – por exemplo até Azeitão – que, na altura, pareciam quase viagens ao outro lado do mundo.

Se pudesse viajar no tempo, o senhor Eduardo regressaria aos anos da infância. “Voltava aos meus dez anos. Nessa altura, não tinha preocupações e vivia com muita liberdade”, diz com um sorriso. Para o futuro de Setúbal e dos setubalenses, deseja mais daquilo que acredita ter existido no passado: responsabilidade e liberdade. Em breve, qualquer pessoa poderá levar para casa as memórias do senhor Eduardo. O livro que escreveu obre a mercearia será lançado a 15 de setembro de 2026.

Carregue na galeria para viajar no tempo na Mercearia Confiança de Troino.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Praça Machado dos Santos 2
    2900-178  Setúbal

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