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Pelo terceiro ano consecutivo, Mauro Loureiro é o Chef do Ano da NiS

O fundador e chef do Sóce foi o vencedor dos Prémios NiS 2025 na categoria de Chef do Ano. Para 2026, o restaurante vai ter uma nova carta.

Há prémios que validam o talento. Outros que confirmam a consistência. E depois há aqueles que funcionam como um espelho de tudo o que foi construído ao longo de anos, com tempo, método e identidade. Para Mauro Loureiro, vencer novamente o Prémio NiS na categoria de Chef do Ano não é apenas uma distinção individual. É a prova de que um projeto gastronómico pode crescer enraizado num território, dialogando com a tradição sem abdicar da inovação, e ser reconhecido por quem mais importa: o público.

A distinção, decidida por votação dos leitores da NiS, volta a colocar o chef e o Sóce no centro do mapa gastronómico nacional. Pelo terceiro ano consecutivo, o prémio confirma que o que nasceu como uma visão pessoal se transformou numa referência coletiva para Setúbal, para a Margem Sul e para todos os que procuram uma cozinha de autor com identidade, rigor e emoção.

Ser nomeado já é, por si só, um reconhecimento, segundo o chef. Mas ganhar, quando a decisão está nas mãos de quem frequenta, prova e vive os restaurantes, tem outro peso. Mauro Loureiro não esconde o significado desta distinção repetida. “Ganhar o Chef do Ano pelo terceiro ano consecutivo é sinal que estamos a desenvolver um trabalho coeso, um trabalho que traz valor à região”, explica.

Para o chef, este prémio reflete a forma como Setúbal olha hoje para o Sóce. “Sinto que a cidade, ou mesmo a Margem Sul, olha para o Sóce como uma bandeira ou um farol”, explica, sublinhando o papel do restaurante na valorização do território. Não como oposição à cozinha tradicional, que reconhece e defende, mas como complemento. “A cidade está muito bem servida de restaurantes tradicionais, e nós fizemos uma oferta diferente, honrando a comida tradicional portuguesa, mas com uma roupagem autoral”.

É precisamente esse equilíbrio entre respeito e inquietação criativa que faz com que o projeto se destaque. “Por causa desta diferença, aliada à qualidade, à paixão e à divulgação do território, as pessoas reconhecem que o trabalho desenvolvido é merecedor deste tipo de distinções e não podíamos estar mais gratos”.

A origem de tudo: cozinhar como gesto de amor em família

Muito antes dos restaurantes com estrelas Michelin, dos prémios ou das cartas conceptuais, a relação de Mauro Loureiro com a gastronomia começou de forma simples e familiar, em casa. “Somos seis irmãos. O meu pai tinha de cozinhar diariamente para oito pessoas e era um autêntico entusiasta”, recorda.

Naquela cozinha familiar, a comida era uma linguagem emocional. “Era através da comida que ele nos dava amor”. Os jantares começavam cedo, com idas às compras à procura dos melhores ingredientes, tarefas distribuídas entre irmãos e refeições partilhadas à mesa. “O final resultava sempre em pratos fantásticos”. Foi aí que Mauro aprendeu que cozinhar não é apenas técnica, é intenção, cuidado e partilha.

A ligação à matéria-prima também nasceu cedo. As pescarias no rio Cávado ou no mar de Ofir terminavam invariavelmente na cozinha. “Lembro-me perfeitamente da primeira vez que cozinhei um peixe que tinha pescado. Quando cozinhamos algo pela primeira vez, isso fica-nos marcado”, conta. Foi esse contacto direto com o alimento que moldou a sua forma de olhar para o produto, algo que ainda hoje define a sua cozinha.

Da gestão à alta cozinha

O percurso profissional começou longe da alta gastronomia, mas nunca longe da restauração. O primeiro emprego foi na Ibersol, onde Mauro passou cerca de uma década. “Comecei como colaborador e evoluí até diretor coordenador”, explica. Ali aprendeu a estruturar equipas, processos e a “profissionalizar uma paixão”.

Mesmo na restauração rápida, a curiosidade já apontava noutro sentido. Frequentava restaurantes de fine dining, observava tudo: “o copo, o guardanapo, todos os detalhes”. Quando decidiu sair da Ibersol, seguiu para Paris mesmo sem falar francês, e mergulhou num novo universo.

Após um período académico em Economia e Gestão, fez uma introspeção decisiva. “Percebi que o que gostava mesmo de fazer era cozinhar”. Decidiu então enviar currículos para restaurantes Michelin em França e é foi aceite no Terroir Parisien, do chef Yannick Alléno. “Entrei como ajudante de cozinha, o posto mais baixo, mas fiquei felicíssimo”. Foi ali que sentiu, pela primeira vez, que estava exatamente onde devia estar.

Setúbal, o ensino e a construção de um legado

O regresso a Portugal acontece por uma necessidade de formação académica. Entrou na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, onde se profissionalizou e criou uma ligação definitiva à cidade. Depois de concluir o curso, assumiu projetos como o Mar ao Largo e a Taberna do Largo, onde começou a desenhar conceitos gastronómicos ligados ao território.

Seguiu-se o mestrado em Ciências Gastronómicas na Universidade Nova de Lisboa e um convite que viria a marcar a sua carreira: lecionar na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal durante oito anos. “Descobri uma paixão imensa por partilhar conhecimento”, confessa. Hoje, encontra ex-alunos em cozinhas de Setúbal e Lisboa, um legado que assume com orgulho.

Esse percurso pedagógico reforçou o seu olhar sobre o território. Serra, baía e estuário tornaram-se não apenas referências geográficas, mas bases conceptuais para a sua cozinha, algo que mais tarde se materializaria no Sóce.

Do Mercado da Conceição ao Sóce

O sucesso do Portugal Bem Temperado, um projeto digital de divulgação gastronómica e turística em cinco episódios, filmado em cenários típicos da cidade de Setúbal, abriu-lhe novas portas. A partir daí, a Câmara Municipal de Setúbal desafiou-o a ir ao Mercado da Conceição onde, após um showcooking, surgiu o convite para abrir um espaço naquele local.

Embora limitado pelo formato, o projeto revelou-se essencial para ampliar o público e consolidar uma base fiel de clientes. Naturalmente, surgiu o desejo de ir mais longe. “Os clientes começaram a pedir um restaurante a sério”. A procura por um espaço culminou no nascimento do Sóce, onde Mauro pôde finalmente “abrir asas e fazer realmente o que sempre sonhei”.

O ano de 2026 marca uma fase de consolidação do Sóce enquanto restaurante de cozinha de autor. A nova carta, prevista para fevereiro, será estruturada nos três vértices que definem todo o conceito do restaurante: serra, baía e estuário. “A serra representa a dimensão agrícola e pastoril, a baía traz o mar e o estuário simboliza a confluência e a biodiversidade”, explica.

A mudança não será apenas nos pratos. O formato da carta vai evoluir para comunicar melhor a narrativa do projeto. “Estamos a fazer as coisas com tempo, calma e preocupação, para que fique claro para o cliente o que queremos desenvolver e o processo criativo”. Também a par da comida, haverá uma nova carta de vinhos, trazidos para harmonizar os novos pratos.

Além da cozinha, há um forte compromisso com a equipa e com a cidade. O Sóce aposta em salários justos, horários legais, formação contínua e até na valorização do bairro envolvente, em articulação com a junta local. “É um trabalho difícil e com resultados lentos, mas feito com amor”, diz Mauro, acreditando que Setúbal terá, no futuro, um tecido gastronómico ainda mais consciente e qualificado.

As reservas podem ser feitas através do telefone do restaurante, 926 669 028 ou do email soce.setubal@nullgmail.com.

Carregue na galeria para conhecer mais sobre o espaço e sobre o chef.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida Belo Horizonte, N.º 76 A
    2910-422 Setúbal
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado, das 12h às 15h
  • Terça-feira a sábado, das 19h às 22h30
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€
TIPO DE COMIDA
comida portuguesa

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida Belo Horizonte, N.º 76 A
    2910-422 Setúbal