Setúbal está cheia de pequenos segredos. E, desde há pouco tempo, há mais um na cidade. Quem visitou recentemente o miradouro junto à 7.ª Bateria talvez tenha reparado numa pequena menina de metal, com um cravo na mão, e noutro cravo metálico colocado no cano de um tanque desativado.
A silhueta integra-se na paisagem como se sempre tivesse estado ali, destacando-se contra o azul do céu e do mar. É um símbolo de paz, numa referência à Revolução dos Cravos. Mas como é que esta obra de arte chegou ali?
Os trabalhos em metal têm a assinatura de Fulvio Capurso, de 45 anos, arquiteto e artista plástico natural de Turim, que vive em Lisboa desde 2019. Embora Fulvio, que usa o nome artístico Fulviet, só tenha instalado a obra a 10 de julho, a sua história começou há cerca de 20 anos. Na altura, o italiano estudava Arquitetura no Politecnico di Torino e fez um ano de Erasmus em Lisboa.
Foi então que conheceu Portugal pela primeira vez. “Tinha amigos que viviam em Setúbal. Dois viviam na Casa Okupada de Setúbal Autogestionada”, conta, referindo-se a um centro social e cultural anarquista autogerido, que funcionava numa casa ocupada e que já não existe. “Com eles fiz um passeio por Setúbal e falaram-me da 7.ª Bateria. Mas no fim nunca fomos.”
A história poderia ter terminado aí, mas o acaso — ou talvez o destino — quis outra coisa. “Recentemente, o meu amigo, o artista Aleksi Gribel, perguntou-me se queria ir com ele à 7.ª Bateria. Lembrei-me das histórias, vi algumas fotografias e preparei a instalação. Foi assim que surgiu a obra”, diz Fulvio à New in Setúbal.
Artista quer acordar o lado mais brincalhão de quem passa
O estilo de Fulvio é uma mistura de street art, urban art e arte de guerrilha. As obras do italiano representam muitas vezes miúdos ou crianças em diálogo com animais, sobretudo pássaros e gatos. “Na realidade, diria que poucas vezes faço críticas a acontecimentos contemporâneos. Prefiro intervir de uma maneira que transcenda o tempo e toque a sensibilidade das pessoas. Quero chamar essa criança que temos dentro de nós, que tem vontade de brincar”, conta Fulvio.
O artista gosta de lançar uma pequena semente capaz de despertar a curiosidade de quem passa por ali e fazê-lo imaginar que história poderá existir por detrás daquela figura. Embora também realize trabalhos por encomenda, é sobretudo nas intervenções feitas por iniciativa própria que encontra espaço para esse tipo de jogo com o público. É a arte de guerrilha: peças instaladas sem cliente ou encomenda, simplesmente em lugares que lhe despertam interesse.
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Foi apanhado a pintar uma casa — proprietário acabou por dizer-lhe para continuar
Multas nunca teve, garante Fulvio. Queixas houve apenas em duas ocasiões, acrescenta o italiano, a rir. Na altura, ainda vivia no Uruguai, para onde a vida o tinha levado por amor depois de um ano em Barcelona e vários no México.
“No Uruguai aconteceu-me pintar um mural numa casa que parecia abandonada. Quando voltei no dia seguinte, estava tudo pintado de branco outra vez. Tentei falar com a proprietária, mas infelizmente ela não quis”, recorda o italiano.
Noutra ocasião, pintou uma casa que também lhe parecia abandonada e que estava coberta de grafítis e tags. De repente, apareceu o proprietário. “Disse-me: ‘O que estás a fazer?’ Expliquei-lhe que estava a tornar a fachada mais bonita e, a certa altura, ele disse: ‘Pois, realmente tens razão. Continua’.”
O facto de quase nunca receber queixas terá provavelmente a ver com o tipo de arte que faz, capaz de recordar às pessoas tempos mais despreocupados. Mas também com o respeito que Fulvio demonstra pelos lugares onde intervém. “No geral, tento intervir onde acho que não vou incomodar. Não são lugares muito turísticos, nem património cultural. Isso só faço com autorização” Por exemplo, já colaborou com as câmaras municipais de Almada e Lisboa.
Já lhe roubaram umas peças
As suas intervenções de guerrilha são geralmente pequenas. “É quase como instalar um candeeiro ou algo do género. Procuro colocar a arte em sítios difíceis de alcançar.” Também tenta instalar as obras em locais onde ninguém se possa magoar, já que algumas peças têm pontas bastante afiadas. “Mas também já aconteceu roubarem umas quantas obras”, conta Fulvio, sem qualquer sinal de irritação.
“Gosto mais de fazer peças em sítios abandonados. Procuro lugares que tenham uma certa importância na composição da paisagem.” O seu objetivo é “intervir na skyline da cidade e não sobre a natureza”, explica. “Ou seja, jogar com esse positivo e negativo e com a transição entre o que já existe, o que foi construído, a terra e o céu.” É precisamente isso que se pode observar na 7.ª Bateria.
Transformar aço corten em figuras quase fluidas
Fulvio costuma trabalhar com aço corten. Este material oxida e cria uma espécie de pele, que o protege. “Pode durar 30 anos ou mais no interior. Junto ao Atlântico dura menos”, explica. O material tem também características que lhe permitem criar formas muito fluidas, quase como se estivesse a desenhar: pernas muito finas, um pescoço esguio com uma cabeça grande, sem que a estrutura deixe de ser estável. A menina da 7.ª Bateria também é feita deste material.
As formas das suas obras deixam perceber que a paixão de Fulvio é o desenho. “Gosto muito de desenhar. Também já ilustrei livros para crianças”, conta à NiS. O metal que utiliza tem normalmente dois ou três milímetros de espessura, para que as peças não se tornem demasiado pesadas. “Corto-o com uma máquina de corte por plasma manual. Primeiro desenho, faço o esboço diretamente na chapa, corto e depois faço a oxidação com água, sal e vinagre. Depois vem a parte da soldadura.”
De vez em quando também pinta paredes, mas isso exige passar mais tempo no próprio local. “As minhas obras em metal posso prepará-las no atelier e depois sou muito rápido na instalação”, diz o artista — uma vantagem importante quando se trata de arte de guerrilha.
Outra razão são as suas filhas, de cinco e nove anos. Fulvio quer passar com elas o máximo de tempo possível. “Às vezes tenho saudades de fazer mais murais pintados e de os combinar com metal”, admite Fulvio. Uma das poucas obras deste género pode ser vista no Porto desde o ano passado.
Fulvio promete voltar a Setúbal e deixou outra obra de arte escondida na cidade
Fulvio é italiano, mas diz sentir que pertence também às cidades onde já viveu: Barcelona, Oaxaca, no México, Montevideu, no Uruguai, e agora Lisboa. Foi no Uruguai que Fulvio criou a sua primeira obra em metal.
Um amigo tinha, por acaso, uma máquina de corte por plasma, o que lhe permitiu começar a experimentar o material. Já passaram muitos anos desde então, mas o artista manteve-se fiel à sua linguagem artística — e agora partilha-a também com os setubalenses.
Além da menina com os cravos, existe ainda uma segunda obra para descobrir na antiga 7.ª Bateria, no edifício principal situado acima do antigo sanatório. Ali, uma miúda e um pássaro estão sentados, a olhar para a Baía e Troia.
“Quero voltar àquele Forte de São Filipe, onde fui quando estava de Erasmus, há 20 anos”, conta. “E depois tenho de voltar a passear por Setúbal, para conhecer esta cidade um pouco melhor”, promete. Quem sabe se, em breve, os setubalenses não irão descobrir, por outros cantos da cidade, mais pássaros, gatos ou miúdos a convidá-los a sonhar e a refletir.
Carregue na galeria para ver a nova arte de Fulvio em Setúbal — e outras obras do artista.
Fotografias de Aleksandra Gribel e Aleks Gribel.







