O primeiro encontro entre Mafalda Morgado e Patrícia Vieira aconteceu numa escola de dança. Patrícia tinha atravessado uma fase de profundo stress e, no ano passado, procurava uma atividade que a ajudasse a desligar dos problemas. Pela primeira vez na vida, decidiu experimentar uma aula de dança — ou, mais precisamente, várias, já que passou por todas as modalidades que a escola oferecia.
Quando entrou numa aula de Mafalda, a professora percebeu imediatamente que alguma coisa não estava bem. “Passa-se alguma coisa contigo, consigo ver”, disse-lhe. Mafalda acertou em cheio. As duas trocaram números de telefone, combinaram um café e rapidamente se tornaram amigas. Hoje, são também sócias e complementam-se no trabalho.
Mafalda construiu uma carreira de sucesso como bailarina. Formou-se na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal (ADCS), onde entrou aos oito anos. No entanto, começou a sentir cada vez mais o lado duro e ingrato do mundo profissional da dança, marcado pela pressão constante sobre o peso, a aparência e o desempenho físico.
“Os bailarinos são os atletas de Deus, dizia já Albert Einstein”, conta Mafalda à New in Setúbal, referindo-se à profunda disciplina física exigida pela dança. “Até aos 19 anos, treinava todos os dias, de segunda-feira a domingo, sempre.”
Depois de anos de trabalho intenso e de concluir a formação, Mafalda começou a atuar em palcos internacionais. Participou, entre outros projetos, em reconhecidas produções de bailado em Itália e trabalhou com alguns dos melhores bailarinos do mundo, entre eles Olga Roriz, Carlos Prado, Maria Graça Bessa e António Rodrigues. Apesar do sucesso, sentia que a profissão lhe oferecia pouco reconhecimento financeiro e social. Além disso, tornou-se difícil conciliar a carreira com o desejo de ser mãe.
“Quando estás grávida, não podes dançar. Mas eu queria ter um filho.”
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A morte do pai mudou-lhe o rumo
Mafalda decidiu então abandonar o mundo profissional da dança e trabalhou durante cerca de dez anos na área da saúde. “Quando o meu pai morreu há dois anos, fiquei muito triste e perdi o chão. Foi então que decidi voltar à dança, àquilo que me faz feliz.” A bailarina descreve os momentos em palco, durante uma aula ou simplesmente enquanto dança como períodos de descanso e meditação.
“O meu cérebro está ligado 24 horas por dia. Só quando faço desporto ou quando danço é que desliga. Quando acabo de treinar, estou nova. Nada me irrita, nada me chateia.”
Começou novamente a dar aulas e, apesar de já não conhecer praticamente ninguém no setor, conquistou rapidamente muitos alunos. Quando Patrícia entrou um dia numa das suas aulas, tudo mudou.
O início da Fiary
Desde abril, as duas amigas gerem juntas o próprio estúdio de dança. Chama-se Fiary. “O nome vem da palavra italiana ‘fiato’, que significa fôlego”, explica Patrícia, de 37 anos. O conceito resume a história que querem contar através do projeto.
“A história da Fiary é sobre isso: sobre fôlego, sobre apanhar ar e seguir em frente, sobre a mulher se reerguer, continuar e tentar”, diz à New in Setúbal.
Mafalda cria as coreografias, organiza os espetáculos, dá aulas e continua a dançar em algumas produções. Já ajudou várias alunas a concretizarem o sonho de entrarem também no Conservatório. A professora vive cada conquista das alunas com grande intensidade. Quando conseguem dar esse passo, sente orgulho e felicidade, mas também alguma tristeza, porque a mudança representa uma despedida.
A Fiary tornou-se uma segunda casa, tanto para Mafalda e Patrícia como para muitas alunas. “É a minha segunda família aqui”, afirma Patrícia.
Algumas adolescentes, sobretudo durante a fase da puberdade, perguntam se podem chegar mais cedo à escola. Por vezes, procuram simplesmente um espaço onde possam estar e afastar-se por algum tempo dos problemas de casa.
“Vai para além da aula em si”, sublinha Mafalda.
Os professores de dança também são psicólogos
Na sua opinião, um professor de dança acaba muitas vezes por assumir também o papel de psicólogo. As conversas abordam frequentemente inseguranças, a relação com o corpo, a aparência ou o peso. “Não há julgamento”, garante a professora, que tem a figura tradicionalmente associada a uma bailarina clássica.
A Fiary também desenha a própria roupa de dança e disponibiliza modelos em tamanho XL e para todos os tons de pele. “Todos os corpos foram feitos para dançar”, defende Mafalda.
A mesma ideia aplica-se às idades. A aluna mais nova tem três anos e a mais velha tem 70. “A Helena dança ballet”, conta Mafalda, orgulhosa. Rapazes, raparigas, mulheres e homens podem participar. Mafalda aproveita ainda para recordar a história do ballet.
“O ballet era reservado às pessoas brancas e a dança clássica pertencia aos ricos. As pessoas de pele mais escura não podiam dançar ballet.”
Segundo a bailarina, só há poucos anos começaram a surgir bailarinas negras em posições de destaque. “O racismo chegou a este ponto”, lamenta, enquanto abana a cabeça.
Mafalda não é a única a fazer esta crítica, outras bailarinas também denunciaram o racismo. Em 2015, Misty Copeland tornou-se a primeira mulher afro-americana a alcançar o posto de bailarina principal nos 75 anos de história do American Ballet Theatre.
Pode fazer uma aula à experiência na Fiary
Quem quiser experimentar uma destas aulas, pode fazê-lo gratuitamente. Essa sessão não se limita, aliás, a uma única modalidade. Patrícia recomenda que os interessados experimentem todas as aulas oferecidas pela Fiary.
“Exatamente como eu fiz naquela altura.” Para marcar, basta enviar uma mensagem através do WhatsApp para o número 931 486 405, de preferência na véspera.
A escola oferece ballet, dança contemporânea, commercial, fit dance, zumba, ioga, baby ioga, meditação, pilates, K-Pop e treino localizado. Esta última modalidade trabalha zonas específicas do corpo. “Os abdominais, por exemplo”, explica Mafalda.
Filhas dançam, mães treinam
As duas fundadoras também são mães. Mafalda tem um filho de nove anos e Patrícia tem uma filha de 16 e um filho de seis. Por isso, conhecem bem as exigências do dia a dia das famílias e adaptaram os horários das aulas a essa realidade.
“Nós temos duas salas, por isso, à hora do ballet, temos uma aula para as mães. Quando começa o ballet, começa também o treino localizado. As meninas vão para o ballet e as mães vão para a outra sala, cada uma na sua aula, mas com o mesmo horário.”
Desta forma, mães e filhas conseguem ter algum tempo para si, fazer exercício e desligar da rotina. No final, regressam juntas a casa. As mães recebem ainda um desconto de dez por cento na mensalidade quando os filhos já estão inscritos na escola. Uma aula por semana custa 30€ por mês e duas aulas custam 35€. Acrescem uma taxa de inscrição de 30€ e cerca de 12,50€ por ano relativos ao seguro obrigatório.
Alguns alunos optam por frequentar apenas uma aula de vez em quando. As condições podem ser combinadas através do WhatsApp.
De Barcelona para Setúbal
É Patrícia quem coordena grande parte do trabalho de bastidores. Gere o contacto com os clientes e com os pais, acompanha os miúdos e assume a gestão financeira da Fiary. “Sou formada em gestão financeira”, explica.
É, por isso, a área em que se sente mais à vontade. Patrícia nasceu em São Paulo, no Brasil, e mudou-se para a Europa por causa do marido, que é espanhol. O casal viveu primeiro em Barcelona.
Mais tarde, como ele trabalhava na linha aérea TAP e o custo de vida em Setúbal era mais baixo do que em Lisboa, decidiram instalar-se nesta zona. Enquanto Mafalda participa nas próprias aulas — o que representa pelo menos três horas de dança por dia — Patrícia consegue atualmente dançar apenas duas vezes por semana, devido ao volume de trabalho. As duas fundadoras encaram isso como um bom sinal, até porque mostra que a escola está a crescer.
“Já tivemos cerca de cinco espetáculos em três meses e meio”, conta à New in Setúbal.
A Fiary recebeu vários convites para atuar, também graças a Tiago Luz, de 21 anos, um dos professores da escola, bastante conhecido em Setúbal. Os alunos podem participar nos espetáculos, mas não são obrigados. “Aqui ninguém é obrigado a fazer nada”, reforça Mafalda.
A pressão e a imposição não fazem parte do conceito. A Fiary quer ser, acima de tudo, “o fôlego que sustenta o movimento”. E quem sabe, talvez as duas contratem em breve uma funcionária, para que Patrícia possa voltar a dançar mais.
Carregue na galeria para ver imagens do estúdio de dança.







