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Depois de ser mãe, Mariana criou um projeto cultural para famílias com miúdos em Setúbal

A minines arranca a 10 de março com uma caça ao tesouro e quer provar que a cidade também "pode ser vivida à escala dos mais pequenos".

Setúbal acaba de ganhar um novo projeto cultural pensado para os mais novos e para as famílias que se recusam a abdicar da cultura e da vida na cidade após a maternidade. Chama-se minines, arranca oficialmente a 10 de março e nasce de uma necessidade muito concreta: a de criar atividades regulares, acessíveis e pensadas para os mais pequenos, sem tratar as famílias como um público secundário.

Por detrás da ideia está Mariana Serafim, mais conhecida por Nika, de 37 anos, formada em hotelaria e produção cultural, que já trabalhava com cultura em Portugal desde 2018. Durante anos, organizou eventos e criou uma comunidade, sobretudo entre migrantes, num percurso que acabou por moldar o que agora está a construir em Setúbal. “Foi  muito importante para mim e para outras pessoas que estavam ao nosso redor”, conta à NiS sobre esse projeto anterior, que terminou no final de 2024.

Pelo meio, a vida mudou. A filha nasceu em 2023, a família já vivia em Setúbal e Nika começou a sentir na pele uma realidade comum a muitos pais: a sensação de que, de repente, a oferta cultural da cidade deixa de estar ao alcance, ou simplesmente deixa de responder às novas rotinas.

A minines nasce dessa viragem. “Não tinha ficado claro que queria fazer um projeto semelhante ao que já tinha feito, mas que atendesse as minhas necessidades atuais e da minha filha”, explica.

Um projeto criado a partir da vida real de uma mãe em Setúbal

O mais interessante sobre a minines é que não nasceu de uma tendência, nem de uma estratégia de mercado desenhada ao milímetro. Surgiu de uma experiência pessoal muito concreta. Mariana Serafim estava habituada a trabalhar com cultura, a organizar eventos e a criar encontros.

Quando começou a viver a maternidade de forma mais intensa, percebeu que faltava em Setúbal atividades consistentes, bonitas, regulares e acolhedoras para miúdos pequenos e para os adultos que as acompanham.

A fundadora explica que a filha não está, para já, em contexto escolar, o que tornou essa procura ainda mais evidente. “Está connosco em casa. E, por isso, tentamos fazer atividades culturais com ela”, conta.

O problema é que muitas dessas atividades tinham de ser inventadas pela própria família, porque simplesmente não encontravam tantas opções na cidade. Foi nesse processo que outras famílias começaram a surgir no caminho, juntando-se às atividades, e a ideia ganhou forma.

A minines acaba por ser a continuação natural do que Nika já fazia, mas agora num novo momento de vida. “Quis criar uma comunidade de famílias que se encontram para fazer atividades juntos e para promover cultura para os mais pequenos”, resume.

E isso sente-se no desenho de todo o projeto. Não há ali nada genérico, nem importado de uma fórmula. Há experiência, escuta, sensibilidade e uma vontade clara de fazer diferente.

Também por isso, até o nome foi pensado fora do óbvio. Nika não queria algo literal, que explicasse logo tudo à partida. A escolha acabou por refletir a identidade da própria família e o universo que a inspira.

Segundo Nika, “minines” cruza o uso bilingue da palavra “minis” (que juntamente com o marido usa em casa para se referir aos mais pequenos), a vontade de criar um nome inclusivo e referências afetivas ao imaginário de livros e criaturas fantásticas. O resultado é um nome doce, estranho no bom sentido e suficientemente aberto para crescer com a comunidade.

Uma comunidade para famílias que querem viver cultura

Para Nika, depois de se ter filhos, “o mundo parece que vira outro”. A minines nasce justamente para contrariar esta sensação de afastamento. Não só do ponto de vista da programação cultural, mas também da pertença. A ideia é que as famílias voltem a sentir que a cidade também lhes pertence, que os parques, os restaurantes, os espaços culturais e os encontros não são apenas tolerados quando há crianças por perto, são também para elas.

“Acho que este projeto, de certa forma, vem para mostrar que os lugares também são para pequenas pessoas e para as famílias, e que também queremos consumir cultura e estar nos lugares”, explica. Esta frase ajuda a perceber que a minines não se limita a organizar atividades infantis. O objetivo é mais ambicioso: trazer vida, movimento e encontro a Setúbal a partir das famílias, incluindo também pessoas que estão fora das redes habituais de sociabilidade.

Esse lado inclusivo aparece de várias formas. Uma delas é o clube de leitura em inglês, pensado a partir da própria realidade bilingue da casa. O pai da filha de Nika é britânico e a leitura em inglês já faz parte da rotina familiar, pelo que surgiu a vontade foi alargar isso a outras famílias.

“Como ele é em inglês, acaba por trazer pessoas migrantes de outros países”, explica. O objetivo é que famílias que falam inglês, mas que ainda não conseguem aceder facilmente à oferta cultural na língua local, acabem por encontrar um espaço de encontro.

Mas há outro lado igualmente importante: o da construção de laços consistentes entre miúdos e adultos. Nika explica-o com clareza quando fala da filha: “Acho que, primeiro, a minha filha ganha quase que uma comunidade. Conquista um grupo de crianças que vai ver sempre, que moram na cidade dela e de quem conhece as famílias”. É precisamente esta ideia de continuidade, de repetição e de vínculo que diferencia o projeto de uma simples agenda de eventos dispersos.

Playgroups, leitura em inglês, matinés e até caças ao tesouro

A estreia oficial está marcada para 10 de março, entre as 10 e as 11 horas, com uma atividade de lançamento no Bosque da Azeda, em Setúbal. A proposta é uma caça ao tesouro com itens ligados à arte e à natureza, num espaço que a própria fundadora conhece bem e frequenta em família.

“Há um bosque enorme, que não está nem identificado no Google Maps. É muito bonito, com muita vegetação local e vamos organizar uma caça ao tesouro”, conta.

Depois desse arranque, março continua cheio. A 12 e a 26, das 10 às 11h30, há playgroup no Parque da Algodeia. Esta é, aliás, a atividade mais regular do projeto. Mariana explica que se trata de um encontro quinzenal em espaço público, sempre com propostas de brincadeira livre, materiais artísticos ou elementos da própria natureza.

“É um grupo que se encontra a cada duas semanas. A ideia é que seja sempre em algum parque público. E nesses encontros fazemos alguma proposta de brincadeira livre ou com materiais artísticos ou da própria natureza.” A atividade custa 13€ avulso, 10€ para membros da comunidade minines e gratuito para membros do playgroup.

No dia 17 de março, entre as 10h30 e as 11 horas, o Parque do Bonfim recebe o clube de leitura em inglês para bebés e miúdos dos zero aos cinco anos. Esta é uma atividade gratuita e sem necessidade de inscrição prévia. Além da leitura de histórias, canções e rimas em inglês, haverá também troca de livros, num gesto simples, mas muito alinhado com a filosofia do projeto: circular cultura, estimular a linguagem e criar pequenos rituais de partilha entre famílias.

A 22 de março, das 16 às 18 horas, chega uma das propostas mais curiosas da programação: a mamatinê, no restaurante Calma Calma, na Rua Antão Girão. O conceito nasceu em Lisboa, em 2019, e é agora reativado em Setúbal com o apoio da minines.

Trata-se de um encontro de mães, bebés e famílias para dançar, relaxar, conversar e estar juntas, num ambiente seguro para os miúdos. “É uma atividade para a família inteira, mais para os adultos, só que com espaço seguro para as crianças”, explica Nika. “Basicamente, é uma festa com DJ, onde estes são as mães e os pais.” E não há música infantil, mas sons para todas as idades.

Já a 24 de março, das 17 às 18 horas, a Pólvora D’Cruz recebe o minisarau, que nesta edição convida o projeto Baileia para o espetáculo “Passa eu Passarinho”. A proposta mistura música, sons, dança, poesia e performance num formato aberto, em que os mais novos podem assistir, brincar, copiar, circular e intervir livremente.

O bilhete custa 5€ avulso ou 4€ para membros da comunidade minines. Nika descreve esta frente do projeto como uma tentativa de aproximar os mais pequenos de acontecimentos artísticos reais, sem os aprisionar a um formato rígido ou excessivamente escolarizado.

Uma comunidade com mensalidade, descontos e até um passaporte cultural

Além da programação aberta, a minines tem uma vertente comunitária mais estruturada, com uma mensalidade de 6€ por mês. Quem faz parte deste núcleo entra num grupo de WhatsApp, onde as famílias se conhecem melhor, trocam dicas, fazem perguntas, marcam encontros fora da programação e criam laços para lá dos eventos formais.

Este detalhe é importante porque ajuda a consolidar o que o projeto quer ser: não apenas uma agenda, mas uma rede viva entre famílias com interesses e necessidades semelhantes.

A fundadora explica que esta adesão traz várias vantagens. “Fazer parte dessa comunidade significa fazer parte de um grupo de WhatsApp onde trocamos informações e conselhos, dicas e nos conhecemos melhor.”

Além disso, há descontos nas atividades da minines e com parceiros locais, como a MãeBebé, clínica de fisioterapia pediátrica e de apoio à maternidade, bem como o restaurante Utópico, na Baixa de Setúbal, que oferece vantagens às famílias da comunidade aos domingos.

Há ainda uma newsletter mensal com conteúdos mais aprofundados, pensados para quem quer acompanhar o projeto de forma mais próxima. E talvez o elemento mais bonito de todos: um passaporte cultural para as crianças, que vai sendo preenchido à medida que participam nas atividades.

Este gesto não serve apenas para acumular carimbos, mas para mostrar aos mais pequenos que a cultura pode fazer parte da rotina, que sair de casa para ouvir histórias, brincar com materiais, ver um espetáculo ou dançar também conta como crescimento.

No fundo, este formato híbrido entre comunidade e programação acessível permite que o projeto se mantenha próximo, mas sustentável. Nem todas as atividades são pagas, nem todas exigem inscrição, mas há uma organização que procura garantir qualidade, continuidade e materiais adequados.

Nika é clara quando explica que tudo depende do tipo de atividade. A caça ao tesouro, por exemplo, não tem custo, mas requer inscrição para organizar os materiais. Já as atividades com artistas convidados, teatro ou dança implicam custos , ainda que a equipa tente manter tudo “a preços acessíveis”.

Um projeto pensado para crianças pequenas

Embora não exista uma idade limite rígida, a recomendação da minines aponta sobretudo para miúdos entre os 18 meses e os cinco ou seis anos, uma vez que, a partir dos 18 meses, muitos  já conseguem usufruir melhor das propostas.

Ainda assim, o projeto não exclui ninguém à partida. Essa elasticidade é uma das maiores forças da minines. Não há uma rigidez artificial, nem uma pedagogia de vitrine. Há uma fundadora com experiência em produção cultural, mas também com uma vivência concreta da maternidade, de cidade e de comunidade.

Há, sobretudo, uma atenção real ao ritmo dos miúdos e à forma como habitam o mundo. Quando fala da decisão de manter a filha em casa, Mariana não o faz como bandeira ideológica, mas como escolha sensível ao momento que estão a viver. “Colocámos na balança o que valorizavamos no dia-a-dia dela. E fez mais sentido mantê-la connosco”.

Essa forma de pensar reflete-se em todo o projeto. A minines não vem dizer às famílias como devem educar os filhos, nem impor modelos únicos. Vem abrir possibilidades, criar encontros e mostrar que há espaço para outros ritmos, outras relações com a cultura e outras formas de viver a cidade com crianças pequenas.

E talvez seja esse o seu maior valor para Setúbal. Numa altura em que tantas famílias sentem que a cidade ainda não está totalmente preparada para as incluir de forma plena, a minines aparece como um gesto de ocupação afetiva e cultural. Um gesto pequeno no nome, mas ambicioso no que quer transformar. Não apenas na vida dos miúdos, mas na forma como os adultos voltam a olhar para a cidade quando a atravessam com elas pela mão.

As inscrições para atividades e bilhetes podem ser feitas através da plataforma do projeto. A comunidade minines tem adesão própria, também online. O projeto está ainda presente no Instagram, onde vai divulgando novidades e próximas datas.

Carregue na galeria para descobrir mais sobre as atividades da minines.

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