Setúbal está cheia de segredos. Alguns estão nas paredes, outros debaixo dos pés. Há detalhes que passam despercebidos mesmo a quem atravessa a cidade todos os dias. Um desses pormenores está em frente dos Correios, na Avenida Mariano de Carvalho. Ali, a calçada portuguesa guarda um desenho curioso: vários envelopes trabalhados no chão, como se tivessem ficado espalhados à porta do edifício.
É uma daquelas surpresas que só se descobrem quando se abranda o passo e se olha para baixo. A zona foi alvo de uma intervenção urbana em 2016, no âmbito do novo desenho de circulação naquela área da cidade, que incluiu a passagem do cruzamento para uma rotunda na confluência das avenidas 22 de Dezembro e Mariano de Carvalho com a Rua Jorge de Sousa.
A New in Setúbal contactou a Câmara Municipal de Setúbal em junho para saber mais sobre a origem dos envelopes desenhados na calçada, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo. A história por trás deste pequeno detalhe continua, por isso, por descobrir.
Último calafate ganha mural azul
Noutro ponto da cidade, a memória não está no chão, mas numa parede. Um mural azul-vivo na casa da esquina entre as duas ruas destaca-se. O graffiti é do artista Ricardo Romero, provavelmente mais conhecido em Setúbal pelo gato no telhado do posto de turismo ou pela figura do menino junto da estação.
No mural no bairro dos pescadores, na Rua Senhor Jesus dos Aflitos, Ricardo retrata o pescador José Domingues e simboliza “uma arte, um saber e uma ligação profunda ao mar e ao trabalho”, comentou Ricardo com a New in Setúbal.
“A escolha do senhor José Domingues foi natural e quase inevitável, por se tratar daquele que é reconhecido como o último calafate que a cidade conheceu.” Ou seja, a antiga arte de reparação de barcos, que veda com fibras e materiais as juntas dos navios para impedir a entrada de água. A localização do graffiti não é uma casualidade: o pescador vivia neste bairro.
O artista Ricardo descreve esta parte da cidade como um bairro de gente trabalhadora, com uma identidade muito própria, feita de esforço, dignidade e memória coletiva. “Homenagear uma figura como José Domingues é, acima de tudo, prestar tributo à história de uma comunidade inteira”.
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Convento de Jesus guarda segredo maior
Existem ainda segredos que estão mesmo à vista, mas que nem sempre são lembrados. Qualquer setubalense já passou várias vezes pelo Convento de Jesus. É um dos lugares mais bonitos da cidade, perfeito para parar uns minutos. Mas é também um sítio do qual nos podemos orgulhar de ter chegado antes de Lisboa.
Na capital, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos atraem milhares de visitantes todos os anos e são celebrados como grandes exemplos do estilo manuelino. No entanto, o Convento de Jesus em Setúbal é frequentemente apontado como uma das primeiras obras manuelinas do mundo — e, para alguns especialistas, como o primeiro grande exemplo deste estilo arquitetónico.
A construção começou no final do século XV, a partir de 1494, por iniciativa de Justa Rodrigues Pereira, ama do rei D. Manuel I. Muito antes de os monumentos de Belém se tornarem imagem de postal, Setúbal já tinha no centro da cidade uma das marcas iniciais daquele que viria a ser um dos estilos mais reconhecidos da arquitetura portuguesa.
Um segredo revelado — e outro que continua escondido
Pos vezes, os segredos são revelados, como aconteceu recentemente com a Quinta do Hilário e a sua história. Outras vezes, continuam escondidos. Um parece quase uma lenda urbana: as festas clandestinas junto dos ferries abandonados no Sado. O parque de estacionamento ali ao lado parece feito à medida para estacionar carrinhas e prolongar a festa durante todo o fim de semana.
Quem organiza estes encontros, com DJ e sistema de som, quando acontecem e quando será a próxima festa continua por saber. Resta manter os olhos bem abertos. Setúbal nunca se revela toda de uma vez. É preciso olhar para baixo, para as paredes, para os edifícios por onde se passa sem pensar. E de vez em quando, para os lugares onde ninguém parece estar a olhar.
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