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Os telemóveis estão a mudar a forma como os jovens de Setúbal crescem

A psicóloga setubalense Marta Santos alerta para os efeitos das redes sociais na autoestima, na identidade e nas relações entre jovens.

A adolescência sempre foi uma fase de mudanças bruscas, inseguranças, comparação, pertença e procura constante de validação. No entanto, hoje em dia, há um novo fator decisivo na vida dos jovens: este processo acontece à frente de um ecrã permanentemente ligado.

Agora, crescer significa estar exposto a métricas, vidas melhores que a nossa e existe uma pressão constante para mostrar, corresponder e parecer. Foi para perceber melhor o que está realmente a acontecer com miúdos e jovens setubalenses que a NiS falou com Marta Santos, psicóloga clínica nascida e criada em Setúbal.

Com base na sua experiência, a psicóloga setubalense deixa um alerta claro de que os telemóveis e as redes sociais não estão apenas a ocupar tempo. Estão a moldar identidades, relações e formas de estar no mundo.

O problema, explica, não está só no facto de os jovens passarem muitas horas online. Está no tipo de relação que criam com esse espaço digital, na forma como se medem a partir dele e no modo como deixam de ter pausas reais para se ouvirem, regularem e perceberem quem são sem plateia.

“As redes amplificam estes problemas já típicos da adolescência e tornam-nos constantes”, resume a especialista.

“Não há pausas reais”: o impacto silencioso das redes na adolescência

Marta Santos fala sobre este tema não apenas enquanto psicóloga, mas também como irmã mais velha de duas raparigas com 22 e 18 anos. A diferença geracional dentro da própria casa permite-lhe ver, de forma concreta, como o crescimento nos dias de hoje é diferente daquele que foi o seu. E é precisamente aí que entra uma das suas maiores preocupações clínicas, a forma como as redes sociais estão a intensificar tudo aquilo que já era vulnerável na adolescência.

“A adolescência é uma fase de construção de identidade”, explica. Por si só, esta já é uma etapa marcada por instabilidade, insegurança e necessidade de validação. “Com as redes sociais, o problema deixa de ser apenas a comparação e passa a ser o facto de ela nunca parar”.

Antigamente, havia uma diferença clara entre o dentro e o fora, entre a escola e a casa, entre o que acontecia num grupo e o momento em que cada um voltava para si. Hoje isso desapareceu. “Não há pausas reais”, explica Marta. E essa ausência de pausa tem consequências mais profundas do que pensamos.

Se um adolescente tinha tempo para pensar no que viveu, processar uma conversa, recordar uma experiência ou simplesmente estar em silêncio consigo mesmo, agora esse espaço está constantemente ocupado por notificações, vídeos, mensagens, etc.

É por isso que a psicóloga diz que muitos jovens “deixam de conseguir sair do olhar do outro”. Vivem em constante observação, ou pelo menos sob a ideia dela. Isso faz com que a identidade deixe de ser construída a partir de um centro interno e passe a ser moldada por feedback externo, por comparação constante e pela expectativa de aceitação.

“Isto a longo prazo pode gerar aqui uma identidade mais reativa, sempre dependente do feedback do outro e menos ancorada a si própria”, avisa a psicóloga setubalense.

O que sou eu sem likes, sem festa, sem marca e sem plateia?

Uma das observações mais duras que Marta faz tem a ver com a autoestima dos jovens que acompanha. Como explica à New in Setúbal, grande parte do autoconceito está hoje dependente da forma como acham que são vistos. Popularidade, festas, roupa, marcas, número de amigos, número de respostas, número de seguidores. Tudo isso se transforma em critério de valor pessoal.

“Se vai a menos festas, se vai a menos eventos sociais, se não tem aquele corpo, será que vão gostar dele?” Esta lógica alastra-se à forma como se vestem, ao tipo de experiências que mostram, àquilo que conseguem comprar, ao que publicam e ao modo como conseguem manter uma presença social visível. “A ideia daquilo que os jovens são passou a ser o que é que têm e o que é que mostram”.

A consequência é particularmente perigosa porque chega cedo demais. Marta Santos explica que o desejo de estatuto ou validação sempre existiu no mundo adulto, no trabalho, no sucesso ou até no consumo. Mas, nessa fase, a pessoa já tem uma base identitária consolidada. Quando é jovem, não.

“Numa fase de adolescência, quando este fenómeno se dá tão precocemente, aqui o risco é se a pessoa, se a criança, se o jovem neste caso sabe quem é tirando tudo o que é material”.

É aqui que a psicóloga nota um vazio preocupante. Conta que, em consulta, faz frequentemente uma pergunta simples em que pede aos jovens que identifiquem cinco defeitos e cinco qualidades. E a resposta, muitas vezes, é o silêncio ou uma tentativa de devolver o que os outros dizem sobre eles.

“Eu quero saber o que é que tu achas que és”, insiste, mas muitos não conseguem responder. “Há esta dificuldade: sou eu? Sou como os outros me veem? Será que eu correspondo ao que os outros dizem que eu sou?”

Os mais novos cada vez conversam menos, sentem menos e verbalizam menos

Outro dos impactos que mais preocupam a psicóloga setubalense é o empobrecimento das relações interpessoais. Não por falta de contacto, mas por excesso de contacto superficial. Os jovens continuam ligados uns aos outros durante horas a fio. Só que esse vínculo está muitas vezes mediado por ecrãs, jogos, grupos, vídeos e mensagens rápidas que substituem a presença, mas não aprofundam as relações.

“Os jovens estão numa mesa e estão todos ao telefone”. Estão juntos, mas não estão propriamente uns com os outros. “O que partilham já não é tanto o que sentem, mas sim o que viram. Falam do exterior, do vídeo, do post, da tendência, da mensagem recebida, da ausência de resposta. Menos de si. Menos do que lhes está realmente a acontecer”.

Marta dá um exemplo de como os jovens lhe dizem que não precisam de ir ao café com os amigos porque “já estão a falar” pelo telemóvel. Só que essa conversa não é equivalente. “A profundidade que se alcança numa conversa por mensagens, nunca poderá ser a mesma de quando estamos juntos”. É precisamente essa diferença que está a desaparecer da experiência relacional.

A psicóloga nota também que existe uma espécie de teatro permanente. “Eu fiz para mostrar”, diz, resumindo a lógica que observa em muitos adolescentes. Já não há apenas o desejo espontâneo de viver uma experiência. Há a necessidade de esta ser registada, publicada, enquadrada e validada. E quando isso acontece cedo demais, pode instalar-se uma autoconsciência permanente, uma sensação de que tudo precisa de ser encenado. “Será que voltamos a saber quem somos sem haver plateia?”, pergunta.

Os hobbies desapareceram e foram substituídos por scroll infinito

Quando fala de hobbies, Marta explica que, para muitos jovens, o tempo livre já não é sinónimo de experimentar atividades, criar interesses, descobrir competências ou estar em grupo. É, simplesmente, tempo de ecrã. “Os jovens hoje em dia não têm hobbies”, diz. “O hobby deles é ficar agarrado ao telefone”.

É verdade que muitos jogam online, falam em grupo, trocam mensagens e enviam vídeos uns aos outros. Mas a questão, para a psicóloga, é outra: conseguem estar juntos sem essa rede de segurança? Conseguem conversar uns com os outros se lhes tirarem o jogo? Conseguem sustentar um silêncio, puxar um tema, lidar com o desconforto de estar com o outro sem um ecrã a preencher o intervalo?

É aqui que faz um contraste com a sua própria geração. Quando fala da natação, do ténis ou de outras atividades extracurriculares, Marta recorda que os momentos de pausa no desporto eram preenchidos com conversa sobre a vida, sobre o dia, sobre o que estava a acontecer. O desporto era o pretexto, mas o vínculo construía-se nas conversas. Hoje, muitas interações ficam coladas à plataforma que as sustenta.

Por isso, a psicóloga deixa um convite aos jovens de guardar os telemóveis e testar o que sobra. Ir ao café e perceber se há conversa. Ir à praia e estar realmente presente. Voltar ao cinema. Sentar-se numa toalha sem cair logo no scroll. E, se houver silêncio, tentar atravessá-lo em vez de fugir para o telefone.

“É importante não alimentarmos essa máquina e conseguirmos por nós próprios continuarmos a ter a curiosidade e quase a ousadia de falar uns com os outros”.

E os pais? “Estão no meio da pressão e do medo de falhar”

Se, para os jovens, este cenário já é exigente, para os pais também não é simples. Marta reconhece que a parentalidade está hoje atravessada por um nível de comparação muito mais intenso do que antigamnete. Muitas famílias acabam por dar telemóveis mais cedo do que gostariam, não por vontade própria, mas por pressão. Porque os colegas já têm, porque o grupo já está lá, porque o filho sente que está de fora e porque não querem parecer maus pais.

Este ciclo torna-se difícil de travar, porque também os próprios adultos estão sujeitos a uma lógica de comparação constante. As exigências dos filhos vêm muitas vezes alimentadas por aquilo que veem os outros ter, vestir, mostrar ou viver. E os pais entram nessa corrida mesmo sem quererem.

Ainda assim, a psicóloga não defende uma política de proibições rígidas ou universais. Pelo contrário. Acredita que não há uma fórmula única e que cada jovem responde de maneira diferente ao uso dos ecrãs. “O mais importante é promover consciência, não apenas corte. Porque tirar completamente o acesso não ensina regulação”.

Na sua perspetiva, os pais devem olhar menos para o número de horas e mais para o impacto funcional. Dorme pior? Está mais irritado? Isola-se? Deixa de querer sair? Compara-se mais? Fica frustrado com vidas que vê e não consegue ter? É a partir destes sinais que se deve avaliar se o uso do telemóvel está a ser saudável ou não. E há um ponto que a psicóloga reforça com especial ênfase: o telemóvel não deve ser levado para a cama se isso afetar o sono.

“O sono é importantíssimo, seja em que idade for”.

O telemóvel nas escolas

Sobre o papel da escola, Marta não tem dúvidas de que os intervalos devem ser tempo de convivência. Defende que, fora situações de emergência, o telemóvel não acrescenta nada ao contexto escolar e até o prejudica. Por isso, vê com bons olhos as regras que proíbem o uso do telemóvel em ambiente escolar.

Esta limitação pode ajudar precisamente a devolver à escola aquilo que ela deve proporcionar para lá da aprendizagem formal, a relação, a convivência, o conflito saudável e o tédio produtivo. Num tempo em que tanto é vivido à distância de um ecrã, esses momentos tornam-se ainda mais importantes.

No entanto, também aqui recusa cair numa lógica simplista. Não basta tirar o telefone. É preciso ajudar os jovens a perceber o que está em causa. Mostrar-lhes que o problema não é o objeto em si, mas o lugar que ele ocupa na vida deles. A função que desempenha, aquilo que substitui, aquilo que amplifica e aquilo que fragiliza.

De Setúbal para a psicologia: um percurso feito a ouvir os outros

Marta Santos tem 35 anos, nasceu e cresceu em Setúbal e diz que sempre foi “a amiga do desabafar”, a pessoa a quem os outros recorriam para falar, pedir conselho ou simplesmente serem ouvidos. Desde cedo percebeu que queria trabalhar com pessoas.

Na adolescência ainda ponderou seguir Direito, muito por causa do seu forte sentido de justiça e da vontade de compreender porque é que algumas pessoas fazem mal às outras. E foi a mãe quem lhe apontou outro caminho.

“A minha mãe disse, mas filha, a advocacia não dá porque depois vais ter que defender o sentido de justiça dos outros em detrimento do teu. Se queres perceber os outros, isso é a psicologia”. A ideia ficou, Marta foi investigar e, a partir daí, não voltou a mudar de rumo.

Estudou na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, onde entrou aos 18 anos, em 2009. O primeiro estágio curricular foi feito no CADIn, o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, em 2013, onde contactou com crianças e adolescentes em áreas como o autismo e a ansiedade.

Mais tarde, já no estágio da Ordem dos Psicólogos, integrou a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, entre 2015 e 2016, onde recebeu formação como técnica de apoio à vítima e trabalhou também como psicóloga clínica com adultos e crianças vítimas de crime, sobretudo em contextos de violência doméstica.

Depois disso, passou por dois estabelecimentos prisionais, em Setúbal e no Montijo, durante três anos (entre 2016 e 2019), antes de integrar a instituição O Sonho, onde acompanhou, durante sete anos (de 2019 a 2025), famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção em contextos socialmente mais frágeis.

Paralelamente, foi mantendo sempre trabalho em clínica privada e em formato online. No ano passado, decidiu deixar o vínculo contratual que tinha para se dedicar a tempo inteiro à prática independente. Hoje reparte-se entre consultas presenciais em Setúbal e o trabalho online, continuando a acompanhar adolescentes, jovens adultos e famílias.

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