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O preço das casas está a destruir a saúde mental dos jovens e das famílias

Irritabilidade, ansiedade e depressão. Não conseguir ter habitação própria pode levar a sentimentos de inadequação e "infantilização" de jovens adultos.

A crise habitacional inunda diariamente as noticias com novos dados, explicações e opiniões sobre o plano a traçar para a sua resolução, mas sem mudanças positivas à vista. Na prática, as consequências negativas continuam a surgir, nomeadamente no que toca à saúde mental das pessoas. Dos mais novos aos mais velhos, todos sentem os efeitos de sentir que, mesmo trabalhando, não conseguem pagar uma casa para viver.

Patrícia Câmara, psicóloga e presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, adianta à NiT as consequências coletivas desta crise. “Existe um impacto psicossocial na saúde mental global devido à instabilidade e aos níveis de stress que traz”, começa por afirmar. 

Esclarece também que o stress “pode ser positivo”, por mobilizar para a mudança. Contudo, neste caso, as condicionantes são limitativas das escolhas e possibilidades, causando um problema crónico.

Quais são as consequências para a saúde mental dos jovens?

A profissional admite o aumento da ansiedade, relacionado com a incerteza sobre conseguir um espaço próprio, que, neste contexto, significa um “movimento de autonomia”. “Ter acesso a uma casa é também ter acesso a um local próprio, e isso é importante para o desenvolvimento”, esclarece.

Neste contexto, a deterioração do estado mental é agravada caso já existam condições prévias, já que a incapacidade de conseguir arranjar uma casa vai ao encontro das crenças negativas pré-existentes — “não sou merecedor deste objetivo” ou “não tenho capacidade para o atingir” são alguns dos pensamentos comuns.

A imprevisibilidade “vai contra as expectativas que nos são incutidas durante toda a vida”. A noção de que “tirar um curso e trabalhar” garante um local para viver já não se verifica, o que leva a noções de incapacidade e inadequação.

Por não conseguirem arranjar um lugar próprio para viver, os jovens adultos permanecem mais tempo em casa dos pais, o que pode também gerar consequências negativas. “Ou existe uma gestão familiar muito boa, com respeito de parte a parte, ou pode ser muito complicado”, adianta a médica.

A profissional afirma verificar-se uma “infantilização” dos jovens, em que a permanência no espaço significa que as mesmas regras e expectativas da infância continuam a ser incutidas. A separação física e consequente afastamento da dinâmica familiar de origem faz parte do processo de autonomia e crescimento. Quando não acontece, “os filhos não podem seguir a sua vida com as suas próprias regas”, acrescenta.

Além disso, pode ainda fazer com que os pais sintam que “há qualquer coisa de errado na vida dos filhos, que não se está a cumprir”. A partilha do espaço compromete também a intimidade dos pais enquanto casal.

Na maior parte das vezes, estes comportamentos não são conscientes. A psicóloga avança que “até pode existir uma intenção de respeito mútuo, mas os padrões comportamentais tendem a ganhar”.

E para as famílias que vivem em espaços pequenos?

O principal problema, esclarece Patrícia Câmara, é a “mistura entre os espaços”. Os locais próprios são importantes para todos os membros da família, seja para os pais, que ficam com “a dinâmica de casal comprometida”, como para os filhos, que “não têm um lugar para se encontrarem e desenvolverem a sua identidade”.

A proximidade constante pode ainda potenciar momentos de conflito, já que “não existe um espaço para onde as pessoas possam recolher”. A médica salienta o período da pandemia Covid-19, quando se verificou um aumento de discussões entre familiares.

O fenómeno aumenta a ansiedade e a irritabilidade, ou ter mesmo um efeito depressivo, sobretudo pelo sentimento de que “não existe como sair da situação”. Patrícia recomenda que se tentem criar os espaços de intimidade e comuns, distinguindo-os, e que se procure respeitar ao máximo o espaço das pessoas com quem se vive.

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