“Não tens idade para isso”. Esta foi a frase que marcou e quase destruiu a vida de Elidia Varela. Ouviu-a das pessoas próximas quando, perto dos 30 anos, decidiu que ia finalmente seguir o sonho que a mãe lhe tinha impedido anos antes: dançar.
Tinha um filho pequeno, uma licenciatura em Engenharia Alimentar que nunca sentiu como sua e uma rotina que não deixava espaço para mais nada além de cuidar da casa e da família. No entanto, resposta ao ceticismo de quem a rodeava foi ignorá-lo. Tirou o curso de Técnica de Exercício Físico, formou-se em Zumba e começou a dar aulas em Lisboa.
Hoje, aos 41 anos, lidera em Setúbal o projeto Poderosas da Zumba, onde mulheres de todas as idades, corpos e histórias se juntam para dançar, mas sobretudo para se reencontrarem consigo próprias. Esta não é apenas uma aula de fitness. É, nas palavras de Elídia, “um encontro da alma”. Como a própria conta, há quem chore na primeira sessão ao ouvir, talvez pela primeira vez em anos, que merece ser amada.
O sonho que ficou preso numa faculdade em Beja
A relação de Elídia Varela com a dança começou muito antes de alguma vez subir a um palco. Começou como desejo, vontade sufocada e uma candidatura à faculdade que nunca chegou a acontecer. Quando se preparava para escolher o percurso académico, a primeira opção que queria era uma escola de dança. No entanto, a mãe não permitiu.
E Elídia, como tantas jovens da sua geração, obedeceu. Em vez de dança, foi para Beja tirar Engenharia Alimentar no Instituto Superior de Agronomia, um curso que completou, mas que nunca sentiu como seu.
Durante anos, carregou consigo essa frustração silenciosa, a sensação de estar a viver uma vida desenhada por outros. A licenciatura serviu para cumprir uma expectativa, não para alimentar uma vocação. E o sonho da dança ficou arrumado numa gaveta, à espera de um momento que parecia cada vez mais improvável à medida que a vida adulta avançava com as suas exigências, como o casamento, os filhos, o trabalho e a rotina.
Contra todas as probabilidades, esse momento chegou perto dos 30 anos. Já casada e mãe de um filho, Elídia percebeu que tinha chegado a uma encruzilhada. Podia continuar a viver dentro do padrão que a sociedade e as pessoas mais próximas esperavam, “continuar a ser a mulher que acorda cedo, arruma a casa, leva os filhos às atividades e regressa a tempo de preparar o jantar”, ou podia reclamar um pedaço de vida para si. Decidiu ir atrás do sonho. “Nessa altura, já não tinha que preencher nenhum padrão de pais, nem de sociedade”, explica.
A decisão não foi recebida com aplausos, muito pelo contrário. Enfrentou a rejeição de todos à sua volta. Disseram-lhe que já não tinha idade para aquilo. Elídia tinha 30 anos e, segundo os estigmas da sociedade, uma mulher nessa fase da vida não sobe a um palco do ginásio para dar aulas de dança. Limita-se à rotina que lhe foi atribuída.
Mas Elídia foi na mesma, contra tudo e todos. Inscreveu-se no curso de Técnica de Exercício Físico em Lisboa, frequentou-o à noite enquanto mantinha o resto da vida a funcionar e tirou depois a formação em Zumba. A partir daí, não voltou a parar.
De Lisboa a Setúbal, passando por uma gravidez de risco e uma pandemia
Os primeiros passos como instrutora aconteceram em Lisboa, através de uma associação local. Elídia começou a dar aulas na escola Almada Negreiros e rapidamente construiu uma turma sólida, com mais de 30 mulheres, que apareciam semana após semana.
As aulas corriam bem, a energia era boa, mas havia qualquer coisa que ainda não tinha despertado. Nessa fase, Elídia fazia tudo “by the book”, como ela própria reconhece. A dança era exercício, era coreografia, era ritmo. Ainda não tinha descoberto a dimensão que viria a transformar tudo: a ligação entre a dança, a cura interior e o empoderamento feminino.
Essa descoberta ficou suspensa quando a vida voltou a complicar. Eliídia engravidou da segunda filha, uma gravidez de risco que a obrigou a parar de dançar. Para agravar a situação, o período coincidiu com a chegada da pandemia de Covid-19.
De um dia para o outro, Elidia viu-se sem aulas, sem turma, sem movimento e sem a certeza de que alguma vez voltaria a dançar. “Pensei que nunca mais ia voltar”, recorda. “Tinha dias muito tristes”. O ano que passou sem dançar custou-lhe a turma que tinha construído com tanto esforço e ficou sozinha com a frustração e a saudade do que mais amava fazer.
No entanto, há coisas que não se deixam enterrar. “Quando amas algo, aquele bichinho não te deixa dormir”, diz Elídia. E foi isso que aconteceu. Assim que pôde, regressou aos ginásios, voltou a dar aulas e retomou a dança com uma convicção renovada.
Desta vez, porém, algo tinha mudado dentro dela. O período de paragem forçada, a solidão, a tristeza e a recuperação tinham-na obrigado a olhar para si de uma forma que nunca tinha feito antes. Começou a olhar-se ao espelho sem procurar defeitos. Começou a aceitar-se e a amar-se. E foi precisamente aí, nesse ponto de viragem íntimo e silencioso, que nasceu a semente do projeto que viria a criar em Setúbal.
A mudança para a cidade aconteceu quando Elídia entrou na Câmara Municipal de Setúbal como funcionária pública. A mãe já cá vivia, Elidia apaixonou-se pela cidade e decidiu trazer consigo o que já fazia em Lisboa: dançar e ajudar mulheres. Em 2023, recomeçou do zero, mas desta vez de forma diferente.
“A minha cura é a tua cura”: quando a dança se torna terapia
A transformação do projeto aconteceu quando Elidia parou de separar o que sentia do que ensinava. Durante anos, a dança era uma atividade, mas, agora, passou a ser uma linguagem. Uma forma de chegar a sítios que as palavras não alcançam. O momento em que decidiu aliar a espiritualidade, a cura interior e o empoderamento feminino ao movimento foi quando tudo mudou, para ela e para as mulheres que a rodeiam.
“Tudo despertou quando comecei a curar-me”, explica. Elídia percebeu que, para ajudar outras mulheres, precisava de ter feito o caminho ela própria. Precisava de se ter olhado ao espelho e ter dito “aceito-me” sem que a voz tremesse.
Precisava de ter enfrentado o padrão que lhe disseram para seguir, o da mulher que não reclama, que não sonha fora de horas, que não sobe a palcos aos 30 anos, e de o ter desafiado com a sua própria vida. “Só quando te aceitas e te amas é que és realmente empoderada. E quando estás bem na tua pele, consegues abraçar outras mulheres e fazer com que também descubram o brilho delas”.
Essa é a filosofia que se materializa em cada aula. As sessões começam com dança, com ritmos variados, coreografias ao som de músicas que as alunas reconhecem da rádio, do dia a dia, da sua própria cultura, e terminam com uma roda.
É aí que tudo acontece. As mulheres partilham o que sentem, o que as pesa, o que as alegra. Elídia conduz o momento com perguntas simples, que carregam um peso enorme: “Vocês já se abraçaram hoje?” A maioria não se abraçou. A maioria acordou, olhou-se ao espelho apenas para ver os defeitos e saiu de casa sem um único gesto de ternura consigo própria. Na roda, abraçam-se. Dizem em voz alta: “Eu amo-me. Eu aceito-me. Eu aprovo-me”.
As primeiras vezes são quase sempre difíceis. Elídia conta que muitas mulheres choram na primeira aula ao ouvir estas palavras. Porque nunca as disseram e nunca as ouviram. Choram porque, durante anos, ninguém lhes perguntou se estavam bem.
“Muitas têm dificuldade em dizer estas frases na primeira vez, porque só choram”, descreve. “E gosto muito de ver a evolução delas, quando um mês depois já vão para a roda e já gritam ‘eu amo-me, eu sou poderosa'” É nesse grito, que começa como um sussurro tímido e se transforma numa afirmação plena, que Elidia vê o trabalho a acontecer.
A aluna que se libertou e a menina que voltou a sorrir através da dança
As histórias que passam pelas aulas de Elidia não se medem em quilos perdidos ou coreografias aprendidas. Medem-se em vidas que mudam de direção. Uma das que mais a marcou e que a faz emocionar-se quando a conta, é a de uma aluna que, durante meses, entrava nas aulas e chorava do início ao fim. Elídia não sabia porquê.
Nunca perguntou diretamente, limitou-se a oferecer o espaço, o abraço, a roda e as palavras que diz a todas. Até que, um dia, recebeu uma mensagem dessa aluna a explicar que era vítima de violência doméstica, mas que tinha finalmente conseguido sair do relacionamento abusivo e regressado à sua terra com o filho. Na mensagem, agradecia. “Disse que foi através das aulas, da união do grupo e do processo de se voltar a amar que encontrou forças para se libertar daquele ambiente violento”.
Há também a história da Carolina, uma jovem de 13 anos com epilepsia que se tinha isolado devido à doença. Chegou às aulas acompanhada pela mãe, Paulinha (ambas participam juntas) e, aos poucos, voltou a soltar-se, a sorrir, a sentir-se parte de algo maior.
Há a Aninha, que tem trissomia 21, faz a aula inteira e diz com orgulho “eu sou poderosa”. Há a Paula, que usa cadeira de rodas e dança sentada, porque naquele espaço não existem barreiras físicas que impeçam alguém de participar. E há a Maria, que chegou há cerca de quatro meses a dizer que não sabia dançar e que não era capaz. Hoje não falha uma aula e é das primeiras a chegar.
Estes exemplos não são casos isolados. São o reflexo de um projeto construído sobre uma premissa radical no contexto do fitness: aqui não há um padrão. Não há corpo ideal, não há idade certa, não há capacidade mínima.
“Não é aquele padrão do ginásio, em que o instrutor só vê as mais populares”, explica Elídia. “Ali, vemo-nos todas por igual. Todas com o seu desenvolvimento, com o seu trajeto, mas todas por igual. Estamos todas a fazer a jornada da vida”. É um espaço onde mulheres de todas as idades, de diferentes nacionalidades, com diferentes histórias e diferentes corpos, encontram o seu lugar sem precisar de se justificar.
Para lá das aulas, o grupo tornou-se uma verdadeira rede de apoio. Celebram-se aniversários juntas, organizam-se convívios, há mensagens trocadas durante a semana e uma atenção genuína quando alguém falta. “Aqui ninguém é invisível”. Essa visibilidade, tão simples e rara, é talvez o presente mais valioso que estas mulheres recebem quando entram pela porta.
As Poderosas da Zumba: sem idade, sem cor, sem tamanho
O nome do projeto, Poderosas da Zumba, é uma declaração de identidade. “Nós somos as poderosas”, diz Elídia. “Poderosas sem idade, sem cor, sem tamanho.” A palavra “Zumba” serve como referência imediata a um estilo de dança que a maioria das pessoas reconhece, mas as aulas vão muito além dos ritmos latinos que tradicionalmente definem a modalidade.
Elídia ouve as alunas, pergunta o que gostam de dançar, o que ouvem na rádio, o que as faz vibrar e constrói coreografias a partir daí. “Estamos em Portugal, dançamos os nossos ritmos, o que gostamos de ouvir na rádio, o que realmente nos faz vibrar. Dançamos a nossa história”.
Há alunas de várias nacionalidades, o que traz uma diversidade de ritmos e de culturas que enriquece as sessões. Uma aluna chega e diz que ouviu uma música no carro e que não a conseguiu tirar da cabeça e Elídia transforma-a em coreografia. É essa capacidade de adaptar, de ouvir e de incluir que faz com que cada aula seja diferente e que cada mulher se sinta representada naquilo que dança.
As aulas acontecem em dois espaços em Setúbal. Às segundas e quartas-feiras, das 19h30 às 20h30, e aos sábados de manhã, das 10 às 11 horas, no Núcleo Recreativo Desportivo Ídolos da Praça, na Avenida Bento de Jesus Caraça.
Às quintas-feiras, no mesmo horário das 19h30 às 20h30, as aulas decorrem na Associação de Moradores do Bairro da Anunciada (AMBA), no Viso. Os sábados têm uma particularidade especial: são exclusivamente dedicados a ritmos dos anos 80, uma sessão que se tornou rapidamente numa das favoritas do grupo.
A mensalidade custa 20€ e há a opção de aulas avulsas por 3€. A inscrição pode ser feita por mensagem no Instagram, mas a filosofia é de porta aberta. “Quero que as pessoas apareçam e dancem”.
Elídia sabe o nome de cada uma das suas alunas. Faz questão disso. Numa turma grande, onde seria fácil tratar as pessoas como números, ela garante que cada mulher é vista, reconhecida e valorizada individualmente. “Todas são únicas”, afirma. Este é mais um detalhe que distingue este projeto de uma simples aula de dança.
Há muitos professores de dança, reconhece Elídia. Mas poucos criam o que ela conquistou: um espaço onde uma mulher de 70 anos, uma adolescente com epilepsia e uma jovem em cadeira de rodas dançam lado a lado, gritam juntas que se amam e saem pela porta com a sensação de que, durante uma hora, o mundo foi inteiramente delas.
Uma hora de dança para deixar de ser mãe, profissional e cuidadora
O que Elídia Varela construiu em Setúbal responde a uma necessidade que raramente é dita em voz alta, mas que corrói por dentro milhares de mulheres: a impossibilidade de se priorizarem. Aos 41 anos, Elidia conhece bem essa realidade.
A rotina de uma mulher na sua faixa etária resume-se, muitas vezes, a cuidar de tudo e de todos, menos de si própria. “Família, casa, compras, rotinas, cuidar de filhos. E é muito difícil darmo-nos prioridade”, reconhece.
O resultado é uma luta silenciosa. As mulheres começam a sofrer cada vez mais com depressão, tristeza, perda de identidade, a sensação de que a vida se transformou numa lista infindável de tarefas para os outros.
Quando uma mulher entra nas Poderosas da Zumba, durante uma hora deixa tudo à porta. Não é mãe, não é profissional, não é cuidadora. É só ela. Dança, transpira, ri, chora se precisar, abraça-se e afirma-se como poderosa. “Não é só exercício físico”, insiste Elídia. “É um momento em que esqueces o trabalho, o horário, esta balança que são os nossos dias. Estás totalmente no presente. E isso traz a cura”.
O percurso de Elídia é, ele próprio, a maior prova de que o projeto funciona. Uma mulher a quem disseram que não tinha idade para dançar, que tirou uma licenciatura que nunca quis, que enfrentou uma gravidez de risco, uma pandemia e um ano inteiro sem fazer o que ama, e que, ainda assim, recomeçou.
Não uma vez, mas várias. Cada recomeço trouxe uma camada nova de compreensão: primeiro sobre a dança, depois sobre si mesma e, finalmente, sobre o poder de partilhar essa descoberta com outras mulheres.
“A minha cura é a tua cura” não é um slogan. É a história de uma mulher que precisou de se curar primeiro para poder estender a mão a outras. E que o faz, todas as semanas, numa sala em Setúbal, ao som de ritmos que vão do latino ao pop dos anos 80, rodeada de mulheres que, pela primeira vez em muito tempo, se olham ao espelho e dizem, sem medos, que se amam.
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