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Guilherme luta contra a ansiedade desde miúdo e lança uma app para ajudar os outros

A Confia serve como um diário e uma amiga virtual. Na plataforma aponta o que está a sentir e pode desabafar com os outros.

Guilherme Mendes passou anos a tentar perceber porque é que a cabeça não parava. “Era ansioso mesmo sem saber porquê”, conta à NiT. Chegou a um ponto em que percebeu que se não mudasse, nem a medicação o conseguiria ajudar. Aos 37 anos, decidiu transformar esse processo numa ferramenta que pudesse usar todos os dias. Foi assim que nasceu a Confia, uma aplicação criada para ajudar a acompanhar a ansiedade, os hábitos e o estado de espírito. A aplicação foi lançada em meados de julho e já ultrapassou os 700 downloads.

A relação de Guilherme com a ansiedade começou ainda em miúdo, numa altura em que nem sabia identificar o que estava a sentir. A separação dos pais, que descreve como “muito complexa”, acabou por ter impacto nesse período da vida. Durante anos, porém, não tinha uma explicação para aquilo que lhe acontecia. “Desde novo era ansioso mesmo sem saber porque era um tema que eu não conhecia”, conta.

A situação mudou há cerca de três anos, quando estava prestes a ser pai. Duas semanas antes do nascimento da filha, uma ecografia trouxe uma notícia inesperada: os médicos tinham detetado um problema no cérebro da bebé. Naquele momento, ficou sem saber qual seria o impacto da situação. “Só depois de a menina nascer é que iria saber o que seria”, recorda. A incerteza transformou-se num trauma e acabou por desencadear a primeira crise de ansiedade.

O acompanhamento passou a envolver um psicólogo e um psiquiatra e Guilherme começou a tomar medicação. No entanto, percebeu que precisava de fazer mais. “Eu disse a mim mesmo que isto não se resolveria só com medicação. Também teria de olhar para mim”, explica. A mudança implicava perceber os próprios comportamentos e identificar aquilo que poderia alterar no dia a dia para ter uma vida mais saudável, não apenas por si, mas também pela mulher e pela filha.

Foi nessa fase que começou a olhar para rotinas que até então não pareciam ter ligação com o que sentia. O sono, a alimentação, o consumo de café, o açúcar e até a forma como passava o tempo começaram a fazer parte da análise. Guilherme, que vive em Cantanhede, bebia seis cafés por dia e reduziu o consumo para um. Retirou o açúcar da rotina e introduziu exercício físico diário. Atualmente, corre em média 50 quilómetros por semana.

A mudança não ficou limitada à atividade física. Havia também um comportamento que reconheceu como prejudicial: a necessidade constante de pesquisar e consultar informação, independentemente do tema.

“Era como entrar na Netflix e passar 15 minutos a procurar o que vamos ver e depois não escolhermos nada”, explica. O mesmo padrão aparecia noutras áreas da vida e ocupava uma parte considerável do seu tempo. A pesquisa constante servia para manter a mente ocupada, sobretudo nos períodos em que a ansiedade se fazia sentir com mais intensidade. Esse hábito acabou por se transformar numa presença permanente no quotidiano. “Para me sentir bem e com a mente ocupada procurava sobre tudo e mais alguma coisa.” 

Há cerca de um ano, depois de mais uma crise, uma conversa com a mulher levou-o a tomar uma decisão. “Querer mudar tem de partir de nós”, diz. Em vez de ficar à espera de que o problema desaparecesse, começou a registar o que fazia e como se sentia. O primeiro método foi simples: papel e caneta. Anotava a forma como acordava, quantas horas tinha dormido, o que tinha comido e outros aspetos da rotina que poderiam ajudar a perceber a evolução.

A ideia era criar um registo que lhe permitisse olhar para trás e encontrar relações entre os hábitos e o seu estado emocional. “Era uma ferramenta que, agora, gostava de ter comigo desde o início”, conta. O objetivo não passava por encontrar uma solução imediata, mas sim por reunir informação suficiente para perceber o que estava a acontecer consigo.

A certa altura, percebeu que o papel não era a opção mais prática. Queria ter os registos no telemóvel e poder acompanhar a evolução. Foi então que começou a desenvolver uma aplicação. Guilherme é formado em Gestão de Empresas e trabalha na Câmara Municipal de Cantanhede. Não tinha, então, qualquer prática em programação. “Fui muito autodidata”, brinca.

O projeto demorou cerca de seis meses a ser desenvolvido e foi feito nos períodos em que Guilherme tinha tempo disponível. “Houve muita tentativa e erro”, admite. O trabalho acabou por ter também um efeito sobre o próprio processo de recuperação: “Isto foi uma ocupação para mim e ajudou-me imenso. Abstraí-me de crises que tive pelo caminho.”

Guilherme
Guilherme Mendes, fundador da Confia.

A primeira versão servia para guardar os dados que Guilherme já registava, mas sentia que faltava algo. Começou, então, a desenvolver uma aplicação capaz de reagir aos registos e ao histórico, avaliar a evolução e apresentar sugestões.

A ideia deixou de ser apenas um diário digital. Guilherme quis criar uma ferramenta que pudesse acompanhar os utilizadores ao longo do tempo e ajudá-los a perceber padrões. “Se eu estou a fazer esta checklist diária e isto ajuda-me, então é algo que pode ser transversal a muita gente”, explica.

Foi essa conclusão que levou ao nascimento da Confia. Apesar de ter a ansiedade como um dos principais focos, não foi pensa apenas para quem luta contra esta doença. “É para gente ansiosa, mas não só. Todos temos vícios que podem ser prejudiciais e que devemos mudar”, afirma.

O funcionamento começa assim que a aplicação é aberta. É apresentado um pequeno questionário para perceber como o utilizados está e qual é o seu estado de espírito. Ao longo do dia, pode fazer uma avaliação da manhã e outra da tarde, registando como correu cada período. Os hábitos também entram no processo e, ao fim de um mês, a aplicação apresenta um feedback com base na informação reunida.

Existe ainda um botão SOS pensado para momentos em que surgem sintomas físicos associados à ansiedade. A ferramenta conduz o utilizador durante um minuto de respiração e coloca perguntas relacionadas com aquilo que está a sentir.

A Confia inclui também uma área de partilha com funcionamento semelhante a um fórum, onde os utilizadores podem contar como se sentiram. É ainda possível criar um chat. A funcionalidade surgiu de uma necessidade que Guilherme sentiu durante os próprios momentos de ansiedade. “Muitas vezes eu queria desabafar e as pessoas à minha volta minimizavam a minha situação”, recorda.

A aplicação é gratuita e está disponível, por enquanto, apenas na Play Store da Google e pode ser utilizada em português, francês, espanhol e inglês. O próximo passo passa por chegar aos telemóveis da Apple.

Nota: a imagem ilustrativa de destaque é da personagem Will Byers, interpretada por Noah Schnapp, na quinta temporada de “Stranger Things”.

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