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Foi mãe, mudou de vida e criou em Setúbal um espaço dedicado à saúde mental das famílias

O ALLMA Family Club reúne psicologia, grupos terapêuticos, uma biblioteca para falar de emoções e apoio para todas as etapas da vida familiar.

Ser mãe mudou o percurso profissional de Susana Pereira da Fonseca, de 33 anos. Psicóloga clínica ligada à área perinatal e com cerca de uma década de experiência no acompanhamento de famílias, começou por criar uma página de Instagram para falar sobre parentalidade e saúde mental após o nascimento da primeira filha, em 2020.

No entanto, foi depois do nascimento da segunda filha, em 2024, que percebeu que já não se sentia preenchida pelo modelo tradicional da psicologia, marcado por consultas individuais sucessivas ao longo do dia.

Queria sair das quatro paredes do consultório e criar um espaço onde o acompanhamento psicológico pudesse conviver com a partilha, a prevenção e o sentido de comunidade. “Reuni uma equipa e começámos a trabalhar online, a dar consultas e a desenvolver grupos terapêuticos, mas fui sentindo que a ausência do espaço físico era uma barreira para a construção de uma verdadeira comunidade. Queria construir um local onde as famílias pudessem estar, a quem facilmente pudessem recorrer e onde se sentissem ouvidas e acolhidas”, conta.

Susana transformou então a comunidade que cresceu no digital num espaço físico em Setúbal. A cidade foi a escolha natural para concretizar o projeto, pois foi onde a fundadora nasceu, cresceu e escolheu viver e criar as filhas. “É aqui que nos faz sentido construir esta comunidade porque, enquanto família, também fazemos parte dela”, afirma.

O ALLMA Family Club abriu no início de setembro, na Rua Ocidental do Convento, reunindo consultas de psicologia, grupos terapêuticos e psicoeducativos, bem como atividades para bebés e miúdos.

Uma biblioteca para falar sobre emoções

A infância é uma das áreas centrais do ALLMA, mas o trabalho não começa apenas quando surge um diagnóstico ou um problema. A equipa também pretende atuar na prevenção e no desenvolvimento das competências emocionais dos mais novos e respetivas famílias. É esse o objetivo do Clube do Livro, um grupo psicoeducativo dirigido a miúdos entre os 12 meses e os 12 anos. Através das histórias, vão ser trabalhadas diferentes competências sociais e emocionais.

O espaço reúne um acervo com mais de 100 livros infantis e obras destinadas a mães e pais. Os títulos foram selecionados pela equipa e abordam temas como o desmame, desfralde, luto, perda gestacional, gestão emocional, inclusão e divórcio.

A biblioteca está aberta ao público, mediante uma inscrição que custa 25€ por ano letivo. O valor inclui a possibilidade de requisitar livros e participar nas leituras e atividades associadas, realizadas ao longo do ano, estando prevista, pelo menos, uma sessão de leitura por mês.

Em outubro, o ALLMA planeia iniciar também o Baby Club, um grupo psicopedagógico destinado a bebés e miúdos entre os seis meses e os três anos, acompanhados pelos pais. Orientado por uma psicóloga, pretende estimular o desenvolvimento, a autonomia e a exploração, mas também reforçar a ligação entre pais e filhos através da brincadeira.

“No ALLMA, trazemos as famílias para as consultas, para que se envolvam nos grupos, e criamos momentos com o objetivo de promover relações familiares seguras”, sublinha Susana. Quando uma família procura ajuda por estar a enfrentar algum desafio com um miúdo, o acompanhamento começa com uma consulta aos pais. A equipa procura compreender a situação e, a partir daí, estrutura um plano individualizado de avaliação e, caso seja necessário, de intervenção.

“Todas as crianças e famílias são únicas, pelo que os planos e intervenções terapêuticas têm de se adaptar às especificidades e necessidades de cada uma”, acrescenta.

Grupos para mães, bebés e famílias

Além do Baby Club, em outubro, o ALLMA deverá lançar mais dois dos seus principais projetos: o Mommy Club e o Clube do Livro. O primeiro é um grupo terapêutico semanal para mulheres grávidas e mães com bebés até aos três anos. O conceito foi testado pela primeira vez a 9 de setembro, no Dia da Grávida, e a adesão levou a equipa a avançar com sessões regulares.

O objetivo é apoiar a saúde mental e a adaptação da mulher durante o período perinatal, uma fase marcada por profundas mudanças físicas, emocionais e familiares e na qual existe um risco acrescido de desenvolvimento de problemas de saúde mental. “Nas sessões, vou convidar as mulheres a cuidar de si e das suas relações, num espaço de acolhimento, segurança e partilha entre outras que estão a viver fases semelhantes”, explica a psicóloga.

Ainda este ano, arranca o Dance Club, um grupo terapêutico que cruza a psicologia com práticas de dança e movimento. O projeto inclui três modalidades: uma para grávidas e mães com bebés transportados em pano, outra para famílias com miúdos entre os 18 meses e os três anos e uma terceira destinada a adultos. A ideia nasceu quando Susana regressou aos cursos livres da Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, onde tinha frequentado aulas durante grande parte da infância e da adolescência.

Ao reencontrar a dança, percebeu que poderia juntar as duas áreas que mais a apaixonam. Além destes grupos, estão previstos workshops, círculos de conversa e outras iniciativas dirigidas a famílias e profissionais.

Uma equipa com oito psicólogas

O ALLMA reúne atualmente oito psicólogas das áreas clínica e educacional. A equipa acompanha bebés, miúdos, adolescentes e adultos em questões relacionadas com ansiedade, depressão, trauma, autismo, PHDA, seletividade alimentar, regulação emocional, comportamentos desafiantes, desfralde e dificuldades de desenvolvimento ou relacionamento. Além das consultas individuais, o espaço disponibiliza grupos terapêuticos e psicoeducativos.

Segundo Susana, a escolha da equipa teve em consideração não apenas a formação, mas a forma como cada profissional olha para a infância e para as relações humanas. “Acreditamos que é através de relações seguras, responsivas e significativas que podemos crescer e desenvolver-nos de forma saudável, sem esquecer o respeito pela autonomia e individualidade do outro, desde o bebé ao idoso.”

O projeto quer ter também uma dimensão social. Para facilitar o acesso aos serviços por parte de famílias com dificuldades económicas, foi criada uma bolsa social com um número limitado de vagas. Podem candidatar-se famílias integradas no primeiro, segundo ou terceiro escalão de rendimentos, mediante a apresentação de comprovativo.

Pais exaustos e famílias mais isoladas

Na experiência da psicóloga, muitos pais chegam às consultas exaustos e com a sensação de que não conseguem corresponder às exigências associadas à parentalidade. Apesar de já existir mais informação sobre educação consciente e respeitadora, as famílias tentam conciliar um número crescente de responsabilidades pessoais e profissionais.

“Nunca se soube tanto sobre a importância de termos uma parentalidade respeitadora e consciente, mas nunca se teve de equilibrar tantos papéis ao mesmo tempo, sendo espetaculares em todos eles.” Entre os adultos, são frequentes casos de burnout, ansiedade e depressão. Nos miúdos, a ansiedade também está entre os principais motivos que levam as famílias a procurar acompanhamento.

É precisamente esse sentimento de isolamento que o ALLMA pretende combater. O nome do projeto, escrito com dois “L”, inclui a palavra inglesa “all”, que significa “todos”, para reforçar a ideia de um espaço pensado para as várias etapas da vida familiar. “O grande objetivo é sermos uma comunidade, uma casa para as famílias”, conclui Susana.

As consultas e atividades funcionam mediante marcação ou inscrição. O primeiro contacto pode ser feito presencialmente, por telefone, email ou através do formulário disponível no site do ALLMA Family Club.

Carregue na galeria para conhece o novo espaço.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Ocidental do Convento, n.º 19, loja 5
    2900-514 Setúbal
  • HORÁRIO
  • Mediante marcação ou inscrição

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