No desporto de alta competição, aprende-se a lidar com a pressão, a levantar depois de cada derrota e a confiar no processo, mesmo quando os resultados tardam. Nádia Palongo viveu tudo isso antes de completar 20 anos. Jogadora de basquetebol desde os 10, capitã da Seleção Nacional, cinco campeonatos da Europa nas camadas jovens e dois anos no Centro de Alto Rendimento do Jamor, o currículo desportivo da setubalense impressiona por si só.
No entanto, a história que se seguiu ao basquetebol é, se possível, ainda mais surpreendente. Depois de se formar em fisioterapia, de trabalhar em clínicas, no Vitória de Setúbal e na própria seleção nacional como fisioterapeuta, Nádia enfrentou uma separação, um síndrome de impostora e uma pandemia, mas transformou tudo isso na força necessária para construir, sozinha, o que é hoje a Clínica Essencial: três espaços em Setúbal, uma equipa multidisciplinar e um quarto espaço a caminho, que vai unificar tudo debaixo do mesmo teto.
Aos 39 anos, Nádia é uma referência local em áreas como o bruxismo, disfunções temporomandibulares e saúde integrativa. Mas quando se senta para contar a sua história, começa pelo mesmo sítio: o campo de basquetebol da Escola da Azeda, junto ao Alegro, onde descobriu, sem saber, o caminho que lhe mudaria a vida.
A setubalense que chegou à seleção nacional de basquetebol
Nádia Palongo nasceu e cresceu em Setúbal. A ligação ao desporto começou aos 10 anos, através do desporto escolar na Escola da Azeda, onde frequentava no quarto ano. Era alta, tinha jeito para o basquetebol e isso foi notado.
Pouco depois, começou a jogar basquetebol no Clube Naval Setubalense, onde rapidamente se destacou. Com apenas 12 anos, foi chamada à seleção nacional de basquetebol para experimentar os sub-16. Dois anos depois, voltou à seleção e, a partir daí, nunca mais saiu. “Voltei à Seleção Nacional e fiz cinco campeonatos da Europa, até Sub-20. Também fui capitã da equipa. O desporto sempre esteve muito ligado à minha vida”, recorda.

Entre os 15 e os 17 anos, viveu no Centro de Alto Rendimento do Jamor, onde a exigência era total. Dormia no centro de estágio, fazia o secundário em Oeiras e, às sextas-feiras, viajava até Setúbal para jogar pela sua equipa, antes de regressar ao Jamor.
Era uma vida de disciplina, de sacrifício e rotinas que poucos adolescentes conseguem manter. Depois do Naval Setubalense, mudou-se para o Barreiro, para a Escola Secundária de Santo André, onde jogou os seus últimos anos de júnior e sénior e onde se sagrou campeã nacional.
O basquetebol deu-lhe títulos, viagens, experiências e uma estrutura mental que mais tarde se revelaria essencial. No entanto, havia chegado altura de escolher um caminho fora do campo.

Depois de um ano na Faculdade de Motricidade Humana a estudar Reabilitação Psicomotora, “percebi que não era bem aquilo que queria”, explica Nádia. Por isso, candidatou-se em 2007 ao curso de Fisioterapia na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal. Entrou e, no segundo ano, tomou a difícil decisão de abandonar o desporto para se dedicar inteiramente aos estudos. Em 2011, terminou o curso e começou a trabalhar na área.
De fisioterapeuta do Vitória de volta à seleção nacional
Os anos que se seguiram à licenciatura foram uma corrida entre vários projetos em simultâneo. Nádia trabalhou numa clínica setubalense, passou pelo andebol e pelo futebol no Vitória de Setúbal (nos escalões de iniciados e infantis), deu formação para auxiliares de fisioterapia, fez hidroterapia nas piscinas municipais do Pinhal Novo e ainda atendia domicílios.
E, como se não bastasse, em 2013 regressou à Seleção Nacional de Basquetebol, desta vez do outro lado da linha, como fisioterapeuta. “Fiz o circuito como atleta, em sub-16, sub-18 e sub-20, e depois também fiz campeonatos da Europa como fisioterapeuta”.
A experiência de ter sido atleta de alta competição dava-lhe uma compreensão do corpo e da mente dos jogadores que poucos fisioterapeutas conseguem ter. Sabia o que era a pressão de um campeonato da Europa, conhecia o desgaste de um corpo que treina todos os dias e entendia, de forma visceral, o que significa recuperar a tempo de voltar ao campo.
A parceria com a federação durou até 2017, ano em que a sua vida mudou de rumo. Em 2015 foi mãe e, quando a filha tinha dois anos, sentiu que era altura de parar de se dividir entre dezenas de projetos e focar-se num só.
Queria abrir a sua clínica, construir algo com a sua visão e os seus valores. Mas havia um problema: não acreditava que fosse capaz. “É aqui que entra o síndrome de impostora. Achava que não era capaz de abraçar um projeto sozinha”, admite.
A separação, o regresso a casa dos pais e o salto de fé
A mudança de mentalidade veio de onde menos esperava. Quando se separou do pai da filha, Nádia foi obrigada a olhar para a vida de frente e a fazer contas que nunca tinha feito. E percebeu algo que a surpreendeu. “Aquilo que já estava a fazer, ou seja, as consultas que já estava a dar eram suficientes para suportar as despesas. Mas ainda não tinha parado para pensar nisso”.
A separação, apesar de dolorosa, funcionou como um catalisador. Se nada era estável, se nada era garantido, então não havia razão para continuar a adiar o sonho.
A decisão foi tomada em julho de 2017 e exigiu um sacrifício que poucos estariam dispostos a fazer. Nádia voltou com a filha para casa dos pais, para conseguir poupar dinheiro para abrir o seu negócio. Ficou lá cerca de cinco meses, a amealhar cada euro e a preparar tudo.
Em dezembro de 2017, cinco meses depois de ter tomado a decisão, abriu o seu primeiro espaço: uma loja de 40 metros quadrados no Monte Belo Norte, em Setúbal, onde dava consultas de fisioterapia, osteopatia e Pilates clínico.
Fazia tudo sozinha, desde o atendimento aos tratamentos e à gestão. No final de 2018, com o aumento da procura, convidou uma colega para dar as aulas de Pilates, libertando-a para se dedicar às consultas. O espaço continuou a crescer de forma consistente.
No entanto, nem tudo foi um mar de rosas. Em setembro de 2019, essa colega saiu de forma inesperada para abrir o seu próprio espaço, levando consigo alguns clientes. Nádia ficou novamente sozinha. E poucos meses depois, chegou a pandemia. “Em março estive em casa, mas dei aulas de Pilates online, para manter as pessoas ativas e também me fazia bem, para manter o contacto com os clientes”, explica.
Essa decisão revelou-se uma mais-valia, poque quando tudo reabriu, as pessoas lembravam-se da clínica e voltaram.
De um pequeno gabinete a três espaços
O crescimento que se seguiu foi rápido e determinado. Ainda em plena pandemia, surgiu um espaço para arrendar na mesma praceta do Monte Belo Norte, com o dobro do tamanho. Nádia agarrou a oportunidade, ficando com o novo espaço para consultas, criando três gabinetes e mantendo o original apenas para Pilates.
No final de 2020, juntaram-se à equipa mais três fisioterapeutas e uma recepcionista. A clínica deixava de ser uma operação a solo para se tornar num projeto estruturado.
Em 2022, Nádia foi mãe do segundo filho. Em 2024, abriu o terceiro espaço, a Academia da Coluna, em São Gabriel, dedicado exclusivamente ao Pilates clínico e com máquinas, áreas cada vez mais procuradas pelos pacientes.
No mesmo ano, avançou com um rebranding. O antigo Studio Saúde Setúbal passou a chamar-se Clínica Essencial. “Esta mudança vem de uma alteração do posicionamento do próprio negócio”, explica Nádia. “Inicialmente, o estúdio estava muito virado para a parte desportiva. Mas com a vinda de vários colegas fisioterapeutas que se começaram a especializar, a clínica deixou de se focar apenas no desporto, abraçando o corpo humano como um todo e de forma personalizada”.
Hoje, a Clínica Essencial oferece fisioterapia e osteopatia, fisioterapia desportiva, pediátrica, nas disfunções temporomandibulares e bruxismo, na escoliose e postura, massagem desportiva e de relaxamento, drenagem linfática manual, Pilates clínico e de máquinas, nutrição clínica e desportiva e psicologia para adolescentes e adultos.
Há ainda os programas Essencial 360, uma abordagem multidisciplinar que inclui o Stop Bruxismo, o Coluna sem Dor, o Mummy & Baby e o Performance & Recovery, todos pensados para quem procura mais do que uma consulta isolada.
Os preços das consultas variam entre os 30€ e os 50€, enquanto os programas de acompanhamento vão dos 790€ aos 1200€.
O Principezinho, a raposa e o espaço que vai juntar tudo
O nome Clínica Essencial nasceu de um brainstorming que levou Nádia a viajar à infância, até um dos seus livros favoritos: “O Principezinho”. “Uma das frases que até tenho tatuada: só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”, conta.
“O Essencial veio desta essência do Principezinho e desta essência com que olho para a vida.” Até a mascote da clínica, uma raposa, tem um duplo significado: é a raposa do Principezinho e, ao mesmo tempo, um símbolo da Serra da Arrábida.
Toda a clínica está pensada com o paciente no centro. Nádia fala da “jornada do cliente” como quem fala de uma filosofia de vida, em que cada pormenor foi pensado para que quem entra se sinta acolhido, acompanhado e tratado como pessoa, não como um número.
O próximo capítulo da Clínica Essencial já está a ser escrito. Nádia prepara a abertura de um quarto espaço, que vai unificar os três atuais num único local, maior e com todas as valências integradas.
A abertura está prevista para setembro deste ano e, até lá, os três espaços continuam a funcionar normalmente. Depois, os antigos encerram e tudo se concentra na nova casa. “Vamos deixar de ter estes três espaços para agrupar tudo num só, num espaço grande, em que se tem em conta toda a experiência do cliente, diferenciada e individual”, explica.
A Clínica Essencial funciona de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 20h30, e ao sábado, das 9 às 13 horas. Os agendamentos podem ser feitos por telefone, WhatsApp ou através do Instagram, onde está disponível o link para marcação online.
De uma rapariga alta com jeito para o basquetebol na Escola da Azeda a uma empresária com três clínicas e um quarto espaço a caminho, o percurso de Nádia Palongo é a prova de que a disciplina que se aprende no desporto nunca se perde. Apenas muda de campo.
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