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Esta setubalense tem um projeto de apoio a casais com recém-nascidos

Margarida Lança é especializada em saúde materna e sente que há uma grande lacuna em Portugal no acompanhamento do pós-parto.
Margarida Lança no acompanhamento a uma grávida.

Ter um filho é um ato fisiológico, faz parte da natureza humana. No entanto, o tema da gravidez em Portugal ainda não tem a atenção devida. A mulher é acompanhada durante a gravidez e no parto e, passado os três ou quatro dias que deve permanecer no hospital, há um corte no que diz respeito ao acompanhamento e apoio.

Os casais enfrentam múltiplos desafios nesta fase inicial da vida do bebé, mais propriamente no primeiro mês. Além de tudo isto há ainda a questão do parto humanizado que atualmente está na ordem do dia, embora seja pouco explorada por muitos casais, que têm os seus direitos, mas não o sabem.

Margarida Lança, 35 anos, é natural de Setúbal, é especializada em saúde materna e integra a equipa de internamento de grávidas e ginecologia no Hospital Garcia de Orta, em Almada. Terminou a sua licenciatura em Enfermagem, em 2009, mas já tinha uma grande vontade de aprender mais sobre a área de obstetrícia.

Nessa altura não lhe foi possível, então entrou no serviço de urgência do Hospital Garcia de Orta durante cerca de 13 anos. Em 2015, como a sua intuição ainda lhe dizia para investir na área da obstetrícia, realizou um curso de conselho em aleitamento materno, que coincidiu com a sua primeira gravidez.

Logo após o nascimento do primeiro filho, uma amiga sua que, na altura, ainda não era especialista, deu-lhe um grande apoio. “Era tudo uma novidade e não tinha tido um parto propriamente fácil. Ela deu-me aquele suporte de me garantir que tudo iria correr bem. Percebi que este apoio, nesta fase, fazia todo o sentido, quer de uma pessoa que faz parte do nosso círculo, como de outra especializada na área”, explica.

Quando terminou o curso começou por ajudar as suas amigas mães na parte do aleitamento materno com alguns conselhos nos cuidados ao bebé. Entretanto engravidou de novo, desta vez, de gémeos. “Neste momento ainda tive mais vontade de ajudar os casais que passam por estes processos”.

Por isso especializou-se na área de saúde materna e começou a fazer os apoios ao domicílio a nível particular. Quando terminou a especialidade decidiu lançar o seu próprio projeto, que coincidiu com a altura em que quis regressar à sua cidade-casa, uma vez que vivia em Almada. Atualmente mora cá, tem o seu projeto particular e, simultaneamente, trabalha na área de internamento de grávidas e ginecologia do Hospital Garcia de Orta.

O projeto de Margarida Lança passa pela transmissão de informação, acompanhamento e apoio nas fases da gravidez e pós-parto, uma vez que sente que há uma grande lacuna nesta área em Portugal. Apresenta um curso de preparação para a parentalidade e nascimento ao domicílio, no qual transmite informações adaptadas às necessidades do casal. São abordados temas como, por exemplo, o parto prematuro, ou seja, o que pode acontecer nestes casos, a questão do aleitamento, como deve ser feita a vigilância no pós-parto e os cuidados ao recém-nascido.

O curso inclui ainda uma visita de acompanhamento pela profissional no pós-parto, solicitada na fase que o casal quiser, seja no dia da alta, ou depois da primeira semana de vida do bebé. Nesta visita, Margarida avalia a esclarece eventuais dúvidas como, por exemplo, a forma correta de dar o banho, como se limpa o umbigo, como devem deitar o bebé e, muito importante, a parte da amamentação, que é um dos grandes desafios.

“O estabelecimento do aleitamento materno, ou seja, conseguir que o bebé se alimente de forma autónoma, sem criar dor à mãe, é um dos maiores desafios para os pais e no hospital não temos tempo para garantir que as pessoas, quando saem, estão realmente a amamentar sem nenhum problema”, explica a profissional.

É um momento de muita ansiedade para a mãe se sentir que não está a conseguir alimentar o seu bebé. “Muitas vezes até está tudo bem, mas a mãe não consegue avaliar os sinais e é preciso irmos lá e mostrar que está tudo bem”, indica. Este problema no acompanhamento pode ser despoletado pela falta de recursos humanos ou pelo facto de os serviços não estarem dirigidos. “São serviços que levam tempo e nós, no hospital ou nos centros de saúde, não conseguimos acompanhar. Sinto alguma frustração porque temos muitos utentes a nosso cargo e as coisas ficam pela metade”, revela.

Humanização do parto e gravidez

O parto humanizado passa pelo estabelecimento de relações de confiança, de comunicação, de esclarecimento de dúvidas e de suporte no pós-parto. Os casais são livres de fazerem todas as questões e até de poderem planear o próprio parto, por isso é que existem os planos de parto. A Direção Geral da Saúde já recomenda que os casais o façam e é um direito de ambos, mas este ainda é um caminho desconhecido para muitos casais.

“Existem muitas pessoas que têm receio de levar o seu plano de parto por poder ser mal recebido. Com o plano de parto, queremos que o casal seja incluído neste processo que, na verdade, é só dele”, explica Margarida Lança. Neste sentido, os casais devem elaborar o plano de parto e apresentá-lo ao profissional de saúde que, por sua vez, deverá adaptá-lo às necessidades da gravidez e do espaço onde o bebé irá nascer, apresentar todas as opções disponíveis ao casal e esclarecer as dúvidas que possam surgir.

Algumas das coisas que podem apresentar no plano de parto são a possibilidade do contacto pele-a-pele, se querem proporcionar a amamentação na primeira hora de vida do bebé, se a mãe quer tirar o bebé do seu próprio corpo ou se o pai quer cortar o cordão umbilical. “Às vezes as pessoas não sabem se querem fazer certas coisas, mas é bom saberem que têm a oportunidade de optar”, indica.

Podem também dizer como querem a iluminação da sala, se querem ouvir a própria música durante o parto, se podem levar aromaterapia e se querem vestir a própria roupa. “Estes tipos de pormenores fazem com que a pessoa se sinta bem e confortável”, refere.

Todas estas coisas, e muitas outras, são importantes porque determinam a experiência do parto que, por sua vez, determinam se a mulher quer ser mãe de novo, ou não. “Uma experiência de um parto traumático ou positivo vai ter um grande impacto numa futura gravidez, e há mulheres que ficam de tal forma desgostosas e com um sentimento de culpa muito grande quando algo não corre bem no parto”, explica.

A profissional desmistifica a questão do plano de parto porque, de facto, tem de ser encarado como algo normal. “Por termos um plano de parto não somos aves raras. Há cada vez mais mulheres que procuram fazê-lo, mas sinto que ainda há algum receio. Às vezes no hospital nós é que perguntamos se os casais têm plano de parto porque eles não o apresentam logo. Ainda há aqui alguma dificuldade em falar sobre isto”, afirma.

Margarida confessa que lhe faz alguma confusão os casais que não fazem a preparação para o parto, não questionam nada e aceitam tudo. “Há muitos casais que têm esta postura de não questionar nada. Os profissionais de saúde têm aqui o papel de informá-los de que têm direito a escolher, a perguntar os benefícios para eles e para o bebé se rejeitarem alguma coisa e perceber quais os riscos que correm”, explica.

Mesmo na fase do pós-parto é importante falar sobre o parto, nomeadamente como correu, se correspondeu às expectativas do casal, e explicar o porquê de determinadas coisas que estavam planeadas, não terem acontecido, se for esse o caso.

Uma das apostas que Margarida Lança gostaria que se implementasse em Portugal são unidades de cuidados na maternidade, lideradas por enfermeiros parteiros especializados em saúde materna, nas quais se focam nas gravidezes de baixo risco, que são as mais comuns. Estes espaços promovem o acompanhamento do casal com base na igualdade, bem como a sua segurança e conforto. Até agora, estas unidades existem em alguns países no norte da Europa, mas cá ainda não.

A profissional tem sido abordada algumas vezes, no âmbito do seu projeto, para saber se é possível oferecer às futuras mães, nos baby showers, vouchers de uma visita ao domicílio, algo inovador e bastante útil. “Em vez de oferecer algo que não sabemos se vai ser preciso ou não, oferecer apoio faz todo o sentido”, refere.

No próximo dia 24 de julho, domingo, Margarida Lança, em conjunto com outra especialista, vão dar um workshop de amamentação e plano de parto, no espaço Raízes. Durante a iniciativa serão abordadas questões como no que consiste o plano de parto, como podem construí-lo, o que podem incluir, os benefícios, etc..

Na parte da amamentação trata-se de perceber os benefícios, o que esperar dos primeiros dias, a evolução do leite, como pode ver se o bebé está, efetivamente, a alimentar-se, e os desafios mais comuns.

Pode entrar em contacto com Margarida Lança para obter os seus serviços através da sua página do Instagram.

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