Há percursos que nascem muito antes da profissão. No caso de Francisco Bação, começaram no corpo. Antes de ser personal trainer, antes de estudar desporto, antes de criar uma marca própria e de acompanhar pessoas online por todo o País, foi um miúdo com excesso de peso que cresceu em Setúbal a sentir, desde muito cedo, o desconforto de não caber no ideal físico dos outros nem no seu próprio. Aos 13 anos, media 1,60 metros e pesava 96 quilos. “Eu era, portanto, claramente obeso”, explica à New in Setúbal.
Hoje, aos 29 anos, Francisco é o fundador da Breaking My Limits, uma marca que nasceu de um blogue criado para traduzir informação científica sobre treino e nutrição em linguagem prática. Agora é um projeto sólido de acompanhamento online, com treino, estratégia nutricional e apoio próximo e personalizado.
No entanto, a história não começou com o físico ideal, resultados visíveis ou clientes transformados. Começou com frustração, insegurança, excesso de peso, erros alimentares e uma necessidade muito pessoal de mudar de vida.
Francisco não entrou no fitness porque era o miúdo atlético da turma, nem porque sempre soube o que queria fazer. Entrou porque queria emagrecer, para se sentir melhor no próprio corpo e começar a ser aceite pelos amigos. E porque, a certa altura, percebeu que aquela transformação poderia vir a ser útil não apenas para si, mas também para outras pessoas que estivessem a passar pelo mesmo.
O gamer que adorava comer foi salvo pelo judo
Francisco vive em Setúbal desde bebé e foi aqui que cresceu. Durante a infância e início da adolescência, a relação com o próprio corpo foi marcada por um estilo de vida muito distante daquilo que hoje representa.
“Naquela altura, eu era apenas um miúdo que gostava de jogar e de comer”, conta. Não havia talento especial para a atividade física, nem uma ligação natural ao desporto. Havia apenas a experiência frustrante de ser um adolescente gordo e, durante muito tempo, sem grande confiança.

A primeira grande mudança aconteceu quando entrou no judo do Vitória de Setúbal. Foi aí que começou a criar novas amizades, a desenvolver gosto pelo desporto e a perceber, pela primeira vez, que talvez pudesse ser bom em alguma coisa que não fosse “comer ou jogar”.
Essa descoberta teve um impacto enorme na vida de Francisco. Não foi apenas uma questão de exercício. Foi, acima de tudo, uma questão de identidade. A partir do momento em que encontrou uma modalidade em que se sentia integrado e valorizado, nasceu também a vontade de mudar o corpo.
Essa vontade provinha de vários sítios ao mesmo tempo. Havia a competição, claro, e a necessidade de estar fisicamente melhor para o judo. Havia também a adolescência, o olhar das raparigas, o desejo de ser visto de outra forma.
“As miúdas não olhariam para mim, enquanto eu fosse uma bolinha”, brinca Francisco. Mas havia sobretudo uma percepção de que precisava daquela mudança para a própria vida.

Foi então que começou a estudar sozinho e a procurar tudo o que conseguia encontrar sobre treino e alimentação, primeiro no Google, em fóruns e em informação dispersa, numa fase completamente autodidata.
O resultado foi impressionante à superfície. Num ano, passou dos 96 para os 76 quilos. Perdeu 30 quilos e viu o corpo transformar-se de forma muito rápida. Deixou de ser “um gordinho” e começou até a ver os abdominais. Ganhou confiança, perdeu o medo de tirar a T-shirt na piscina e começou a sentir orgulho no corpo que estava a construir. Mas essa transformação precoce e abrupta teve um preço alto.
Nem sempre basta perde peso
Como acontece com muitos adolescentes que tentam mudar radicalmente o corpo sem acompanhamento, Francisco estava a emagrecer sem perceber verdadeiramente as consequências. A vontade era a força motora, a disciplina também, mas faltava-lhe conhecimento aprofundado.
Por isso mesmo, o corpo acabou por pagar pela falta de conhecimento. A má nutrição levou ao desenvolvimento de anemia e durante muito tempo Francisco sentia-se “lastimável, sem energia e sem perceber de onde vinha aquele estado físico tão degradado”.
Em retrospetiva, essa fase foi importante porque mostrou que emagrecer, por si só, não significava necessariamente ter mais saúde. Poderia, sim, significar desgaste, défice nutricional e uma relação pouco consciente com o próprio corpo. E foi nesse ponto que o interesse pela alimentação e pelo treino começou a aprofundar-se. Já não se tratava apenas de perder peso ou de parecer diferente. Tratava-se de entender melhor como o corpo funciona e como se pode transformá-lo sem o destruir no processo.
Quando chegou a altura de escolher o caminho académico, esse interesse já estava instalado. Nessa altura, fazia competição de judo, tinha desenvolvido uma curiosidade real pela nutrição e pelo treino e, para desgosto dos pais, que imaginavam um futuro engenheiro, Francisco decidiu seguir desporto.
Entrou na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, em 2014, com a ideia inicial de se tornar treinador de judo. Era uma escolha alinhada com seu percurso até então, mas que acabou por não durar muito tempo enquanto projeto de vida.
A meio da faculdade, começou a perceber que a vida de treinador de judo não lhe daria o tipo de futuro que idealizava. Não era apenas uma questão profissional, mas também pessoal. Francisco percebeu que queria, um dia, ter qualidade de vida, tempo para a família e possibilidade de ser um pai presente — um cenário que não via naquele caminho.
Foi então que começou a olhar com mais atenção para a área do treino, da composição corporal e do acompanhamento de pessoas comuns, sobretudo aquelas que, como ele, sabiam o que era tentar mudar o corpo e errar pelo caminho.
Também aí surgiu outra frustração pessoal. Depois de ter sido o miúdo com obesidade, passou a sentir-se “magro demais”. Já não estava preso ao excesso de gordura, mas continuava sem conseguir construir o músculo que queria. “Preciso aprender mais”, percebeu. Esse impulso de voltar a estudar, outra vez a partir de uma limitação própria, tornou-se uma constante na sua vida.
Lesões, atrasos na faculdade e o blogue que nasceu antes da carreira
No último ano da faculdade, surgiram complicações sérias por causa da competição de judo e das lesões causadas. Algumas impediram-no de completar cadeiras práticas, como natação ou atletismo, e obrigaram-no mesmo a ser operado.
Apesar de ter recebido indicações de que poderia prosseguir de ano, acabou por não ter o aval para avançar quando chegou a altura decisiva. O resultado foi um atraso forçado no percurso: teve de passar um ano a terminar cadeiras, para depois realizar o estágio.
Esse estágio acabou por ser feito no Sport Lisboa e Benfica, como treinador de judo. Não era remunerado, mas o mais importante é que esse período lhe deu uma coisa que não estava à espera de ganhar: tempo. E foi precisamente nesse ano, aparentemente suspenso e cheio de frustração, que Francisco começou a construir o projeto que, mais tarde, mudaria a sua vida profissional.

Percebendo cada vez mais o desfasamento entre aquilo que aprendia formalmente e o que encontrava de mais atual fora de Portugal, decidiu investir todas as poupanças em formações online estrangeiras. Procurava ciência mais recente, métodos mais sólidos e ferramentas práticas que o preparassem para ser personal trainer e prestar um serviço melhor.
Foi durante esse mergulho intenso em formação que se apercebeu de um problema que ainda hoje critica: a diferença grande entre a informação ensinada nacionalmente e a ciência mais atual do desporto e da nutrição praticada fora do País. A ideia de criar um blogue surgiu nesse contexto e teve um empurrão importante da irmã, Bárbara Bação, que insistiu para que ele começasse a escrever e a partilhar tudo aquilo que estava a aprender.
Assim nasceu a Breaking My Limits, ainda antes de Francisco ter sequer começado a trabalhar oficialmente na área. Primeiro foi apenas isso, um blogue e uma página de Instagram, feitos de forma rudimentar, com grafismo fraco, pouca experiência de comunicação e muita vontade de informar melhor. O objetivo, no entanto, sempre foi pegar no melhor da ciência e torná-la útil para todos, sem achismos, sem fórmulas mágicas e sem promessas enganadoras.
Do Holmes Place ao Covid: quando a marca deixou de ser part-time
Francisco terminou o estágio em 2018. Nessa altura, a Breaking My Limits ainda era pequena, e ele entrou no mercado de trabalho como personal trainer presencial no Holmes Place do Palácio Sotto Mayor, em Lisboa.
Foi um período exigente, em que a prioridade passou a ser trabalhar, crescer como treinador e pagar contas. Os dias começavam cedo e acabavam tarde, com rotinas puxadas entre Setúbal e Lisboa. A marca continuava a existir, mas apenas como um part-time sacrificado aos fins de semana.
Durante a semana, dava treinos e avaliações praticamente o dia inteiro. Ao sábado e ao domingo, escrevia para o blogue, preparava conteúdos para o Instagram e tentava manter viva aquela estrutura ainda muito amadora.
Ao mesmo tempo, continuava a gastar grande parte dos ordenados em formação. Havia uma obsessão positiva por melhorar, por aprender mais e por fazer diferente. Essa ideia de superação constante acabaria, aliás, por ficar inscrita no próprio nome da marca, Breaking My Limits, a quebra dos próprios limites, a tentativa permanente de não repetir, de fazer melhor.
A grande viragem aconteceu com a pandemia. Quando o Covid chegou, Francisco perdeu o trabalho presencial. Mas ganhou aquilo que nunca tinha tido em quantidade suficiente: tempo. E esse tempo permitiu-lhe finalmente investir a sério na marca.
Durante a primeira vaga da pandemia, a Breaking My Limits cresceu de forma muito expressiva, sobretudo nas redes sociais. Nessa altura, nasceu também o tipo de serviço que hoje está no centro de tudo: o acompanhamento online.
Francisco começou a trabalhar com pessoas fechadas em casa, com ou sem equipamento, construindo treinos e estratégias adaptadas à realidade concreta de cada uma. O mais importante é que não estava apenas a enviar planos. Estava a criar um modelo de acompanhamento próximo, em que o treino, a alimentação, a gestão dos horários, o mindset e os imprevistos do dia a dia eram pensados como parte do mesmo processo.
Nas semanas seguintes, a marca ganhou escala, notoriedade e consistência. E o que tinha começado como um blogue tornou-se num negócio real.
A marca que nasceu para elevar a fasquia do fitness em Portugal
Hoje, a Breaking My Limits funciona totalmente online e é liderada maioritariamente por Francisco e pelo treinador António Domingues. Depois de, durante algum tempo, também terem apostado na formação de outros profissionais em 2022, a estrutura está agora focada no acompanhamento de clientes. Francisco deixou definitivamente o trabalho presencial em 2024 e passou a dedicar-se a 100 por cento à marca.

O principal serviço é o acompanhamento online personalizado e a palavra “personalizado” aqui não é decorativa. Segundo Francisco, tudo começa com uma videochamada inicial, feita para perceber objetivos, rotinas, limitações, contexto pessoal e disponibilidade real de cada cliente.
A partir daí, é construída uma estratégia adaptada ao corpo que a pessoa quer alcançar e à vida que tem, não à vida idealizada de um atleta profissional. O treino é ajustado ao número de sessões semanais possíveis, ao tempo disponível, ao local onde a pessoa treina, ao equipamento que tem e às limitações físicas que apresenta.
A proposta vai muito além da prescrição de exercícios. Há correção técnica através de vídeos enviados pelos clientes, feedback personalizado em vídeo, contacto próximo ao longo da semana e ajustes contínuos feitos com base na evolução de cada pessoa.
A componente nutricional também existe e pode ser integrada no acompanhamento. A estratégia é igualmente adaptada a cada pessoa e pode passar por contagem de calorias e macronutrientes ou por abordagens mais estruturadas em termos alimentares. Em ambos os casos, a lógica é que não existem “soluções genéricas ou chapas cinco”. Tudo é pensado para encaixar na vida do cliente, e não o contrário.
No fundo, Francisco quer “elevar a fasquia do fitness em Portugal”. Pretende que os clientes recebam melhor informação, melhor acompanhamento e uma resposta mais séria, mais atual e mais científica àquilo que procuram.
A Breaking My Limits pode ser acompanhada através do site, do canal de YouTube e da página de Instagram de Francisco. É a partir daí que os interessados podem entrar em contacto, marcar avaliação e perceber se este modelo de acompanhamento é o mais adequado para os seus objetivos. Os preços variam entre os 150€ e os 200€.
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