As horas que passamos a deslizar pelos vídeos que surgem nas redes sociais parecem inofensivas, mas a ciência alerta: as consequências podem ser graves. Este hábito está a mudar a nossa atenção, a moldar a forma como sentimos prazer e a influenciar até a maneira como nos relacionamos.
“O nosso cérebro pode não estar preparado para esta avalanche de estímulos constantes”, alerta a psicóloga Andreia Filipe Vieira. Sem nos apercebemos, estamos a reprogramar o nosso cérebro através “da visualização de vídeos muito curtos, de forma sucessiva e quase automática, sem grande tempo para refletir sobre o que estamos a ver”, explica.
Este consumo rápido — popularizado por plataformas como TikTok e Instagram, com vídeos de poucos segundos ou minutos — é um ciclo: “Não sabemos exatamente que conteúdo vai surgir a seguir, e isso mantém-nos curiosos e ligados. Cada novo estímulo desencadeia pequenas descargas de dopamina, associadas à recompensa e ao prazer”.
Habitualmente referida como a hormona da felicidade, a dopamina é responsável pela sensação de recompensa, prazer ou excitação. Dessa forma, há diversas ações que estão associadas à libertação de dopamina, como determinados alimentos, bebidas ou atividades que dão prazer. Provoca ainda motivação, uma vez que antecipamos e procuramos as sensações associadas a isso.
Segundo a psicóloga, “essa imprevisibilidade é viciante e acaba por nos incentivar a procurar sempre mais vídeos ou mais publicações”, num loop constante e interminável que não só nos rouba tempo para outras atividades e conexões reais, como afeta a forma de lidarmos com o que nos rodeia.
“O nosso cérebro pode não estar preparado para esta avalanche de estímulos constantes, o que pode provocar sobrecarga mental, fadiga e dificuldade em filtrar o que é realmente importante”, refere.
O impacto vai além da atenção momentânea: “Se passamos grande parte do tempo a mudar de estímulo em segundos, estamos a treinar o cérebro para uma atenção dispersa. Isso reduz a tolerância ao silêncio, à espera e até ao tédio — elementos fundamentais para desenvolvermos um foco profundo”, revela Andreia Vieira.
A memória também sofre. “A memória de curto prazo é facilmente interrompida com estímulos constantes e isso dificulta a consolidação da informação para a memória de longo prazo. Se não damos tempo para ‘digerir’ o que vemos, a informação perde-se mais facilmente”, diz.
“Cada vez mais observo, em contexto clínico, que as pessoas têm necessidade constante de um estímulo”, afirma Vieira. “Parece-me que isso não é só a nível de conteúdo, mas também já se reflete a nível relacional. Existe uma constante necessidade de novidade”, sublinha a psicóloga.
Tal como acontece com outras adições, a dopamina cria uma associação entre o ato de consumir e a sensação de prazer. Com o tempo, precisamos de estímulos cada vez mais frequentes ou mais intensos para sentir o mesmo nível de satisfação, o que reforça o ciclo de procura constante.
Sobre adolescentes e miúdos, a psicóloga é clara: “O cérebro ainda está em desenvolvimento, sobretudo nas áreas ligadas ao controlo da impulsividade, à regulação emocional e ao planeamento. Além disso, estão a formar os seus hábitos de atenção e de processamento de informação, que podem ficar moldados por este padrão rápido”.
E o contexto não ajuda. “Eles estão a crescer no meio das redes sociais, principalmente no TikTok e no Instagram, que são feitos, na sua grande maioria, de vídeos curtos e constantes”, deixa o alerta.
Apesar dos efeitos serem mais pronunciados nos mais novos, “os adultos também não estão imunes”. A especialista sublinha que “a exposição constante pode afetar a capacidade de foco, a gestão emocional e a qualidade do sono”. E deixa o aviso: “Sabemos hoje que o consumo de conteúdo em excesso pode não ser positivo, influenciar-nos de forma negativa e até criar dependência”.
A lista de sinais é longa. “Falta de paciência para tarefas simples, dificuldade em ler textos mais extensos, ansiedade quando não se tem o telemóvel por perto, sensação de estar sempre ocupado mas sem produtividade real, alterações no sono e mudanças na forma como nos relacionamos”, exemplifica.
Andreia Vieira lembra que “apesar de a televisão e a rádio também oferecerem estímulos rápidos, havia mais previsibilidade e pausas. Nas redes sociais, o conteúdo é personalizado, infinito e instantâneo, o que aumenta o potencial de sobrecarga”.
E sair deste ciclo? “Consegue-se, mas exige treino e alguma frustração inicial”, conta à NiT. “Tal como um músculo, a atenção pode ser fortalecida com prática, através de leituras mais longas, atividades manuais e períodos sem distrações digitais”.
Até os formatos de consumo podem ajudar: “Os podcasts acabam por ser uma alternativa mais positiva a estes vídeos curtos, pois já requerem maior concentração e normalmente são de conteúdos mais reflexivos e introspectivos”.
Entre as estratégias que recomenda, estão: “Definir horários específicos para uso das redes, silenciar notificações, praticar atividades offline que exijam mais tempo e atenção, e cultivar momentos de prazer sem recorrer a ecrãs”.
Se nada mudar, A psicóloga prevê que “podemos assistir a uma diminuição generalizada da capacidade de concentração, maior impulsividade e um aumento de ansiedade e fadiga mental. Socialmente, corremos o risco de valorizar cada vez mais a rapidez em detrimento da profundidade”.
E deixa o último alerta: “Os algoritmos estão desenhados para manter o utilizador ligado, mas também podem ser usados de forma ética, para sugerir pausas, promover conteúdos educativos ou incentivar interações mais profundas”.








