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As competências que definem a capacidade social (e emocional) dos miúdos e jovens

A psicóloga Margarida Ferreira e a psicóloga júnior Margarida Coelho, da clínica setubalense Mentes INquietas, explicam quais são.
Nem todos somos iguais.

O estabelecimento de relações e capacidade de socialização são inerentes ao ser humano, uma vez que somos seres sociais. Contudo, o contexto tem uma grande influência no desenvolvimento das mesmas, especificamente porque todos temos diferentes experiências de vida, valores e capacidades.

É principalmente durante a infância e adolescência que se desenvolvem as competências sociais e emocionais, dado serem fases de grande crescimento e onde existem mais oportunidades de estas serem promovidas. No entanto, fatores internos e/ou externos podem contribuir quer para o seu desenvolvimento, como promover o aparecimento de maiores dificuldades.

As competências socioemocionais já foram alvo de diversas investigações. Apesar disso, o modelo CASEL (Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning) é, até ao momento, o que apresenta maior suporte teórico e empírico. Este define estas competências através de cinco dimensões, cada uma associada a um conjunto de conhecimentos, competências e atitudes intrapessoais e interpessoais. Vamos explorar cada uma destas de forma detalhada.

A autoconsciência refere-se ao nosso autoconhecimento, que remete para a capacidade de compreender as nossas emoções e pensamentos e reconhecer como estas influenciam o nosso comportamento em diversas situações. O autoconhecimento implica, por exemplo, sermos capazes de reconhecer quais os nossos pontos fortes e qualidades, bem como as nossas dificuldades e limitações. Um bom desenvolvimento desta competência, permite termos uma maior capacidade de adaptação às diversas situações que ocorrem no nosso dia a dia.

Por outro lado, o autocontrolo remete para a capacidade de gerirmos as nossas emoções, pensamentos e comportamentos de forma eficaz em diversas situações. Este inclui sermos capazes de controlar os nossos impulsos, adiar a gratificação, gerir o stress e ansiedade e persistir perante uma adversidade, de modo a conseguirmos atingir os nossos objetivos.  

À capacidade de compreender perspetivas diferentes das nossas e ter empatia pelos outros, em diferentes contextos chamamos consciência social. Especificamente, remete para a compreensão das normas de comportamento social e ético, sermos capazes de nos colocar no lugar do outro, reconhecendo e aceitando diferenças individuais e culturais.

Chegamos ao ponto das competências de relação interpessoal. A relação interpessoal pressupõe a utilização de competências de comunicação quer verbais, quer não-verbais essenciais para o estabelecimento e manutenção de relações saudáveis e positivas. Para tal, precisamos de ter competências de comunicação eficazes, como a escuta ativa, capacidade de resolução de conflitos e resistência à pressão social.

Por fim, há a tomada de decisão responsável. Esta refere-se à capacidade para fazer escolhas cuidadosas e construtivas a nível pessoal e social em diversas situações. Decisões responsáveis implicam ter uma capacidade de pensamento crítico e uma avaliação realista de benefícios e consequências de diferentes ações, agindo para o bem-estar próprio e dos outros. Importa salientar, que as crianças e jovens ainda não têm maturidade cerebral que permita realizar uma tomada de decisão consciente e refletida, sendo esta uma capacidade que se adquire com o crescimento. Como tal, revelam maiores dificuldades nesta competência, sendo necessário um maior treino e suporte por parte dos adultos.

Há formas de desenvolvimento

A investigação tem revelado que ter as competências acima descritas bem desenvolvidas, promove comportamentos sociais mais positivos, menor suscetibilidade a comportamentos de risco, menos problemas de comportamento (exemplo da agressividade e impulsividade) e emocionais (exemplo da ansiedade e depressão), melhor autoconceito e autoestima e resultados escolares mais favoráveis. Desta forma, desenvolver estas competências permite criar uma base para um melhor desempenho académico, ajustamento saudável e bem-estar psicológico e emocional das crianças e jovens.

Pelo contrário, quando existe um défice nestas competências, há um maior risco para problemas de saúde mental e dificuldades na socialização. Uma vez que a intervenção precoce e imediata, quando surgem dificuldades, diminui estes riscos, importa estar atento a alguns sinais de alerta, tais como quando a criança ou jovem tem uma preferência em estar sozinha ou passa grande parte do seu tempo isolada dos outros, pode ser sugestivo de dificuldades sociais e/ou emocionais.

Há a timidez excessiva e medos/preocupações relativas à interação com os outros, a ansiedade social, ou seja, dificuldades nas interações sociais. Especificamente, um sentimento frequente e intenso de nervosismo e preocupação, perante várias situações sociais e comportamentos sociais desajustados à sua faixa etária e/ou ao contexto.

Pode existir dificuldade em fazer novas amizades ou mantê-las e pedidos frequentes para não ir à escola ou até evitar alguns locais onde iam anteriormente. A única atividade desempenhada pela criança ou jovem e que lhe suscita interesse é através da utilização de um dispositivo de ecrã (exemplo: telemóvel, televisão, tablet e consola de jogos) ou passar grande parte do seu tempo nestes.

Há ainda a presença de um comportamento agitado ou impulsivo pode indicar que a criança ou jovem tenha dificuldades em regular as suas emoções, o que pode interferir nas relações sociais e mudanças abruptas nas rotinas diárias ou nos comportamentos das crianças e jovens.

Estar atento a estas dificuldades que podem surgir nas crianças e jovens, permitirá uma diminuição de fatores de risco, promovendo assim fatores protetores para um desenvolvimento saudável e ajustado.

Para tal, deixamos algumas sugestões para fomentar o desenvolvimento das competências socioemocionais:

— Incentivar as crianças e jovens a partilharem as suas emoções, escutando atentamente e demonstrando respeito pelas suas perspetivas. Também pode ser importante modelar comportamentos saudáveis de comunicação e diálogo, promovendo um espaço seguro para que possam treinar estas competências.

—  Dar tarefas e atividades, ajustadas à idade da criança ou jovem, como por exemplo, algumas responsabilidades em casa ou na escola.

—  Enfatizar o esforço e os progressos que observar nas crianças e jovens, bem como reforçar comportamentos e atitudes positivas e adequadas.

— Integrar as crianças e jovens em atividades extracurriculares, como práticas desportivas, aprender um instrumento musical, escuteiros, entre outras.

— Incentivar e promover momentos em que a criança ou jovem possa estar com um ou mais colegas ou amigos fora do contexto escolar.

— Promover comportamentos pró-sociais, como através de atividades de voluntariado, ajudar uma pessoa próxima ou que conhecem.

— Promover momentos de superação de desafios e procura de resolução de problemas.

— Reduzir o uso de ecrãs e promover momentos sem acesso aos mesmos.

— Caso as dificuldades tenham impacto significativo no dia a dia da criança ou jovem ou mesmo quando surgem alguns dos sinais de alerta, sugerimos a participação em programas de desenvolvimento de competências socioemocionais realizado em grupo.

Na clínica Mentes INquietas estará a decorrer, já a partir de maio, um programa de desenvolvimento de competências pessoais e socioemocionais em contexto de grupo, o Programa logIN II Edição. É destinado a jovens dos dez aos 14 anos, com dificuldades na socialização. Caso tenha interesse, pode entrar em contacto com a clínica através do contacto 265 233 066 ou 927 401 218 ou enviar email para geral@nullmentesinqueitas.pt. 

Já que aqui está, carregue na galeria para conhecer sugestões de inclusão em contexto escolar para alunos com dificuldades no processamento sensorial. 

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